quinta-feira, 17 de março de 2011

Não um Milagre, mas um Mistério: Guimarães Rosa (II).

Voltamos a abordar Guimarães Rosa.
Sem dúvida, ele é um universo. Tal universo precisa ser abordado circularmente. Quanto mais o leitor andar ao redor dele, tanto mais o conhecerá.
Na minha opinião, a crítica concentrou-se exageradamente no que torna Guimarães Rosa diferente de qualquer outro escritor nacional: na sua maneira de tratar o idioma, de subvertê-lo, de tentar substituí-lo por um idioma paralelo. A crítica tem sobrevalorizou suas formas de oralidade, suas invenções lingüísticas (no plano lexical e gramatical sintático), suas desarticulações sintáticas, suas explicitações poéticas e irônicas de sugestões semânticas latentes nas palavras, sua condição de libertador da linguagem, de uma linguagem protagonista – para retomarmos expressões da competentíssima historiadora Luciana Stegagno-Picchio. Alfredo Bosi, não menos sagaz analista, acentua, praticamente, os mesmos aspectos, mencionando a revitalização da expressão poética na ficção, mediante células rítmicas, aliterações, onomatopéias, rimas internas, ousadias mórficas, elipses, cortes e deslocamentos de sintaxe, vocabulário insólito, fusão de estilos, coralidade...
Admito tudo isso, mas não acho que o principal de Guimarães Rosa esteja nisso. O autor foi um homem que, debaixo da mais enganadora das calmas, debaixo da mais aristocrática serenidade,  ou da mais beneditina das compunções escondia uma alma inquieta, como a de Agostinho de Hipona ou de Blaise Pascal.
Nunca me deixei enganar pelo aspecto protocolar de Guimarães Rosa! Ele era um Vesúvio! Sabemos que, quando este vulcão não está em erupção, crescem vinhedos nas suas encostas, e aromas perfumam suas lavas petrificadas...
Nos poucos minutos em que estive com ele, no nosso único encontro no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, houve tempo para perceber tudo isso.
O diplomata Rosa, de repente, abriu o exemplar de A Surprêsa de Ser, que eu acabava de lhe oferecer, e pediu-me licença para ler alguns poemas enquanto me convidava a folhear o livro de contos que me oferecera. A tantas, levantou os olhos das páginas de meu livro, e comentou:
- Isso tem sabor à Plotino!
Fui ver o que ele estava lendo. Era o poema:

 A Difusão. 
De Deus não quero
a infinitude
que me destrói
(me preservando).

De Deus não quero
a onipotência,
que é muito grande
para este Mundo.

De Deus só quero
o seu excesso
que desabrocha
em criatura.
Fiquei atônito! Foi o único leitor que, alguma vez na minha vida, me fez um comentário a respeito. Nenhum dos meus leitores se deteve no mencionado poema. Guimarães Rosa foi capaz de fazê-lo, pois percebeu, imediatamente, que havia aí um comentário lírico ao famoso aforismo da Escolástica, que retém, sem dúvida, remoto sabor à Plotino, mas que sabe, muito mais, ao Pseudo-Dionísio: “Bonum est diffusivum sui”: o bem tende a difundir-se (ou: tende a transbordar).
Insisto em que se se continuem a fazer diferenciadas leituras de Guimarães Rosa e seu universo.Inclusive uma leitura metafísica, uma leitura pascaliana, uma leitura – digâmo-lo claramente – cristão-mística.
Em meu livro A Sombra Luminosa (Ensaios de Estética Cristã. Petrópolis, Editora Vozes, 1995.p.85-98), fiz uma tentativa sob essa chave.
Convido os leitores a abandonarem as agradáveis autopistas  das interpretações lingüísticas. Convido os leitores a adentrarem-se no Grande Sertão: Veredas subliminal,  em cujas dobras, ou - como o próprio romancista dizia a Vicente Ferreira - em cujos “buritis e capim devidamente semicamuflados”  se travava uma luta de vida e morte entre Deus e o Diabo, entre a alma tentada pela incredulidade, e a alma pura, que aceita a Revelação Divina.
Guimarães Rosa era católico – não propriamente confessional – mas um católico agreste, capaz de mesclar suas obrigações de diplomata com a reza do Rosário, visto que era devoto da Virgem Maria.
A Edoardo Bizarri, seu tradutor italiano, confidenciou:
- Quero ficar com o Tao, com os Vedas e Upanixades, com os Evangelistas e São Paulo, com Platão e Plotino, com Bergson e Berdiaeff – com Cristo principalmente.
(Cit. in: A Sombra Luminosa. p.87).

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