quinta-feira, 17 de março de 2011

Não um Milagre, mas um Mistério: Guimarães Rosa.(I)

Admiro cada vez mais Guimarães Rosa. Mas admiro, ainda mais, os que conseguem lê-lo neste momento, depois de desfeita a avalanche do entusiasmo inicial.
Tive o prazer de conhecer o grande romancista.Munido de uma carta de apresentação de Murilo Mendes, procurei-o no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, em 1963.
O escritor acolheu-me com a naturalidade e a simpatia de um Grand Seigneur da Literatura. Não façam juízo errado sobre o que eu quero dizer. Guimarães era, de verdade, um grand seigneur. Não precisava simular o que era, como certos autores que vim a conhecer, quer no Brasil, quer no exterior, que tendem a fazê-lo, evidentemente não sendo ainda grands seigneurs, mas simplesmente seigneurs de la littérature.
Na ocasião, Guiimarães Rosa teve a gentileza, até, de me oferecer um de seus livros, Primeiras Estórias, que enriqueceu para mim com uma dedicatória. Não sei porque, a letra de Guimarães Rosa me pareceu a de um favo de mel, talvez porque seus grafismos tendiam a enrolar-se em si mesmos, como abelhas quando as perturba a fumaça dos meleiros. Se alguém, que conheceu sua letra divergir de mim, busque outra imagem para qualificá-la, desde que destaque sua maneira graciosa de se enrolar para cima...
Não estou, porém, interessado em discorrer sobre a caligrafia desse gênio! Ah, sim, Guimarães foi um dos poucos gênios que o Brasil teve! Mas foi um gênio-genioso. Um gênio mais da língua portuguesa no Brasil, do que um gênio da literatura.
Será que consigo explicar-me?
Gênios da língua são indivíduos que nascem falando uma linguagem própria, que não aprendem de ninguém, nem de suas mães, nem de suas amas. Nascem com o eros linguístico, e por isso, depois de aprenderem uma língua – digamos a nossa – inventam outra, e sobre essa, inventam mil outras. Acabam abrindo, no subsolo da língua, ou melhor, nas suas entranhas, inesgotáveis jazidas petrolíferas, que a tornam rica, opulenta, orgulhosa. A imagem não é das melhores: tentemos outra: tais gênios descobrem continentes indescobertos. Continentes? Sim, os dicionários os definem: “consideráveis massas de terra cercadas de águas ocêanicas”. Será lícito tentar uma terceira imagem? Tais gênios mostram, com o dedo, que debaixo da terra seca do Nordeste, ou da terra irrigada do Sul, existem esmeraldas, rubis, safiras, águas-marinhas, topázios...
Ocorre, porém, que tais gênios-geniosos conseguem falar tais línguas que inventam, mas falam apenas para si mesmos. Escrevem nessas línguas, e são entendidos na primeira vez, porque todo o mundo lhes presta uma atenção que só se presta a Deus na oração. Obviamente, tal atenção, com o tempo esmorece, porque existe um só Deus, e só Ele pode ser objeto de adoração verdadeira.
Quando tais gênios morrem, quando – de acordo com os historiadores da literatura –são incendiados no altar da própria glória, os leitores anônimos, os sobreviventes, que não participaram do simpósio platônico em que seus romances ou poemas eram saboreados em vida, quase ninguém consegue mais entendê-los. Ou melhor, quase ninguém têm mais paciência de entendê-los, e por isso, cessa-se de admirá-los.
Na primeira vez que li Guimarães Rosa – refiro-me, de modo especial, a Grande Sertão: Veredas – fiquei enfeitiçado. Foi como se me esquecesse de falar português, e começasse a falar outra  língua. Essa língua inédita parecia revelar-me o que eu pressentia existir na minha própria língua, mas que não sentia. Guimarães Rosa me obrigava a ler diferentemente o seu e o meu português. Ele me obrigava a ler com inúmeras pausas, com infinitas pausas. Graças a essas pausas, eu acabava por ler o que nunca tinha lido: as pausas! As pausas constituem a poesia. Se não houvesse pausas, não haveria versos; não havendo versos, não haveria repetições; não havendo repetições, não haveria música; não havendo música, não existiriam as Musas, nem evidentemente a Musa da Poesia.
Gostei tanto de Guimarães Rosa que cheguei a escrever um ensaio sobre a dimensão religiosa de Grande Sertão: Veredas. Esse ensaio, apresentado pela primeira vez em 1987, num Simpósio sobre Deus na Literatura Latino-Americana, em Bogotá, na Universidade Javeriana, foi incluído no livro: A Sombra Luminosa. Ensaios de Estética Cristã. (Petrópolis, Editora Vozes, 1995.p.85-98).
De 1995 até hoje, passaram-se 15 anos.
Resolvi, um dia desses re-ler Guimarães Rosa. Não o consegui. Li umas 90 páginas, e parei. Senti-me falando uma língua que ninguém mais fala.
Perdoai-me, caros leitores!
Não consigo recobrar a atenção que Guimarães exige de seus leitores.
A atenção que ele exigia – e exige ainda - é excessivamente mística para um agnóstico da literatura como me tornei. Hoje só leio literatura clássica, ou literatura não clássica que já tenha sido experimentada, mas que não seja experimental.
Leio Machado: sempre! Leio Lima Barreto: muitas vezes. Leio Garrett: de vez em quando. Leio Camões, Bernardes, Vieira, Fernando Pessoa.
Leio muita gente mais, como Corção (desprezado pelos blasés),  Simões Lopes Neto, Graciliano Ramos, José Lins do Rego (Fogo Morto é um assombro!), Erico Verissimo (É preciso redescobrir O Continente!), mas também Ferreira Gullar, João Ubaldo Ribeiro, Ligia Fagundes Teles, Dalton Trevisan, Moacyr Scliar, Flávio José Cardoso, Sérgio Faraco, Luis Antônio Assis Brasil, Augusto e Haroldo de Campos (suas traduções) ...
Releio até Clarice Lispector, que quase inventou uma nova língua, mas que, felizmente, não chegou a tanto. Reconheço que existe algo  de“genial” no que ela escreveu...É esse genial que me encanta. Quanto mais perto estou do jorro inicial dela, melhor. O livro dela que mais aprecio é Perto do Coração Selvagem! Depois Maçã no Escuro.
Há escritores que são milagres, e há escritores que são mistérios. Guimarães Rosa é um mistério. Por isso, é indicado para devotos, místicos, para gente que alguma vez levitou na vida...ou quer levitar!

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