sábado, 12 de março de 2011

A Leitura é ainda possível?

          Na minha coletânea de ensaios: Ler Por Dentro (Porto Alegre, Editora Pradense, R$22,00), desenvolvo duas linhas de reflexão: a primeira sobre literatura, de modo especial a gaúcha; a segunda sobre o problema da leitura na época da mídia e da informática.
Declaro, desde já, que não defendo a leitura como lazer hegemônico. Isso ela foi no século XIX, pelo menos para o grande público, que não dispunha de tempo e dinheiro para freqüentar óperas, teatros, salões, e outros divertimentos. Naquela época, a leitura preenchia o tempo que sobrava (quando sobrava!) do trabalho. Com a invenção da iluminação a gás e, décadas após, com a invenção da lâmpada incandescente, as noites encompridaram-se, e as insônias também se multiplicaram.  O fato é que, no tempo dos folhetins, publicados nos jornais diários ou semanais - refiro-me aos folhetins de Balzac ou Machado de Assis - as pessoas dedicavam a maior parte do tempo à leitura, que se converteu numa sorveteria pessoal, numa espécie de café (foi a época em que os cafés começaram a enxamear nas cidades) a domicílio. É óbvio que, naquela época, também se lia por desfastio, para enxotar o tédio, como ocorre, atualmente, quando os leitores mergulham nos best-sellers quase como se mergulhassem numa piscina, num dia tórrido de verão. Afinal, que se busca em tais volumes de consumo? Suponho que se espere deles o que, em outros momentos de irritação e mal-estar, esperamos de um comprimido de paracetemol, ou de um papo descontraído no bar: alívio e entretenimento.
Após as mudanças de ritmo na leitura, no século XX, seguidas pelo monopólio das imagens em desfavor das letras, a leitura tornou-se “chata”. – Chata? É lógico que os jovens entendem por isso uma assimilação lenta e meditativa, que não se combina com cachorros-quentes e  coca-colas devorados às pressas. A leitura exige um certo distanciamento, aquilo a que os teóricos da Estética chamam  “distância psíquica”.
Eis por que a leitura teve de suportar, com suas duas outras irmãs, a música clássica e a contemplação dos objetos visuais, em especial a escultura e a arquitetura, um verdadeiro exílio.
 Pergunto: que atitude se deve tomar perante tal fenômeno? Ficaremos a chorar o leite derramado?
Respondo com convicção: deixemos de lado tal atitude derrotista!
É preciso repropor aos jovens um novo tipo de leitura. Persuadi-los de que a leitura, apesar das estonteantes modificações pelas quais passou nossa psicologia pós-Internet, ainda vale a pena.
Começo por dizer que a leitura é, primeiramente, um espaço de liberdade.  Ao lermos, sem pressa ou com a pressa que o autor impõe, de acordo com a observação de Blaise Pascal, exercemos nossa liberdade. Somos obrigados a posicionar-nos perante o autor. O autor limita-se a expor algo ao leitor. Este, durante algum tempo, escuta o que é proposto. Depois tem plena liberdade para discutir, interpelar, contestar. O diálogo da leitura assemelha-se, um pouco, a certas bombas de efeito retardado. Mas é preciso notar que, na balbúrdia, em que vivemos, poucos se dispõem a ouvir.  
            Em segundo lugar, a leitura, mais que a televisão e outras formas de distração assemelhadas, é exercício neuronal. Os neurocientistas podem  onfirmar essa afirmação. Nossos neurônios não se harmonizam, nem com a falsa paz das cisternas, nem com os redemoinhos de nossa frenética mobilidade. Preferem as fontes que borbulham, os rios que correm – os mesmos rios de Heráclito que não passam duas vezes  debaixo das mesmas pontes.
Em terceiro lugar, a leitura é uma criação pessoal. Em vez de recebermos imagens pré-formadas, reformadas, ou deformadas, somos obrigados a produzir nossas imagens, a elaborar imagens originais, tiradas de nosso próprio fundo-de- garantia, de nossa imaginação-moinho que, desde a mais recuada infância, é coagida a moer a sua própria farinha, a fazer o seu próprio pão. André Leroi-Gourhan, paleontólogo e historiador da Arte Pré-Histórica, sustentava que a imaginação das pessoas do século XX não era maior do que a das costureiras de Paris no século XIX! Tenho a impressão de que Leroi-Gourhan exagerou, mas não excessivamente.
A maioria de nossos contemporâneos vive de “descarregamentos” da Internet, de pilhagens eletrônicas, e até de clichês saqueados de todos os armazéns digitais do planeta.
            Confesso que se poderiam apresentar outras razões em favor da leitura. Prefiro concluir esta crônica com uma razão irresistível, a melhor delas:: o prazer! Meu Deus, se a humanidade deixasse de ler, o mundo tornar-se-ia muito tedioso! As pessoas iriam recorrer a soníferos para alargarem as noites... Até o sexo iria sofrer as conseqüências disso! O sexo, sem pitadas de especiarias de legítimo amor cortês, poderia cansar. Pior do que isso: poderia não funcionar, nem com o arranque turbinado do Viagra, e de outros estimuladores da função erétil.  

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