quinta-feira, 17 de março de 2011

A Importância dos Avós

I. O surgimento da criança na História da Arte.
Ao ler a História Social da Criança e da Família[1], de Philippe Áriès, tive algumas surpresas.
Uma delas foi descobrir que, no nosso mundo ocidental, até por volta do século XII, a Arte desconhecia a infância, ou não se interessava em representá-la. Já o havia notado, em meus cursos de História da Arte na UFRGS. Mas foi Philippe Ariès quem me confirmou tal realidade.[2]
Quando os medievais queriam figurar a cena do Evangelho em que Jesus pede que se deixe vir a Ele as criancinhas, os artistas representavam em torno de Jesus oito homens, sem nenhuma das características da infância. Reproduziam tais homens em escala menor. Apenas o seu tamanho os distinguia dos adultos. Numa outra cena, as três crianças que São Nicolau ressuscita, aparecem representadas em escala reduzida, sem nenhuma diferença de expressão ou de traços. Nos raros casos em que uma criança era representada nua, o pintor não receava dar-lhe a musculatura de um adulto.[3] Numa palavra, até ao fim do século XIII, “não existem crianças caracterizadas por uma expressão particular, e sim homens de tamanho reduzido”.[4]
Foi só a partir do século XIII que surgiram alguns tipos de crianças mais próximos do sentimento moderno.
Surgiu, primeiramente o Anjo que, normalmente, era figurado como um jovem adolescente. O “Anjo de Reims” seria, no entender de especialistas, um menino grande, mais do que uma criança.[5] Diz Ariès: “estamos longe dos adultos em escala reduzida das miniaturas medievais.[6] Logo depois, os artistas inventaram o ancestral de todas as crianças da História da Arte: o Menino Jesus, seguido pela imagem de Nossa Senhora Menina. No início, Jesus era como as outras crianças, um adulto miniatural. Com a multiplicação das Madonnas, a infância começou a conquistar o seu lugar ao sol. Em termos gerais, até ao século XIV, o sentimento encantador da tenra infância permaneceu limitado ao Menino Jesus.[7]
Um pouco depois, no final da Arte Gótica, aparece a criança nua. Os artistas ousam desnudar o Menino Jesus. A Arte Italiana contribuiu muito para uma maior liberdade nesse domínio, com suas delicadas representações da Maternidade Divina. Nestas, vê-se o Menino Jesus procurando o seio da Mãe, preparando-se para beijá-la ou acariciá-la. Logo depois, vê-se o Menino Jesus em cenas domésticas, por exemplo, comendo o seu mingau.[8].
Convém esclarecer que, já no Renascimento, as crianças começaram a merecer maior atenção dos pais. No livro A Vida Quotidiana em Florença no Tempo dos Médicis, J. Lucas-Dubreton informa que, nessa época, já se colecionavam as primeiras palavras das crianças, como babbo e mamma.[9][10] Parece, também, que nesse tempo, os netos gozavam de alguma consideração. Por exemplo, eles são apresentados por um burguês a Clarissa Orsini, mulher de Lorenzo, o Magnífico: “Madonna Clarissa, aqui está a minha filha. Vamos, avança, aperta a mão à senhora... E mais esta e mais esta. Aquela é minha neta, e também aquela outra, e ainda mais esta. Todos estes são meus netos: vamos lá, estejam quietos e sejam gentis”.[11]
Somente no século XVI apareceram os primeiros retratos de crianças, isoladas dos pais, completando assim a evolução iconográfica.
No século XVII, semelhante tipo de representação torna-se comum. Em outras palavras: “a grande novidade do século XVII” é a criança representada sozinha e por ela mesma. [12]

II. Uma inovação: o sentimento dos avós em relação aos netos.
Notemos que, até ao século XIX, a idade média de vida era muito baixa. O conhecido geneticista e demógrafo, Albert Jacquard, observa que, ainda no século XVIII, a duração média de uma vida limitava-se a 30 anos. Atualmente, “a expectativa de vida”, calculada a partir do conjunto da população, é da ordem de quarenta anos. A duração média, porém, aproxima-se, em alguns países, dos 80 anos.[13]
Em razão disso, era muito raro que as crianças, no passado, conhecessem os avós.  Não existia aquilo que nós denominamos: “avovice”.
Um dos primeiros casos de avovice,  encontra-se numa carta deliciosa de Madame de Sévigné (Marie de Rabutin-Chantal, Marquesa de Sévigné. 1626-1696), que ficou viúva aos 25 anos com dois filhos. Era neta de Santa Joana Francisca Fremiot de Chantal (1572-1641), discípula de São Francisco de Sales, e fundadora da Ordem da Visitação. Madame de Sévignér celebrizou-se pelas 1.500 cartas que escreveu, a maioria delas endereçadas à sua filha, nas quais ela inventou um estilo que ainda hoje cativa seus leitores. Nessas cartas, Madame de Sévigné descreve sua netinha como ninguém o tinha feito até então. Eis uns trechos de suas cartas:
“Nossa menina é uma belezinha.´É morena e muito bonita. Lá vem ela. Dá-me um beijo lambuzado, mas nunca grita. Ele me abraça, me reconhece, ri para mim e me chama só de Maman (em vez de Bonne Maman)”. “Eu a amo muito. Mandei cortar seus cabelos, e ela agora usa um penteado solto. Esse penteado é feito para ela. Sua tez, seu pescoço e seu corpinho são admiráveis. Ela faz cem pequenas coisinhas: faz carinhos, bate, faz o sinal da cruz, pede desculpas, faz reverência, beija a mão, sacode os ombros, dança, agrada, segura o queixo: enfim, ela é bonita em tudo o que faz. Distraio-me com ela horas a fio”. (Cit. Ibid. Carta de 18 de setembro de 1671; carta 22 de dezembro de 1671; carta de 20 de maio de 1672).[14]
Muitas mães e amas já haviam sentido o que Madame de Sévigné sentiu. Nenhuma, porém, admitira que tais sentimentos fossem dignos de ser expressos de uma forma tão carinhosa.[15]
Convenhamos: as expressões de Madame de Sévigné poderiam ser encontradas num e-mail dos dias de hoje.
Li, recentemente, As Confissões de Jean-Jacques Rousseau.[16] Foram iniciadas em 1712, e prolongam-se até 1762. Encontrei em suas páginas poucas referências aos avós, sinal de que, nessa época, os avós quase não ocupavam a atenção das pessoas.

III. Cartas à minha neta.
As cartas de Madame Sévigne são do fim do século XVII, de 1664 a 1696. De lá até hoje, têm havido muitas mudanças de comportamento nas relações familiares. A rigor, tais mudanças continuam ocorrendo no século XXI.
Fatores múltiplos contribuem para isso. A situação sócio-econômica acelerou a profissionalização da mulher. O rompimento das estruturas familiares tradicionais favoreceu a instabilidades das uniões matrimoniais. Casais fazem-se e desfazem-se com freqüência alarmante. Outro fator importante tem sido o aumento da idade média de vida. Em nossa época, já não há o problema de os avós morrerem sem conhecer os netos.
O problema hoje é outro: o de os avós conhecerem seus netos! É relativamente comum o caso de filhos que vão trabalhar em outros estados, em outros países, em outros continentes. O convívio com os avós tornou-se intermitente, às vezes casual.
Um outro fator merece ser considerado: em nossos dias, os casamentos tendem a ser realizados cada vez mais tarde. Com isso, apesar da longevidade dos avós, estes, ao chegar a época de conviverem com os netos, já não têm mais saúde.
Podemos perguntar-nos: como serão, no futuro, tais relações?
Permito-me uma referência pessoal.
Tenho apenas uma neta, Ingrid
A experiência do convívio com ela foi, para mim, uma experiência única. Não direi superior à dos filhos; foi de outra natureza.
Amar um neto não é como amar um filho. No amor dos filhos entra, necessariamente, uma dimensão de autoridade, de controle – fatores que não estão presentes na relação avô-neto.
Nessa relação há mais ternura, mais paciência, mais singeleza. O avô e a avó sabem que existe um horizonte mortal na vida deles. É preciso aproveitar o tempo. Em vista disso, o convívio torna-se mais intenso.
Outro problema atual, desafiador, é o seguinte: sabíamos que já não podíamos orientar, completamente, a educação dos filhos. Pois bem, sabemos, agora, que é mais difícil orientar a educação de nossos netos. A escola, a universidade, a mídia, o ambiente social, tudo se interpõe, contrariando, com certa freqüência, nossos princípios e aspirações.
Esta é uma das  razões, a primordial, que me levou a escrever as Cartas à Minha Neta.
Quis expor-lhe minha visão do Cristianismo. Além disso, sou o que se convencionou em qualificar “um humanista”, um apreciador das coisas artísticas, nas suas mais variadas expressões. Estas constituem, para mim, um dos maiores encantos da vida.
Já que a sociedade, em que minha neta é obrigada a viver, tem movimentos que criam oposições e conflitos com minha crença religiosa, e até com minhas posições humanistas, resolvi deixar-lhe uma espécie de roteiro de viagem. Espero que ela (e minhas outras “netas”, isto é, as crianças da idade dela) aproveitem algo de minha experiência e de meu esforço.
Procurei oferecer-lhes minha visão sem hipocrisia, nem presunção. Baseei-me  num documento preciso: o Novo Catecismo da Igreja Católica, publicado em 1992, com a aprovação do Papa, de saudosa memória, João Paulo II.
      Confrontei com a doutrina do Catecismo, não só meu mundo intelectual e artístico, mas também minha formação pessoal de católico. O livro, portanto, é respeitoso, embora seja crítico, no sentido original dessa palavra: ponderar Avaliei o conteúdo de minha Fé, não só o seu conteúdo dogmático, mas também o seu conteúdo existencial. Esforcei-me por mostrar que o mundo natural não é abolido pelo mundo sobrenatural. É elevado a outra ordem. O homem, a quem está prometida a Ressurreição, é este homem concreto que eu sou, qaue é minha neta, que são vocês, eventuais leitores.


[1] Tradução de Dora Flaksman. 2 ed. Rio de Janeiro, Livros Técnicos e Científicos Editora, 1981.
[2] Ibid. p. 50.
[3] Ibid. p. 51
[4] Ibid. 51.
[5] Ibid. p. 52.
[6] Ibid. p. 52.
[7] Ibid. p. 53.
[8] Ibid. p. 54.
[9] Tradução de Maria Fernanda Oliveira Marques. Lisboa, Livros do Brasil, sd. p. 110.
[10] Ibid. p. 110.
[12] Ibid. p. 60.
[13] JACQUARD, Albert et PLANÈS, Huguette. Filosofia para Não-Filósofos. Trad. De Guilherme João de Freitas Teixeira. Rio de Janeiro, Elsevier Editora, 2004. p. 21.  
[14] ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. p..68
[15] Ibid. p. 68.
[16] Les ConfessionsLes Rêveries du  Promeneur Solitaire. Paris, Bibliothèque de la Pléiade, 1951.Em português: 0As Confissões. Prefácio e tradução de Wilson Lousada. Rio de Janeiro, Ediouro, sd.

Um comentário:

  1. Linda a maneira que como apresentas o desenrrolar do papel dos avos no decorrer dos tempos. Gostei muito, Armindo. Irei abraca-lo em breve em Porto Alegre. Carmen M. Trevisan

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