quinta-feira, 17 de março de 2011

Católicos Deixam a Igreja: Por Que?

Jornais europeus divulgaram que, na Europa Central, especialmente na Áustria e na Alemanha, em 2010, um número considerável de católicos desligaram-se da Igreja Católica, e de suas obrigações pecuniárias em relação a elas. Nos citados países, cada católico deve declarar se deseja pagar a contribuição devida à sua Igreja, algo como 1,1% dos rendimentos brutos anuais tributáveis.
A Conferência Episcopal Austríaca declarou que, em 2010, 87.393 católicos pediram para desfiliar-se da comunidade, uns 64 % a mais do que em 2009. Desde os tempos da ocupação nazista, foi o maior record de deserções. O Cardeal de Viena, Christoph Schönborn, admitiu que a razão mais indicada como motivo de tais abandonos, foram os escândalos sacerdotais dos últimos anos. Na Alemanha deu-se um fenômeno parecido: desde 1990, 1.700.000 católicos abandonaram a Igreja.
Sociólogos, que analisaram esse fenômeno, dizem que os escândalos não são suficientes para explicar tais deserções. Outros fatores estão influindo nessas decisões de “apostasia em massa”.
Impossível, em termos de consciência adulta católica, não refletir sobre isso. Seria imitarmos os avestruzes, cujas cabeças enterradas na areia – para não ver o perigo – já desgastaram tanto a metáfora conexa que ninguém mais a emprega. Pensemos, pois, a céu aberto, sem medo das conseqüências negativas para o status eclesiástico.
Primeiramente, uma observação genérica: atribui-se a Nélson Rodrigues a autoria da brasileiríssima expressão: A unanimidade é burra.  Excluamos a-priori a idéia de que o maior número, ou seja, a adesão gregária seja garantia de verdade ou de bondade. Digamos, simplesmente, que a questão deve ser avaliada por outros parâmetros.
Quais?
Por exemplo: quantas deserções centro-européias têm a ver, realmente, com os escândalos? Quantas não se relacionam com o teor de vida contemporâneo, incompatível – não só com as exigências do Evangelho - mas com as meras exigências da lei Mosaica? Claro está, Jesus não veio abolir os Dez mandamentos,  mas completá-los, segundo sua afirmação explícita. É preciso, pois, considerar que o Cristianismo, do qual o Catolicismo, sua expressão estatísticamente mais notável, faz parte, tem exigências superiores às do Judaísmo. A começar pelo dogma fundamental da Encarnação do Filho Unigênito de Deus. Que diremos dos demais dogmas, com o da Eucaristia?
Em segundo lugar, quantas adesões ao Catolicismo seriam, de verdade, adesões de fé adulta? Quantas  dessas –adesões não seriam adesões inerciais?
Em terceiro lugar: considerar a Fé Cristã uma espécie de lingote de ouro, guardado num cofre do Banco Central, é ilusão gravíssima. A Fé é um organismo vivo. O próprio Jesus a comparou a uma semente, que se desenvolve no silêncio, sem que ninguém dê por ela, durante algum tempo. Ou como diz a parábola: a semente desenvolve-se enquanto o homem dorme, acorda, trabalha. Disso não se conclui que a semente não precise de cuidados, como qualquer outra semente.
Uma questão ainda: é possível haver Fé Cristã sem a oração? O cristão praticante é obrigado a assistir à missa dominical. Uma forma de a Igreja o constranger à oração!
Mas...que oração constrangida é essa?
Nenhum pai deste mundo aceitaria uma declaração de afeto nos seguintes termos: “ Vim vê-lo porque se não viesse, eu seria considerado mau filho!”
É hora de denunciarmos clichês que já não podem mais disfarçar sua máscara de piedade. Oração é outra coisa: é necessidade de vida. É como a respiração. Ninguém diz: Respiro, porque se não respirar, morro...
Que a unanimidade seja burra, ou não, a verdade de tal afirmação não nos interessa, pelo menos nestas considerações. O que está em jogo é uma questão mais essencial: o que podemos fazer, como comunidade católica, para conscientizar os católicos a lerem o Evangelho (não deixando isso como obrigação específica dos sacerdotes)? O que fazer para conscientizar a comunidade de que os escândalos da Igreja como instituição são escândalos humanos, e por isso mesmo, passíveis de análises como outros fenômenos humanos?
A Igreja, como Instituição, está mostrando dificuldade em aceitar que a dimensão humana de seus quadros necessita de mais assistência psicológica, mais ajuda médica, mais apoio comunitário. Os escândalos, como tais, são, em grande parte, conseqüência do tipo de sociedade que criamos.
Com uma sexualidade permissiva, estimulada por todos os meios, não é possível exigir de um clero totalitariamente celibatário, que dê provas de heroísmo em todo o tempo e lugar.
Não queremos sugerir que seja abolido o celibato! A Igreja tem razões profundas para mantê-lo. A questão, que os Bispos em sua maioria propõem, é outra: aproveitar, ou não, a experiência dos irmãos das Igrejas Orientais, que estabeleceram dois tipos de clero, o celibatário, e o não-celibatário.
A questão poderia ser formulada mais claramente: não seria oportuno informar-nos com os Irmãos Separados de suas experiências nesse campo? Se os Irmãos Separados resolveram aproveitar a experiência monacal da Igreja Católica, adatando-a à deles, por que não poderiam ensinar-nos modalidades alternativas de vida cristã?
O que se nota, nos círculos católicos, é um quase-abandono do projeto apostólico de São Paulo. Numa de suas Cartas, o Apóstolo dizia: Examinai tudo. Retende o que for bom. (I Ts 5,21).
Talvez necessitemos examinar mais coisas.
Mas, para tirar a essa crônica qualquer traço de impertinência, finalizêmo-la com uma pitada de humor. numa crônica, publicada no corrente mês de março de 2011, o conhecido Prêmio Nobel da Economia, Paul Krugman, escreveu:
- Há muita informação por aí; se o mundo não estivesse indo para o inferno, seria um lugar formidável.

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