sábado, 12 de março de 2011

A Arte de Ser Avô

      
       Nem todos os leitores de Victor Hugo (1802-1885) sabem que  o poeta publicou um livro intitulado: L’Art d’Être Grand-Père, título desta crônica.
É interessante perguntar-se: existirá uma arte de ser avô, ou se trata de uma arte, que ninguém sabe como é antes de praticá-la, à maneira dos caminhos de Antônio Machado que se hacen al andar?.
 Vejamos, primeiramente, como Victor Hugo organiza a sua coletânea.
Após um poema introdutório, o poeta estabelece uma secção, cujo título é em latim: “Laus Puero”( “Louvor ao Menino”). Segue-se outra secção,  constituída por “Duas Canções”, e o poema “Jeanne Adormecida” O livro conclui-se com uma última secção:: “O Que as Crianças Lerão Quando Forem Adultas”
Os poemas desse livro de Victor Hugo não desmerecem de sua fama, embora se trate de uma obra poética “menor”. Já no poema inicial deparamos com uma estrofe memorável:

Ríamos desse bom rir
que o Éden jamais escutou,
dizendo-nos sempre, outra vez,
O que sempre nos havíamos dito.

Na segunda parte, o autor faz questão de definir-se como avô:

 Sou um avô que ultrapassou todos os limites.
Triste, infinito em sua paternidade,
nada mais sou  do que um bom e velho sorriso teimoso.

A metáfora, que acompanha os versos recém-citados, possui um timbre  quase litúrgico:

Sou o antepassado que ama essas mãos que a alvorada torna azuis.

Victor Hugo apressa-se em revelar aos leitores os nomes de seus dois netos, Jeanne e George. Com simpática malícia, declara-se:

Indivíduo anárquico, ao ponto de mostrar ás crianças
O augusto armário onde se guardam os doces.

O avô carinhoso não teme confessar delitos mais graves, como o de subir às cadeiras para alcançar-lhes um prato de cerejas, reservadas a sobremesa da família. O que segue pareceria destoar da genialidade do autor: uma série de invectivas grandiloquentes sobre a sociedade burguesa. A tais reprovações não se subtraem nem Scapin transformado em bispo, nem Basílio convertido em banqueiro...
 Nos poemas seguintes, o poeta continua a surpreender o nosso gosto  com seu estilo pomposo:

O que chamamos morte, o que chamamos vida,
fala a mesma língua à alma insatisfeita
Cá embaixo, nos asfixiamos.
Sonhar é planar sobre as apoteoses,
e compreender que os ninhos dizem as mesmas coisas
que os túmulos profundos.

Num dos poemas dessa secção, o poeta exclama, com autêntica emoção:

Quanto a mim, ficarei satisfeito , eu que sonho
Diante dos céus sagrados,
Enquanto Jeanne for minha guia sobre a terra.
Enquanto Deus permitir que eu tenha, oh puro mistério,
No meu áspero caminho,
Essas duas felicidades, nas quais se resume todo ideal possível,

Na alma um astro imenso e, na minha mão pacífica,
uma pequenina mão.

Um dos poemas mais pessoais  de  Victor Hugo, onde sua ternura resplandece, é o intitulado “Casada e Mãe”.O poema faz o poeta vislumbrar  sua neta, como mulher feita, prolongando-se num filho. É aqui que Victor Hugo nos oferece uma de suas metáforas mais belas:

Uma aurora não nasceu para ficar sozinha,
Um dia, numa fresca manhã, deslumbrante,
casar-se-á essa alvorada, ainda gotejante de estrelas,
e outra alma, nessa hora errante, sob os véus,
sentirá o futuro repousando em Deus.


Jeanne, a neta, será, sem dúvida “uma esposa responsável e uma nutriz dedicada”. Quando a criança estiver mais crescida, a mãe a levará aos Jardins das Tulherias:

mesclando o abril dos homens ao grande abril de Deus.

Nesse momento, outras mães:

“todas irmãs diante de Deus, sorrirão
no deslumbramento de inumeráveis rosas.
E eu serei apenas um olho profundo na escuridão.

O livro contém outros versos do mesmo teor emotivo, de  uma delicadeza sutil, especialmente os do poema “Jeanne Adormecida”, que se encerra com estas palavras, dirigidas pelo Criador à sua neta:

(...) O teu sonho é o céu. Eu te dei, porém, a escuridão.
Mas o céu, tu o terás. Espera o outro berço,
o túmulo.
Talvez o leitor contemporâneo tenha dificuldades em apreciar determinados poemas, como “Pátria”, ou o poema “Progresso”, que principia com os versos:

Avante, grande marcha humana!
Povo, muda de lugar.

O poema “Fraternidade” está imbuído do mesmo espírito. Lança um apelo tipicamente romântico:

Eu sonho com a equidade, com a verdade profunda,
com o amor que quer, com a esperança que brilha, com a fé que comove,
e com um povo, mais esclarecido do que punido!
São poemas que possuem uma espécie de  travo de retórica, que já não é de nosso agrado. Em alguns momentos, até, os versos de Victor Hugo podem, parecer-nos irrisórios:

Forçarei Deus a desabrochar
às custas da  alegria e do  amor.

Não esqueçamos, contudo, que Victor Hugo é um dos maiores poetas da França. Disse um crítico de sua terra que Victor Hugo prolongou, quase além das possibilidades humanas, a potência criadora. Eis a razão por que a França julgou seu dever colocar as cinzas do poeta no seu Panteão. Homenagem justa a um poeta que foi um dos únicos, dentre todos os poetas, a tocar o coração de seu povo. Baudelaire, que apreciava o autor de Os Miseráveis, escreveu:“ Nenhum artista é mais universal do que ele.” Henri de Montherlant compara-o a Racine, o qual teria escrito, ao menos, 22 “versos divinos”. Victor Hugo seria o rival de Racine nessa estupenda disputa. De qualquer modo, bastaria para imortalizar Victor Hugo, o belíssimo poema “Booz Adormecido”, traduzido no Brasil, com grande finesse, por Eduardo Guimarães.

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