segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Viagem ao redor do Catolicismo(IV)

                Um leitor estranhou que disséssemos, numa de nossas crônicas, que o Cristianismo (e obviamente o Catolicismo) começavam por um pessimismo radical.
                Em vista disso, resolvemos reler um de nossos livros prediletos, Ortodoxia, de Gilbert Keith Chesterton, r omancista e ensaísta católico, cuja vasta produção Gustavo Corção se esforçou por divulgar entre nós.
Em Ortodoxia  Chesterton, por assim dizer, nos golpeia com um trecho de inesperada clareza:
                -Certos novos teólogos, diz ele, questionam o pecado original, que constitui a única parte da teologia cristã que pode realmente ser provada. Alguns seguidores do reverendo R. J. Campbell, em sua espiritualidade quase exigente demais, admitem a ausência de pecado em Deus, que eles não podem ver nem em sonhos. Mas essencialmente negam o pecado humano, que eles podem ver na rua. Os santos mais poderosos, assim como os mais poderosos céticos, tomaram o mal positivo como ponto de partida de sua argumentação. Se for verdade (como certamente é) que o homem pode sentir uma felicidade extraordinária em esfolar um gato, então o filósofo religioso só pode fazer uma dentre duas deduções. Ou deve negar a existência de Deus como fazem todos os ateus, ou deve negar a presente união entre Deus e o homem, como fazem todos os cristãos.Os novos teólogos parecem pensar que uma solução altamente racionalista é negar o gato.(São Paulo,Editora Mundo Cristão, 2007. p.26-27).
                Sem dúvida, Chesterton é um grande companheiro de viagens intelectuais, até mesmo um admirável parceiro de bar, desde que ele não exagere seus dotes de humorista. Não que seu humorismo não seja bom: é dos melhores! Mas ninguém suporta um humorista vinte e quatro horas por dia. Temos a impressão de que Chesterton, às vezes, se esquecia do relógio que levava no bolso do colete.
                À parte isso, o escritor era um dos raros cristãos – dos últimos tempos ,como o pretendem certas seitas pressurosas - que não se limitava a repetir  as verdades básicas do Cristianismo”.
 A maioria dos escritores católicos, principalmente os pseudo-espirituais, não se questionam sobre tais verdades. Não indagam se ela não perderam algo de sua força,ou seja,algo de seu sal, e até de sua sonoridade, com o passar do tempo.
 Antes, porém, expliquemo-nos mais detidamente: em nossa opinião, as verdades básicas do Cristianismo não podem perder sua realidade substantiva. Mas, por terem sido postas nas mãos dos homens, as vrerdades básicas, não conseguem evitar manchas, e eventualmente não escapam ao pó que se despega das sandálias de seus mensageiros,sejam eles modestos missionários capuchinhos,sejam elegantes , quase atléticos, teólogos anglo-saxões, ou de outras nacionalidades,recém-aterrissados em nossos aeroportos internacionais.
À guisa de advertência,ouçamos Jesus:
- Passarão o céu e a terra, mas minhas palavras não passarão.
Notemos a nuance: minhas  palavras!
Supomos que não existe católico, por mais auto-confiante  que seja, que se atreva a afirmar como suas as palavras de Jesus.
É verdade que o Rabi suavizou nosso embaraço:
- Quem vos ouve, a mim ouve...(Lucas, 10,16).
 Também isso é verdade.
Ouvir, porém, implica uma distância entre a boca, que profere os sons, e os ouvidos, que os recebem. No meio do caminho, quantas interferências!  Um simples latido de cachorro, um berro de boi, uma gritaria de meninos na rua, podem abafar – ou deturpar - as palavras divinas.
Tais imprevistos não nos eximem da acusação que nos dirigem, sobretudo,os não católicos: falta de criatividade lingüística.  Tais incidentes não justificam nossa escravatura vocabular.
Será que ainda existe alguém que negue que a linguagem e, consequentemente, os significados que ela transporta em si, não são extáticos?
Pensemos, por exemplo, no seguinte: na Jerusualém dos Anos 100 depois de Cristo,possivelmente não existia um  único cristão que soubesse o que era “consubstancial ao Pai”, ou “transubstanciação sacramental”. Falar em tais formulações dogmáticas , naquela época, era como falar em mísseis intercontinentais para um  distraído vendedor de  pergaminhos na Idade Média.Ora, sabemos o quanto tais reflexões sobre o conteúdo da Fé  enriqueceram nosso vocabulário cristão. Foram precisos séculos para dirimir uma única dúvida: ”Maria era somente Mãe de Cristo, ou era Mãe de Cristo e Mãe de Deus” - isto é: mãe apenas do Homem Jesus, por o ter concebido, ou Mãe de Deus,dado que  seu Filho unia em si, numa única pessoa divina, duas naturezas, a humana e a divina?”
Eis a razão que não nos permite fechar os olhos aos prodígios da Graça. Tais prodígios desabrocharam, e ainda desabrocham, ao longo da aventura cristã, como flores de orquídea em hastes aparentemente secas. 
 Imaginar, pois, que o Catolicismo nasceu elaborado numa proveta-de-laboratório, é esquecer o ensinamento de Jesus, materializado na sugestiva imagem da semente, a qual, enterrada no chão, cresce e se desenvolve, enquanto os homens  adormecem e acordam, sem terem idéia de seu crescimento.
 Notemos que, ao menos uma vez, Jesus foi de uma rudeza imprevista com dois de seus discípulos . Foi no caminho para Emaús:
- Ó insensatos, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! (Lucas,24, 25).
Censura de tal veemência obriga-nos a encarar a seguinte questão: devemos ou não pensar nossa fé?  
Vejam bem: não se trata de provocá-la, de atiçá-la, como às vezes costumamos fazer com os cachorros, para brincar com eles.Trata-se de abrir espaço à fé para novas ramificações.
 Reservar semelhante tarefa a uma equipe especializada, digamos assim, a uma “Esquadrilha da Fumaça da Igreja”, é demonstração de desinteresse,de inércia,de falta de imaginação.
Ecce verbum! Eis a palavra!
Não tenhamos medo de afirmar:  quanto mais a imaginação católica se acovarda, mais a  (soi-disant ) inteligência católica  tende ao despotismo.
As decolagens verticais da piedade popular e da imaginação dos Místicos são mais vantajosas  para o Catolicismo do que as elucubrações da  inteligência, ou antes, daquilo que Lucien  Febvre denominou: “a razão raciocinante”, a razão auto-confiante, que não desconfia de si.(Michelet e a Renascença.Trad. de Renata Maria Parreira Cordeiro.São Paulo, Editora Página Aberta,1995. P. 84).
Nos últimos tempos, a inteligência católica não se destacou por realizações excepcionais. Existem, sem dúvida, no seio da Igreja Católica,inteligências de altíssimo nível, inclusive a do atual Papa. Mas, avaliadas em conjunto, não vemos como elas tenham tido a coragem (ou a modéstia?) de se socorrerem da imaginação, com o objetivo de se ampliarem.  As inteligências católicas mais recentes  vão mais na direção de Einstein do que na direção de Edison ( o autor de uma das invenções mais úteis para a humanidade , a da lâmpada elétrica).As inteligências católicas, sobretudo as teóricas, sentem mais admiração por Heidegger  e Levi-Strauss do que por Bill Gates e Steve Jobs.
No entanto, Jesus só falava em parábolas, evitando termos abstratos e termos  raciocinantes.
Para espanto, pois,  dos discípulos de Descartes,nós acrescentamos: ler o Evangelho pela óptica  de Descartes ( o autor do “Eu penso, logo existo”) é  encalhar no primeiro banco de areia atraente,que surge à frente de nossas proas.
Expliquemo-nos melhor: a imaginação, desde que encilhada como um jumento, transporta a Virgem, o Menino, e José até ao Egito, e é capaz de os reconduzir  a Nazaré.Foi também a imaginação que se encarregou de colocar Jesus num jumentinho “sobre o qual não montara homem algum”(Marcos,11,2-7),para que ele pudesse entrar triunfalmente em Jerusalém.
O poeta francês, Paul Valéry,era tão fascinado pela Razão,que lhe chamava : A Santa Razão!
Preferimos parafraseá-lo: Imaginação, ó  Santa imaginação!
Contanto que não abusemos dela! Como,segundo o testemunho da História, abusaram dela  os gnósticos dos primeiros séculos do Cristianismo, e um número incrível de fantasistas cristãos  – indignos da verdadeira imaginação cristã.  
Se pesarmos bem a História, veremos que o que de melhor produziu o Catolicismo, na sua já longa trajetória, esteve sempre ligado mais  à imaginação do que à razão.
Defendamos, porém, também a razão: ela é ótima! Principalmente quando, à semelhança de um cavalo bem domado, come sua aveia, e se entrega ao cavaleiro para o combate,ou atualmente para uma competição hípica. Quando o cavalo toma o freio e dispara, a razão esfola-se, quebra várias costelas ,ou é  simplesmente destroçada pelo formalismo.
Corramos, pois, ao encontro dos grandes Santos- dos verdadeiros imaginativos da História!
 Principiemos pelos monges do deserto: Antônio, Pacômio, Bento... A seguir, abordemos os poetas da tradição católica: Inácio de Antioquia, o Pastor de Hermas, Efrém o Sírio, Ambrósio de Milão (pai da Hinologia Liturgica), Agostinho de Hipona (Suas Confissões são um dos mais belos poemas cristãos de todos os tempos!), Orígenes, o Pseudo-Dionísio, Anselmo de Canterbury, Bernardo de  Claraval (descontadas algumas páginas ácidas  de suas polêmicas), Francisco de Assis, as monjas Hildegarda de Bingen,  Matilde de Magdeburg, Juliana de Norwich, os autores da Devotio Moderna...Se nos sobrar tempo, detenhamo-nos detenhamo-nos  na companhia de Mestre Eckhart, Johannes Tauler, Catarina de Siena, Ruysbroeck, Teresa de Ávila, Juan de La Cruz..
Não há dúvida de que se deve evitar, no Catolicismo atual, os chavões,os clichês  dessorados. Sem isso não podemos afrontar as agressões insolentes de uma espécie nova de adversários da Fé Católica, os assim ditos experts que, tendo conquistado posições de relevo nas suas respectivas áreas - por exemplo, na biologia molecular, na paleontologia, na astrofísica,etc.- de repente, se põem a comandar vistosos blitzs contra  a religiosidade das pessoas simples, assombrando-as com um estenderete de teorias pseudo-científicas, ou melhor, não sancionadas pela comunidade científica internacional.
Francis S. Collins,mundialmente respeitado como Diretor do Projeto Genoma, publicou, não há muito, um livro : A Linguagem de Deus ( São Paulo, Editora Gente, 2007), no qual censurou seu colega, Richard Dawkins, autor de uma obra que correu mundo: Deus, um Delírio (São Paulo , Companhia das Letras, 2007). Collins contestou as  afirmações estarrecedoras” de Dawkins. (Ibid. p. 12-16).
O verdadeiro problema desses experts é que conseguem épater les catholiques, mas não demonstrar que seus  achados “científicos” são científicos. Eis por que os católicos nada têm a temer da verdadeira Ciência,da Ciência que respeita seus limites. Têm tudo a temer das ficções científicas de tais experts, que não se constrangem de envergar as roupagens dos filósofos. 
 Nestes momentos de confusão, um conselho de Jesus pode ser útil à comunidade católica:
- Não se preocupem pelo fato de o joio ser semeado pelo inimigo, e crescer junto e ao mesmo tempo que  o trigo. Quando chegar o tempo da colheita, ceifa-se o trigo, e o joio é entregue ao fogo.(Mateus 13,24-30).
Alguém poderá objetar:
- Como se explica, então, que Tomás de Aquino,“Monstro-Sagrado” da Inteligência Cristã, autor da famosa Suma Teológica, não seja hoje  lido por ninguém, nem pelos católicos, a não ser por eruditos de faculdades de teologia? Por que a Suma não é mais ensinada em nenhuma Universidade Católica?
É preciso dar a mão à palmatória – se ainda existem palmatórias!
 A razão é que a linguagem de São Tomás ficou demodée. Sua Suma é, na opinião da maioria das pessoas, uma ruína arqueológica do pensamento cristão.
Concordaremos com semelhante afirmação?
De modo algum!
O verdadeiro problema, com relação a São Tomás,  é de método. Deixamos de ler a Suma Teológica por falta de imaginação. Sim, o grande Doutor tornou-se ilegível para um homem do século XXI, que surfa na Internet, adora filmes de efeitos especiais, usa tênis, e... bebe coca-cola! São Tomás, aliás, se tornou ilegível para qualquer homem que vive em nosso século.
Ocorreu com ele o que ocorreu com o insigne Avicena, cujo Cânon da Medicina não é mais lido nas Faculdades de Medicina. Avicena pontificou durante séculos. Sem ele a medicina moderna não teria chegado aonde chegou.
Precisamos , pois,imitar os médicos.
Que fizeram eles?
Apelaram para tomografias computorizadas, recorreram a análises do DNA, estão permanentementes à procura de caminhos não trilhados pelos antecessores.
Surge, aqui, uma questão: poderíamos imaginar como reagiria Tomás de Aquino às questões atuais: Eutanásia, Células-Tronco (Células Estaminais), casamentos católicos  desfeitos, capitais voláteis,Taxa Tobin, diálogo  com religiões ignoradas até recentemente,como o  Hinduísmo,o Budismo,o Confucionismo,o  Xintoísmo? Como se comportaria ele , em termos de ética,frente à hegemonia dos Grandes Grupos Econômicos que detêm algo assim como 50% da riqueza das nações?
                Um lembrete: quem inventou  a informática não foi a  inteligência, mas a imaginação, com a colaboração da inteligência.
Outro lembrete:não ouvimos, até hoje, ninguém se referir às qualidades filosóficas ou especulativas da Microsoft ou da Apple.
Seria maravilhoso, pois, que a Igreja oficial consultasse os cientistas e economistas, e que estes se dispusessem, de tempos a tempos, a tomarem um cafezinho com os pastores das Igrejas, sobretudo da Igreja Católica, para explicar-lhes o que há de rigorosamente científico na área do econômico, e o  que há de diabolicamente nocivo à humanidade nas suas engrenagens, e na sua engenharia financeira. Seria maravilhos, naturalmente,que os Bispos, também, tivessem a coragem de anunciar aos cientistas e economistas que Deus quer que todos os homens, inclusive eles, se salvem!
Aqui, obviamente, tocamos no impossível!
 Com uma ressalva: para Deus,conforme a afirmação solene de Jesus, não existe o impossível.   

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