segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Viagem ao redor do Catolicismo (V)

Comecemos esta crônica  por uma afirmação  de G.K.  Chesterton:
( ...) o Catolicismo não foi julgado; muitos católicos foram julgados e condenados. O meu ponto-de-vista é  de que o Mundo não se cansou do ideal da Igreja, mas sim da sua realidade. Os mosteiros foram tomados de assalto, não devido à castidade dos monges, mas devido à sua incontinência. O Cristianismo tornou-se impopular devido à arrogância dos cristãos, não devido à sua humildade. É evidente que a Igreja falhou, principalmente por causa dos seus homens, mas não é menos verdade que elementos hostis a tinham começado a minar muito antes de ela ter completado seu trabalho.(Disparates do Mundo.Lisboa, Livraria Morais Editora, 1958. p.35).
                        Quantas verdades nessa cesta básica de acusações ao Catolicismo, que o muito católico (era um convertido!) Chesterton nos oferece!
 É forçoso retornar já aos tempos rudes da autenticidade,  quando um Bispo se sentia à vontade para interpelar outro Bispo, exigindo-lhe coerência.
Ou...sejamos ainda mais radicais: retornemos aos tempos ainda  de logo-após Jesus,  quando Paulo apostrofava Pedro, por julgar que Pedro não agia “segundo a verdade do Evangelho”. Todos conhecemos a ardente página da Carta aos Gálatas em que aparece essa confrontação entre os dois pilares da fé.(2,11-14).
Oh, revivamos esses tempos, em que os católicos não se entrincheiravam por detrás de biombos  de auto-persuasão, mas tinham o brio de encarar os problemas com uma cabeça atenta à luz do Evangelho.
Agora, com uma pitada de autocrítica:joguemos ao lixo todo resquício retórico:, e digamos claramente o que queremos dizer:queremos referir-nos ao tempo em que dentro da Igreja havia a vontade de se espelhar, não em eras passadas. Quando reinava um Papa como Leão X , um Médici que escandalizou Lutero, mas quando havia Papas tão realistas e despidos de suntuosidade, que não receavam  pateantear sua condição mais que proletária, pois eram (dois deles, ao menos) filhos de escravos.
Em nossa formação escolar e religiosa de menino, quando freqüentávamos um seminário,  tivemos mestres bem-intencionados, inclusive de apreciável bagagem humanística. No que toca, porém, à História,às suas exigências factuais, esses mestres falhavam – para empregar a expressão acima de Chesterton.Eles embalavam-nos no mais cândido Triunfalismo Romano! Nenhum deles tinha a coragem - ou antes, a informação histórica correta - de mencionar um único escândalo da Igreja. Parecia que eles consideravam os católicos em simbiose com  a Instituição-Igreja, como se a Igreja de Cristo - o organismo vivo da reunião dos crentes -  e a Igreja-Engrenagem Sócio-Religioso-Econômica-Política  constituíssem um só corpo e uma só alma.Os resultados dessa atitude desinformada apareceriam mais tarde, em nossa época. Aí está esse rabo-de-cometa, não necessariamente  luminoso, que são os ex-católicos, os quais se revoltam contra a fé que receberam dos pais em , ou nos colégios que freqüentaram, quase como um embrulho de merenda escolar, a dos tempos em que  iam de tamancos à escolinha do bairro.
Comparemos – agora, para entendermos melhor a rigidez desse ensino sem o menor lampejo iluminista, e desse severíssimo comportamento que se lhe seguia, com a rigidez contemporânea, por assim dizer“física”, do Islamismo  de hoje, que está sendo varrido no norte da África, e em outras regiões do globo.
 Existem evidentes afinidades entre a maneira de comportar-se entre ambos. Catolicismo e Islamismo sempre se singularizaram por uma concepção monárquica do poder, tanto  espiritual (na Igreja Católica),como religioso e civil (no Islamismo). O Islamismo tem a única vantagem de justificar-se amparando-se em  Maomé,o Único Profeta, que lhe deu tal tipo de organização, embora , em nossa opinião, exista uma contradição, entre a base subliminal do Alcorão, que é democrática, e sua práxis no tipo de governo das nações islâmicas atuais, anti-democrático.
 A base governamental do Alcorão inspira-se nos velhos costumes tribais do século VII-VIII, quando os clãs elegiam seus chefes. As derivações posteriores monárquicas, que se infiltraram no Islã, tiveram sua origem na ambição pessoal de lideres que iniciaram o culto do Eu, terrivelmente ambiciosos, como os Califas Omíadas de Damasco, que foram imitados - nessa distorção – pelos Califas Abássidas de Bagdá.
Enós, católicos...que responderemos aos que nos acusam de desvio de forma de governo na Igreja?
Por favor, que os católicos tradicionalistas não nos repliquem, citando o texto do Evangelho de São Mateus, capítulo 16, versículo 18, onde se lê, efetivamente, que Cristo confiou sua Igreja a Pedro, e que as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
 A questão estaria solucionada, se o problema não fosse outro.
Jesus confiou, efetivamente, a Pedro a chefia do grupo dos doze Apóstolos. Entregou-lhe, também, simbolicamente,  as chaves do Reino, para que pudesse ligar e desligar no céu o que quisesse ligar e desligar na terra.
 Antes, porém, de prosseguirmos: mas foi somente a Pedro que Jesus entregou as chaves desse espantoso poder de ligar e desligar?
Se foi, por que quase imediatamente após tão solene declaração repreendeu  Pedro na frente dos outros apóstolos, dizendo-lhe:
-Retira-te, Satanás, que me serves de escândalo, porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens”? (Mateus,16,23).
Talvez o Rabi desejasse sublinhar que o próprio Pedro, recebedor das chaves, devia estar permanentemente consciente de que as chaves não lhe pertenciam como propriedade pessoal, mas como depósito colegial.
Sou católico, e por isso não contesto o dogma da infalibilidade papal, nos termos – é claro -  em que o Novo Catecismo da Igreja Católica, mandado publicar pelo Papa João Paulo II, o apresenta. Quantas vezes, porém, tenho meditado sobre as palavras de Jesus , tais quais foram ditas por Aquele que nos proibiu mexer nelas!
Isto posto, consultemos a História: devemos admitir, como fato histórico, que a confusão entre o poder espiritual e o poder temporal dos Papas começou com Constantino Magno (280-337 d.C.), o mesmo imperador que Dante Alighieri criticou asperamente na Divina Comédia (Canto XIX . 115-117.Parte primeira: Inferno):
- Ah Constantino, como dói a ofensa,
não do teu batismo, mas da doação
que pôs na mão de um padre uma fortuna imensa!
Na sua época, o Poeta ignorava que essa Doação de Constantino era um documento falsificado, produzido com o objetivo de conferir  “legalidade” ao poder temporal dos Papas sobre os Estados pontifícios.Tal  fraude só foi  pressentida quando  o Cardeal Nicolau de Cusa, mediante uma análise filológica do documento, se apercebeu de que ele não poderia ser autêntico. Logo depois, em 1440, um humanista romano, Lorenzo Valla, elaborou um ensaio de pouco mais de 100 páginas, intitulado por ele De Falso Credita et Ementita Constantini Donatione. (“A Doação de Constantino falsamentre acreditada e desmentida”). Hoje, nenhum historiador católico, nenhum historiador protestante, nenhum historiador pertencente a qualquer tipo de credo ou ideologia , admite como histórico esse documento.
Alguém há de inquirir: qual a razão de se trazer à baila tal episódio?
Replico: por uma razão incontornável: é preciso tomar ao pé da letra a afirmação de Jesus:
- A verdade vos libertará.
Admitida essa premissa, acrescentamos: não temos o mínimo interesse  em polemizar. Principalmente com irmãos católicos!
 Desejamos, unicamente, resguardar um direito, não só humano, mas católico: o de pensar como católico, dentro da verdade.
Voltamos, pois, a citar o texto inicial desta crônica: com Chesterton desejamos aprender a dialogar, não previamente armados contra o inimigo, com uma espécie de revólver pseudo-apologético na cintura, mas com  a mansidão e humildade de Jesus, que nos pediu que aprendêssemos Dele tais virtudes. Comecemos, também, a aprender com o Mestre a encarar a possibilidade de realizar o seu conselho:
- Quem quiser ser o maior entre vós, seja o menor, e sirva seus irmãos
O primeiro Papa a usar a expressão Servo dos servos de Deus foi, justamente, Gregório VII (1073-1085), o Papa que humilhou o Imperador Henrique IV da Alemanha , obrigando-o a aguardar o seu perdão durante três dias, em plena neve, praticamente nu, diante do palácio de Canossa, o Castelo da Condessa Matilde.
Gregório VII pode ter sido um Santo, e talvez o tenha sido!
Para não escandalizar nenhum leitor católico, consultei o prestigioso Diccionario del Cristianismo (publicado bajo La dirección de Olivier de La Brosse, Antonin-Marie Henry e Philippe Rouillard - religiosos católicos franceses. Barcelona, Herder, 1986). Efetivamente, o Papa Gregório VII foi canonizado. É, pois, Santo oficialmente.
 Jamais lhe faltarei ao respeito, como católico. Mas permito-me a liberdade cristã de divergir desse Papa, no que concerne ao episódio do Imperador. Embora não me apeteça exaltar o monarca alemão,que não era o que se poderia qualificar de um monarca equilibrado, também não me apetece louvar o Pontífice que se mostrou precariamente fiel à regra que Jesus impôs a todo o mundo, também aos membros da Cúria Romana: ”Não façais aos  outros o que não quereis que eles vos façam”.
Será que o papa Gregório VII estaria disposto, como Papa a ficar três dias, em nudez quase completa, no meio da neve, na frente de um Castelo, à espera de um perdão?

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