segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Viagem ao redor do Catolicismo (III)

Um leitor, que se declara não-católico, pergunta-me se poderia existir outro Credo, diferente do que é atualmente recitado nas igrejas.
A questão é hipotética, pois a Igreja só tem uma história, a que foi escrita pela tinta rubra do sangue de seus mártires, e pelas orações, penitências, e atos de caridade de seus fiéis. É evidente que seus seguidores (principalmente os mais próximos ao Jesus histórico) guardavam os ensinamentos orais do Mestre em seus corações, e sobre eles meditavam, como o Evangelho diz de Maria, sua mãe.  
Foi dessas meditações que nasceram as primeiras interpretações da Sagrada Escrituras. Com o tempo, elas se transformaram num corpo de doutrinas, cada vez mais desdobradas em conceitos, que, para serem melhor entendidos pelos não-crentes, eram moldados nas formas culturais vigentes, principalmente as herdadas da grande filosofia de Platão e  do Estoicismo, cujos conceitos se adaptavam mais ao conteúdo misterioso do Evangelho.
Poder-se-ia, quase, falar num batismo de idéias.
Não se poderá,contudo, esquecer  que a maioria dos novos adeptos do Cristianismo  aderiam à sua doutrina em idade adulta.Traziam, portanto, um inconsciente e um subconsciente plasmados pelo Paganismo.Os novos cristãos  não transformavam, automaticamente, os odres velhos em odres novos .Eles eram atraídos  à nova Fé mais pelo coração do que pela força especulativa das verdades anunciadas.
Poder-se-ia imaginar um cristão dos primeiros tempos preocupado com teologia? 
Dir-me-á, porém, um objetor: ao ler-se as Cartas de São Paulo, descobre-se nelas uma autêntica e grande teologia.
Estamos de acordo. As cartas de São Paulo constituem verdadeiro tesouro teológico.O Apóstolo das Gentes foi um dos maiores teólogos do Cristianismo, possivelmente o maior.
   sabia ele que estava fazendo teologia?
Os luminares da teologia contemporânea, que às vezes dão uma curiosa impressão de auto-segurança, possivelmente não nos perdoarão tão ingênua questão.
Voltamos a afirmar: não nos apresentamos nem como uma sombra de teólogo. Somos apenas – como dizem os mexicanos – um “mero” cristão.
Não obstante, persistimos em sustentar que existem razões para afirmar o que afirmamos.
Partamos da realidade sobrenatural que todo cristão reconhece: em toda reflexão sobre o anúncio da Boa Nova, até na mais simples das invocações do nome de Jesus, está presente  um personagem, que não ergue a voz, nem utiliza a retórica estrepitosa da publicidade atual. Esse personagem é de uma elegância superior, e de uma discrição incomparável.Ele ilumina a mente dos fiéis, sejam estes Papas eleitos em conclaves, sejam eunucos da Rainha Candace da Etiópia, a quem, segundo os Atos dos Apóstolos, um pregador cristão, Felipe, foi enviado para explicar-lhe uma passagem de Isaías.
 Tal personagem...não é um personagem! É uma PRESENÇA.
Chama-se Espírito Santo.
Jesus a Ele se referiu quando falou aos apóstolos:
 – O Consolador, o Espírito Santo que o Pai vos enviará em meu nome, há de ensinar-vos todas as coisas, e vos fará lembrar tudo quanto vos tenho dito.(João, 14,26).
Nós cremos, pois, que o próprio São Paulo, devido a essa inspiração do Espírito Santo, não poderia entender tudo o que ele pregava.Caberá o mar na concha das mãos, por maior que estas sejam, por maior que seja o gigante que haja apanhado com suas mãos a água do mar?  
O mar sempre será mar, e todas as mãos dos homens jamais poderão contê-lo.
 A realidade é de uma evidência ofuscante: o Espírito Santo é maior do que todas as Igrejas Cristãs. Mesmo que todas as igrejas se dêem as mãos numa única Igreja. Se alguém nos alegar que, no dia do Pentecostes, o Espírito Santo desceu sobre a única Igreja, que então existia, não cindida ainda por nenhuma luta interna, tendo aparec ido sobre as cabeças dos circunstantes, apóstolos e não-apóstolos, sob a forma de línguas de fogo, nós adoramos esse mistério.
 Sem embargo, continuaremos a refletir sobre o fato de que a irrupção do Espírito Santo na Igreja não esgotou o Espírito. Ou, ou se nos for permitida uma expressão de mau gosto, porém usual em nosso jargão contemporâneo,diremos:não se poderá nunca  zerar o Espírito Santo!
 O Espírito Santo é uma Pessoa Divina, consubstancial ao Pai e ao Filho. É infinito como as Duas Pessoas, que com Ele constituem a Trindade, o são. Elas, as Três Pessoas, são um só Infinito.
Reflitamos, porém, em passant , sobre a presença do Espírito Santo no meio de nós.
Um tanto assombrados, recordemos que São Paulo chamou todos os cristãos batizados de templos do Espírito Santo.(I Cor 3,16).Logo, não estamos reinventando nenhuma heresia, como seria adoutrina que pretendesse que o Espírito Santo pudesse  efetuar nova encarnação na natureza humana,semelhante à do Verbo no seio de Maria. Cremos numa única encarnação, a do Verbo, que veio a este mundo, morreu por nós, e ressuscitou.
Foi Jesus, aliás,quem  após sua subida aos céus nos enviou o Espírito Santo, para completar sua obra. À ação do Pai, que preparou sua vinda, à ação do próprio Jesus que a realizou, adicionemos a ação do Espírito Santo que a coroou, e continua a coroá-la ainda hoje, por meio de sua atividade em nós.
Não sabemos imaginar, muito menos explicar, essa misteriosíssima atividade divina.De qualquer modo, em hipótese alguma deixamos extinguir-se em nosso coração a persuasão de que é o Espírito Santo que prepara o coração de todos os homens para o verdadeiro ato de liberdade de suas vidas:surpreender, em algum canto deste mundo, a face risonha da Criança que nasceu em Belém, ou a Face ensangüentada do Rabi que foi crucificado numa colina de Jerusalém, ou – ainda, mais provavelmente –  vislumbrar, no âmago de um enlace amoroso, ou na hora jubilosa do nascimento do primeiro filho – ou, menos freqüente talvez,  no momento em que um clínico nos revela a ecografia de um tumor, a Face esplendorosa do Ressuscitado,a mesma que deixou prostrados  os guardas ao pé do seu sepulcro.
Com certa freqüência, nós nos indagamos: será que os católicos acreditam , de fato,na presença ativa do Espírito Santo no coração e na mente de cada cristão?
Referimo-nos à multidão dos crentes, aos membros da Igreja que não pertencem ao seu arcabouço oficial. Será que o crisdtão comum sente, aparentemente, sua mínima vocação teológica? Repetimos: falamos, simplesmente, dos crentes anônimos, dos católicos de sandálias havaianas...
Em síntese: quem de nós tem a coragem efetiva admitir que o Espírito, prometido por Jesus, inspira todos os cristãos?Poderemos auto-convencer-nos convencer de que, até à revelia de nós mesmos, somos teólogos, ou pelo menos...teológicos?
 Mario Quintana, num de seus momentos de humor surrealista, levantou a hipótese de existirem “teogogos” – já que existem os demagogos...
Esbocemos,pois, uma resposta ao nosso amigo não católico.
Sim, existe apenas um Credo.
Existe apenas um Credo oficial, tão conciso e tão bem elaborado pela consciência cristã, que mereceria- e deveria - ser recitado diariamente por todos os católicos.
 Esse Credo nasceu no seio da comunidade cristã, e ganhou, com o tempo, a expressão lapidar de milhões de bocas. Na hora definitiva de sua redação,foi - por assim dizer - assinado e  sigilado pela SSma Trindade.
Tão pasmosa realidade significa que a cada cristão é concedida a possibilidade de um pequenino Credo pessoal.
O nosso, por exemplo, é o seguinte:
Creio no Amor.
 Creio que esse Amor são Três Pessoas, uma das quais, o Verbo,assumiu a natureza humanas no ventre de uma mulher,a Virgem  Maria.O Verbo Encarnado continua a existir como homem, com seu Corpo Ressuscitado sob as aparências de uma pequenina hóstia  branca, que nos guarda a promessa do Pão Vivo, garantido por Jesus aos seus seguidores até o fim dos tempos. Esse Pão Vivo nos assegura a graça de nunca desesperar, e também outra graça: a de podermos ajudar outros homens a não desesperarem.
 Creio, também, que a Virgem Maria, Mãe de Deus, elevada à presença visível de Deus, intercede por nós, na companhia de todos os homens mortos na graça de Jesus. Ela nos aguarda, provavelmente, à porta dos Céus, para nos dar as boas-vindas.
Espero vê-la antes de ser conduzido à presença do Altíssimo, pois isso é mais condizente com a nossa condição de criaturas: que habituemos primeiramente nossos olhos à presença de outros seres humanos, antes de sermos conduzidos à presença de Jesus que,  com o Pai e o Espírito Santo, é a Fonte Eterna de toda a Felicidade.

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