quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Viagem ao Redor do Catolicismo (II)


Na primeira crônica, aludi à dimensão radicalmente pessimista do Catolicismo - e à sua superação desse pessimismo.
Desejo, agora, tratar de uma questão não menos importante: o que se entende por Fé.
 Mais concretamente: o que quer dizer a palavra Creio?
Durante a missa, aos domingos, os fiéis confessam sua fé. Fazem-no recitando o Credo,  que começa com as palavras: Creio em um só Deus,  Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra.
Esse breve vocábulo – convenhamos - pode ser considerado a verdadeira alavanca  de Arquimedes.
Diz-se que, ao sair de um banho público, o sábio de Siracusa exclamou: Eureka! Isto é:”Achei!” Ocorrera-lhe  a idéia de que se poderia levantar o mundo, caso fosse possível encontrar um ponto de apoio a uma alavanca destinada a tal propósito.
Digamos, então, que para nós católicos, o Credo é essa alavanca! A única palavra que o  crente não pode esquecer.
O católico (e o cristão em geral) apóiam-se nela para afirmar que sua verdade não provém da sabedoria humana,mas do Criador. Creio subentende que o Criador entrou em contacto com suas criaturas.
Quando eu era jovem,durante a elaboração de minha tese sobre o filósofo judeu-francês, Henri Bergson, Prêmio Nobel de Literatura de 1927, esbarrei numa de suas afirmações sobre a existência de Deus.  Bergson declarava que os filósofos todos, a partir dos gregos, tinham formulado diversas teorias sobre a natureza de Deus. Após analisá-las,  Bergson, numa espécie de explosão contida, escreveu ( eu o cito de memória):
- Se o Deus dos filósofos resolvesse manifestar-se aos homens, estes não o reconheceriam...
O Deus dos católicos não é o Deus dos filósofos.
 Ele se fez Homem, teve (e ainda tem) um rosto, deixou-se ver num pequeno país do Oriente. Anteriormente já se revelara no Monte Sinai ao povo  dirigido por  Moisés. Continuou a manifestar-se através de outros Profetas.
O fato decisivo, porém, foi seu aparecimento no período em que Tibério reinava em Roma, e Pilatos era  seu Procônsul na Judéia.
O que esse acontecimento teve de escandaloso ( para os judeus), e de delirante (para os gregos) foi seus seguidores afirmarem ser ele Filho de Deus. O Sumo Sacerdote de então, ao ouvir da boca de Jesus tal blasfêmia, rasgou suas vestes.Logo depois, o acusado foi  despido e flagelado pelos esbirros do Sumo Sacerdote.
Este é o apoio  que faltava à alavanca de Arquimedes.
 Os católicos confessam que o Senhor Deus apareceu como homem, que esse homem se autonomeou Filho de Deus, e que se deixou crucificar, ressuscitando ao terceiro dia após seu sepultamento.
Admitir o escândalo e o delírio:o escândalo da humanização, e o delírio de o Filho de Deus ser crucificado , é isso que faz um católico, ou antes, que faz um cristão.
Ocorre que, de tanto se falar em Jesus, de tanto Ele estar na “História”, semelhante escândalo e semelhante delírio deixaram de impressionar. Obliterou-se a memória de muitas  das afirmações do Salvador, inclusive esta, para dizer a verdade, uma das mais escandalosas:
- O que fizerdes ao menor destes, o fazeis a mim...
Muitas pessoas interpretam essa afirmação como a explosão  lírica de um romântico. No entanto, se lhe associarmos a memória de um dos campos de extermínio, o de Auschwitz  por exemplo,vemos que Jesus foi um temível revolucionário.
Èrguntamo-nos: em termos de História do Cristianismo, onde estamos?
Na sua Pré-História?
Sob alguns pontos de vista, sim. Ao refletirmos,porém, sobre determinadas realidade do Catolicismo,ou do Cristianismo em geral, chegamos  à conclusão de que a mensagem de Jesus atingiu, ao mesmo tempo, os píncaros de sua realização, , e as suas miseráveis profundezas. Chegou aos píncaros com Francisco de Assis; chegou às suas profundezas com alguns Papas do século X , e outros que se lhes seguiram, como Alexandre VI.
Agora, uma questão: seremos mais cristãos que Francisco de Assis?
Voltemo-nos humildemente  aJesus, que acrescentou às suas palavras incompreensíveis da primeira citação, estoutras não menos compreensíveis:
- Estarei convosco até ao fim dos tempos
Mas a mais espantosa de todas, a que nos estonteia, é a seguinte:
- Eu sou o pão da vida.(...) Quem come deste pão viverá eternamente. O pão que eu hei de dar é a minha carne para a salvação do mundo. (João, 6, 22 até 58).
Desde os primeiros séculos da existência dos cristãos, houve cristãos exaltados que, já naqueles tempos, resolveram– épater le bourgeois. Um deles chocou toda a gente com  essa provocadora afirmação, que ainda hoje é citada, embora com  incorreção:
-Creio porque é absurdo
Ela não é de Santo Agostinho, como já li em  eruditos. É de um autêntico cristão do século III, Tertuliano, que infelizmente, no fim da vida,tornou-se herege.
Concluamos esta crônica, assinalado um ponto importantíssimo: o Credo não pode ser recitado  sem uma graça especial de Deus.
Ou seja: o católico professa  que não é possível dizer “Jesus, eu creio na Vossa Revelação” senão com  uma ajuda especial de Deus. Deus a  concede a quem lha pede.. É ajuda gratuita, mas implica uma condição sine qua non: a de que o homem reconheça que o próprio Deus veio ao seu encontro.Noutros termos: a de que o homem reconheça que Deus é melhor do que ele!
Para sermos mais exatos, citemos o próprio Jesus, ao responder ao Jovem Rico:
-Só Deus é bom.(Mateus 19,17).

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