segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Viagem ao redor do Catolicismo (I)

Não pretendemos criticar ninguém, tampouco a Igreja Católica. Nossa  crônica  é autocrítica, uma reflexão  de alguém que deseja informar-se sobre si mesmo.
Comecemos pelo mais básico do Cristianismo, e logicamente do Catolicismo, por seu pessimismo radical.
Digamos explicitamente: só quem está disposto a admitir que nasceu em pecado,poderá  ser cristão.
Pecado é um estado, uma forma de ser. Todos os homens, para o Cristianismo, nascem em estado de privação da Graça , de não- filhos de Deus.Não obstante, as crianças continuam a nascer como imagens de Deus. Conservam, portanto, traços da genética sobrenatural.
Dois elementos novos devem intervir para haver re-generação:  a Fé e o Batismo
Reconhecer a culpa original, coextensiva às crianças,foi o que deixou perplexo Santo Agostinho! Diria mais: quase o deixou louco! Recordemos que Agostinho tinha sido pai, de uma relação com uma mulher anônima, com a qual conviveu durante alguns anos na juventude.Penso que, na condição de pai,  deve ter-se preocupado com  a angústia de milhares de progenitores, que não se resignavam a ver seus filhos condenados Tentou, pois, compreender a problemática deles, e explicá-la aos seus fiéis. Em síntese: a questão crucial era: por que as crianças mortas sem batismo não podiam entrar no céu?Seriam lançadas no inferno?  O que acontecia com elas?
Um terrível adversário de Santo Agostinho, também Bispo da Igreja, Juliano de Eclana,colocou o grande Doutor contra a parede. Leiamos as palavras, que esse Bispo altivo lhe escreveu, e que ainda hoje nos fazem estremecer:
- Os bebezinhos não são oprimidos pelo próprio pecado, mas sobrecarregados pelo pecado de outrem, é assim? Dizei-me então quem é essa pessoa que inflige um castigo a criaturas inocentes (...)Vós respondeis: Deus. Deus, dizeis! Deus? Aquele que nos confiou seu amor, que nos amou, que não poupou seu próprio Filho por nós (...) É ele, dizeis, quem julga dessa maneira; é ele o perseguidor de crianças recém-nascidas; é Ele que envia bebezinhos para as chamas eternas? (...) Seria correto e apropriado tratar-vos como indigno de argumentação: muito vos afastais do sentimento religioso, do pensamento civilizado (...) ao pensardes que o Senhor vosso Deus é capaz de cometer um crime de tal ordem contra a justiça, que mal se pode concebê-lo entre os bárbaros”.
Extraí essa citação da mais fundamentada biografia contemporânea sobre Santo Agostinho, a de Peter Brown, acessível aos leitores brasileiros na tradução publicada pela Editora Record (Rio de Janeiro, 2005. p.485).
Sugiro, também, ao leitor que leia uma das abordagens mais sérias que conheço desse problema: a de Dom Estêvão Bettencourt, no livro A Vida que Começa com a Morte (Rio de Janeiro, Agir Editora, 1955. p.117-129). Ao tratar da questão do “Limbo”, o monge beneditino nota que tal palavra veio do latim. Significava na sua origem “a orla de uma veste” e,por extensão, uma zona indeterminada.
A questão do Limbo interessou os jornais, ultimamente, devido a uma referência do Papa Bento XVI. Apressemono-nos a informar que essa expressão já não consta do Novo Catecismo da Igreja Católica, mandado publicar pelo Papa João Paulo II (em 1993) .Dom Estêvão,referindo-se à questão do destino das crianças mortas sem batismo deixa claro que ela nunca foi resolvida. A opinião de grande parte dos teólogos é que essas crianças se salvam, não gozando, porém, da visão sobrenatural de Deus.
É aqui que, como cristão, me vejo-me obrigado a divergir cortesmente das interpretações dos teólogos. Onde está escrito no Novo Testamento, ou na tradição da Igreja, que tais crianças serão excluídas da felicidade pós morte?
Minha argumentação é elementar:  Deus nos criou, a todos, como  um Pai amoroso. Poderia Ele, nesse caso,privar crianças inocentes da felicidade prometida? Dar-lhes um prêmio de consolação seria  como convidá-las a uma festa de aniversário sem oferecer-lhes  um pedaço da torta comemorativa.Digo isso porque alguns teólogos sugeriram que Deus, compadecido delas, poderia conceder-lhes uma felicidade natural.  A favor delas, aduzo algo mais: a Sagrada Escritura diz: que Deus quer que todos os homens se salvem. Ora, salvar-se não é entrar numa Disneylândia de altíssimo nível... Prefiro seguir a opinião de um  teólogo alemão,Heinrich  Klee (1800-1840), citado por Dom Estêvão: “Na hora da morte, Deus dará às criancinhas mortas sem batismo a possibilidade de fazerem um ato livre de desejo, o qual lhes possibilitará o acesso ao Paraíso”.
Considero,também, digna de atenção a finíssima observação  do Cardeal Cajetano (falecido em 1534):  “(...) não se pode admitir que, depois da vinda do Redentor, os meios de salvação se tenham tornado inferiores  aos do Antigo Testamento. A Fé da Igreja (como no passado a fé da comunidade de Israel) bastará para suprir a fé dessas crianças”.
No Novo Catecismo da Igreja Católica encontra-se a seguinte frase:
- Quanto às crianças mortas sem batismo, a Igreja só pode confiá-las à misericórdia de Deus, como o faz no rito das exéquias por elas. Com efeito, a grande misericórdia de Deus, que quer a salvação de todos os homens, e a ternura de Jesus para com as crianças, que o levaram a dizer “Deixai as crianças virem a mim, não as impeçais! (Mc 10,14), nos permitem esperar que haja um caminho de salvação para as crianças mortas sem batismo.” (Ibid. n. 1261.Petrópolis,  Editora Vozes, 1993.p.. 350).
Concluamos nossa crônica:
O Cristianismo começa por um pessimismo assustador! Mas termina por um otimismo que poderá, até,  deixar os agnósticos e ateus desconfiados .Por que tanto otimismo depois de tanto pessimismo?
Na hora da despedida deste mundo, Jesus disse:
- Quem crer e for batizado, será salvo. Quem não crer será condenado.(Evangelho de São Marcos, 16,16)
Condenado?
As traduções autorizadas dos Evangelhos -  da de João Ferreira de Almeida à Bíblia de Jerusalém, passando pelas versões dos Monges de Maredsous, e por outras, como a tradução da CNBB., a de André Chouraqui  (judeu francês: Editora  Desclée de Brouwer, 1985), a da edição de “La Bible. Ancien et Nouveau Testament”( Alliance Biblique Universelle, 1992), traduzem a palavra de Jesus, secamente, por: condenado.
Trata-se, portanto, de uma advertência severíssima de Jesus.
Crer não é aderir a um feixe de afirmações dogmáticas; é aderir a uma Pessoa. Aderir  como ao melhor dos Amigos. Aderir de corpo e alma, jamais fechando os olhos à realidade, antes  abrindo-os a toda a realidade.
 É aqui, especificamente, que um cristão  se diferencia de um não-cristão.
Os agnósticos e ateus estão persuadidos de que conhecem a realidade, toda a realidade! Nós,cristãos, declaramos que a não conhecíamos. Ficamos conhecendo-a pela  Revelação de Jesus .Aceitamos que uma Luz mais alta se sobreponha à nossa razão.
Não é que nós cristãos saibamos mais do que os ateus e agnósticos. Nascemos com a mesmíssima falta de luz.
Por isso endossamos, com convicção, as palavras daquele judeu dos Evangelhos, pai de um menino mudo, a quem Jesus,antes de curar-lhe o filho, perguntou:
- Podes crer?  Tudo é possível a quem crê.
O pobre homem, tentando garantir a cura do filho, exclamou:
-Eu creio, Rabi, mas ajuda  minha incredulidade! (Mc 9,23).

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