segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Que aconteceu com a Itália?

Em 1974 tive a sorte de encontrar, em Roma, o poeta Murilo Mendes.
 Entre outras sugestões de leitura, o Poeta me deu a de ler atentamente os poemas de uma moça, que então brilhava nos círculos literários da capital: Rossana Rossanda.
Leio, agora, nos jornais europeus, que Rossana, não muito tempo depois do meu encontro com Murilo Mendes, resolveu engajar-se na luta política, foi deputada pelo Partido Comunista, tendo exercido vários mandatos. Agora, aos 85 anos de idade, está publicando suas memórias. Da poeta que ela era– e possivelmente ainda é - nada sei.
Cito-a porque, num dos jornais a que tenho acesso pela internet, vi uma declaração sua, mais ou menos nos seguintes termos:
- Não aguento mais meus amigos do Exterior! Cada vez que viajo para lá, eles me cobram lucidez e brio. Dizem-me: como é que vocês, italianos, apóiam tal tipo de governo? Pior ainda: como é que vocês, depois de tantos escândalos, garantem maioria ao atual governo, a julgar pelas sondagens?
Não é só Rossana Rossanda que se queixa disso. Em El País, de Madrid, Umberto Eco, dias atrás, declarou:
 - Meus amigos espanhóis se admiram de que nós, italianos, não tenhamos coragem para nada! Objetam-me que é impossível que a Itália, nação de tão grandes tradições culturais, não possa eleger pessoas mais dignas e inteligentes!
Rossana e Umberto, atrevo-me a dizer-lhes: “Compreendo-os! Eu mesmo não me repus ainda de uma estupefação maluca que dura anos em mim: como foi possível que os alemães, o povo mais culto da época, em todo o caso o povo que até então possuía maior número de Prêmios Nobel em Ciências, o povo que deu à humanidade Beethoven, Goethe, Brahms, Kant, Hegel, o próprio Marx, pôde cair na mais horrível das imposturas políticas da História, o Nazismo? “
Falo com amigos, leio, releio, vejo, e até revejo filmes: “A Queda”, “A Lista de Schindler”, analiso obras como as de Fest e Shirer sobre a ascenção e queda de Hitler...No fim envergonho-me, em lugar dos alemães, por eles e por nós, choro lágrimas de solidariedade com as vítimas de Dresden e outras cidades bombardeadas pelos Aliados sem nenhum proveito logístico, indigno-me com a fumaça dos fornos de Dachau, penso em Von Braun – nazista camuflado – que terminou como Engenheiro-Chefe da Nasa, sim, estou falando do gênio dos mísseis...
Sou não-lúcido! Além disso, como cristão, deveria ter cem vezes mais humildade, ou pelos menos, como naquela história do livro Andorinha, Andorinha, que o pai de Manuel Bandeira contava: devia ser “menos burro”(2 ed.1987. p.66-67).
O maior - e melhor - teólogo do Cristianismo foi o Apóstolo São Paulo. Ele incluiu entre os mistérios da fé um que se chama mistério do mal. O Apóstolo referia-se, sem dúvida, ao mal portátil que cada um de nós carrega num saco plástico de supermercado, o malzinho que aconchegamos ao peito como uma cobra domesticada... Mas o Apóstolo, também, e principalmente, pretendia referir-se ao Mal que exige letras de anúncio de coca-cola, o Mal macroscópico das batalhas de Stalingrado, dos campos de extermínio como Auschwitz , o Mal-Mal.
Não estou aludindo, por favor, às aparentemente alegres “Noites de Arcore”, nem ao olvidado Mensalão, que, ao que parece, foi trancado no xadrês da impunidade, nem estou julgando ninguém. Estou perguntando apenas: como é possível não termos ainda, nem na Itália, nem aqui, um “Manual do Bom Presidente”, ou genericamente falando, um ”Manual dos Funcionários Públicos”, nos quais estejam prescritos regulamentos mínimos de comportamento condizente com as funções desempenhadas, manuais destinados a salvaguardar a honra de todos, a intocabilidade do erário da nação, manuais que garantam, ao menos, cara limpa à Democracia?
Por falar em...Democracia!
Quando jovem, eu pensava que Democracia era uma palavra que procedia de demo, isto é, diabo! As pessoas de então, quando perdiam a paciência, diziam: Que o demo te carregue! Depois que me doutorei em Filosofia, na universidade de Fribourg, quanta confusão entrou na minha cabeça! Meu velho professor, o holandês Vincent Kuiper,  nos dizia: “Jovens, não me entendam mal! Quando os filósofos gregos falavam em democracia, entendiam outra coisa, diversa da que nós entendemos. Eles propunham a seguinte analogia: quando vocês querem fazer uma viagem de navio, vocês não se reúnem, e escolhem o sujeito mais simpático, mais bem falante, mais abastado... Vocês escolhem o mais competente, um marinheiro calejado no ofício, que tenha competência para neutralizar os perigos do mar...Democracia, meus caros jovens, era o governo dos honestos e entendidos! Entenderam?”
Quão longe estamos desses ideais! Estamos na política do Vale-Tudo, no exercício do poder pessoal, da ditadura a varejo, da rapinagem, e o que é mais freqüente, no domínio da hipocrisia, sem a mínima possibilidade de podermos submeter esses líderes e governantes ao direito a que eram submetidos, na minha infância, os ladrões de galinhas... Sim, um desses ladrões, dotado de sens of  humour, pendurou, certa vez, no pescoço de um galo de nosso plantel de galináceos, o seguinte bilhete, que minha mãe, atualmente com 98 anos, ainda não entendeu, porque ela é uma pessoa de extrema sensibilidade, mas desprovida de humor: “Saudades eternas de suas bem-amadas!”
Concluo: paciência, paciência, paciência!
 Em italiano: flemma, flrmms, e poi flemma...– era assim que a mãe do Fígaro da Ópera de Mozart,o das Bodas de Figaro, aconselhava ao filho, enamorado de Suzana,que hoje poderá ser num vídeo a Mirella Freni.
De uma coisa estou certo, moralmente falando: que Dona Dilma não tolerará ladrões no seu governo!
Que Deus a conserve, e lhe mantenha o linfoma na sua condição de ex-linfoma! 

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