segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Pascal e a Bella Italia

O grande cientista e pensador francês do século XVII pode ter algo a ver com a presente situação política e cultural da Itália.
Três mulheres: Carmen d’Elia, Giulia Turri e Orolina de Cristofaro,  acabam de designadas para julgar o Primeiro Ministro, uma pessoa que parece esbanjar simpatia e sorrisos ubiquamente. Ele continua a desafiar, não só as manifestações populares contra sua conduta - um milhão de mulheres nas ruas do país - mas também a rejubilar-se pelo fato que os Bispos italianos tenham sustentado que a vida particular de um católico deve ser resolvida, entre as grades de um confessionário, e não entre as grades de uma prisão. Os Srs. Bispos, a rigor, não falaram em grades: falaram em confessionário. Como, porém, todos os confessionários  têm grades, supomos não ser incorreto lembrá-las.
Pascal, evidentemente, tem algo a ver com a Itália. Por uma razão específica: ebtre os seus “Pensamentos” encontra-se o seguinte:
- Para repreender utilmente, e mostrar a alguém que ele se engana, é preciso observar de que ponto de vista ele encara o assunto, uma vez que, sob esse ângulo, tal coisa é verdadeira, e reconhecer essa verdade, só depois descobrir-lhe o lado pelo qual ela é falsa.
(Pensamentos. Texto de Léon  Brunschvicg. n. 401).
Portanto, o primeiro passo a ser dado pelos italianos consistirá em dar razão ao Sr. Berlusconi, uma vez que, do ponto de vista dele, ele teria razão. Numa segunda démarche, porém, seus compatriotas terão a possibilidade de descobrir-lhe o lado pelo qual a sua posição é falsa.
Cremos que será essa a função primordial das Três Mulheres, designadas para resolver o imbróglio do Premier. Estamos curiosos por ver se elas usarão o método proposto por Pascal.Numa palavra: se conseguirão mostrar ao Primeiro Ministro o lado de sua conduta que ele não vê, mas que a justiça vê. Só assim as três magistradas poderão exercer suas funções judicativas.
Uma questão: será viável tal estratégia na Itália? A questão é mais ampla: em que país do mundo globalizado ela é possível?Estatisticamente falando, quantas pessoa serão capazes de reconhecer, depois que tiveram sua verdade reconhecida, a verdade que elas não vêem, mas que os outros vêem?
No caso do Primeiro Ministro, desconfio que as Três Mulheres enfrentarão uma situação de extrema gravidade. Em se tratando de verdades abstratas, todo o mundo geralmente está disposto a reconhecer não importa o quê. O Abstrato, afinal, não é visual. Em se tratando, todavia, de transgressões reais, passíveis de visualização, nas quais se acham envolvidas pessoas que têm ótima visibilidade midiática, o ondivíduo que vê a sua verdade terá provavelmente dificuldades insuperáveis para ver a verdade que os outros vêem.
Não temos, hélas, a possibilidade de telefonar a Pascal, para consultá-lo. Teremos de aguardar, simplesmente, para saber se as Três Mulheres da Magistratura Italiana serão capazes de induzir o Cavaliere  a ver a verdade que elas vêem, e ele não vê.
Nossa Bella Italia, sem dúvida, está metida num esplêndido imbróglio, talvez inédito do ponto de vista históricom não obstante esse imbróglio ocorrer num país que tem tradição milenar nessa sensível área.
Como oriundi, estamos acompanhando desde o Brasil, o que está acontecendo na Itália. Preferiríamos que tais episódios estivessem acontecendo num país de outros costumes civis, de outra tradição religiosa, quiçá num pais islâmico, onde se facultam aos sultões regalias que não são bem vistas em líderes democráticos ocidentais.
As últimas notícias que nos chegam da Itália, causaram-nos uma espécie de mega-surprêsa: será, mesmo, verdade que quase tudo o que existe nessa nação maravilhosa - canais de televisão, jornais, editoras, bancos, propriedades imobiliárias, entidades financeiras – pertencem, de fato (porque de direito isso nos parece incrível) ao Primeiro Ministro que está sendo processado?
Se isso for confirmado, apresentamos, desde já, nossas condolências às Senhoras Magistradas, designadas para solucionar o mega-imbróglio peninsular.

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