quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O otimismo de um pessimista!

      Revisando recortes de jornais arquivados, deparei com uma entrevista de Isaac Bashevis Singer, judeu-americano, Prêmio Nobel de Literatura em 1978:
- O Sr. é um otimista? indaga-lhe o jornalista.
- Sem dúvida, responde Singer. Sempre fui.
- Mas seus romances não dão a impressão de otimismo. Parecem sugerir pessimismo!
- É um grande equívoco. Sou um otimista nato: sempre espero o pior.
Que magnífica lucidez!
 A realidade é que ninguém se escapa dessa pandemia em que  vivemos uma pandemia –paradoxalmente - otimista.
Vejamos: tudo é maravilhoso para nós. Ressalvadas algumas regiões inóspitas da opinião pública, de que se ocupam, em geral, os autores de ficção científica, não existem territórios habitados pelo pessimismo.
O diabo é que nosso mundo nasceu com um diabinho no seu interior.
Esse diabinho reage dentro de nós:
- Vocês estão num mundo que já nasceu com uma ferida na coxa – ironiza-nos o maligno.
Outro diabinho reforça o companheiro:
- Vocês nasceram debaixo de um Dilúvio... Não há guarda-chuva para dilúvios!        -
- Mas o Sr. não é cristão? surpreende-me, inesperadamente, um terceiro diabinho que, a rigor, não entrava na história.
Digo-lhe que sim, admito a contragosto que ser cristão é ser sempre contra uma porção de coisas: a escravidão branca ou negra, os abusos do poder, a cultura da falsidade, as maracutaias da hipocrisia, a boca de baleia que se abre como para engolir o mundo...
De repente, não mais que de repente, lampadazinha acende-se na minha memória.
 Acode-me, então, à citada memória um episódio gracioso, relacionado com o Presidente americano Coolidge. Era protestante, e taciturno. Um dia foi ao culto dominical. Ao regresso, a mulher perguntou-lhe:
-Sobre quê falou o Pastor?
Coolidge pensou durante algum tempo. Depois:
- Falou sobre o Pecado...
- E o que disse o Pastor? insistiu a mulher.
Longa pausa.
Finalmente, Coolidge suspirou:
- Ele é contra!
 Minha neta diria, repetindo uma expressão famosa do século XX:
- É de fundir a cuca...
Não há a menor dúvida de que as pessoas evitam coisas críticas. Herbert Marcuse afirmava que o pensamento negativo, o que contesta os hábitos mentais e morais da nossa sociedade, estava praticamente desaparecido. Inclusive dos círculos da própria inteligentzia.
Talvez, portanto, o nosso problema esteja nessa perda de balanças.
Repito: otimismo, muito otimismo!
No fim das contas, recorramos, mais uma vez, ao corrosivo mas lúcido Voltaire, que já punha na boca do seu Cândido:
- O otimismo é a tara de afirmar que tudo está bem quando mal.
Voltaire não previu o caso de um otimismo de meia-sola, utilizável pelo brasileiro quando tudo está somente meio bem!
O brasileiro solucionou o problema. Inventou a anedota dos dois indivíduos que esbarram diante de uma garrafa de vinho, do melhor, cujo conteúdo fora esvaziado pela metade.
Diz o pessimista:
- Que desgraça! Beberam metade da garrafa!
Diz o otimista:
- Que sorte! Os caras não beberam todo o vinho!
Repitamos: otimismo! Muito otimismo! À Singer...

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