quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Lendo Goethe: “Luz! Mais Luz!

            Atendendo ao pedido de ex-alunos de minhas oficinas literárias, atrevo-me a dar algumas sugestões a leitores iniciantes
Anteponhamos a tais regras um “texto” – aliás o último - do grande poeta alemão Goethe, o qual teria expirado murmurando: Luz! Mais luz!
            Tentemos analisar esse brevíssimo texto.
I.                Primeira Regra:
Desconfiar!
Não por miúdo, mas por atacado. O diz-se não oferece segurança alguma: quem disse? Quando?  O que se disse? Nunca esquecer que o ato de morrer, para um grande homem (para qualquer homem!) significa recobrar a nudez do primeiro banho, quando a enfermeira escama do recém-nascido os restos de sua placenta.
II.                  Segunda Regra:
Pensar, sempre, na possibilidade de uma segunda interpretação.
Foi-me dito (eu era jovem) que, ao proferir aquelas luminosas palavras, Goethe estava em busca de luzes. Possivelmente de “luzes espirituais”. Hoje já não não tenho certeza disso. Talvez o Poeta pudesse estar pensando noutra coisa. Ao perceber (ainda que moribundo) que a escuridão ambiente era excessiva, poderia ter-se dirigido a algum dos circunstantes, rogando-lhe que providenciasse outra vela, outras velas, até mesmo uma lanterna. Ou estaria Goethe preocupado em reler um de seus originais? “Luz! Mais luz” seria, nesse caso: “Necessito de mais luz para ler”! Um conjunto de coisas poderia ter passado pelo cérebro desse homem. Poderia, até, estar pedindo mais luz como um mendigo que pede pão. Não pão dormido – é claro - mas pão fresco, trazido de manhã cedo por um entregador solícito. Só em último caso, o leitor lúcido deverá apelar para uma interpretação fora do senso comum, digamos, para a luz de uma aurora boreal, ou para a luz dos “campos do bom Deus”! – como lhes chamava o poeta Francis Jammes. Numa hipótese pouco provável, poder-se-ia evocar, inclusive, a luz do morto do nosso Quintana, que “não se apaga nunca”.
III.               Terceira Regra:
Não bobear!
A maioria dos escritores diverte-se em dar a impressão de que vivem mergulhados  no profundo poço de si mesmos, no mais inatingível mar íntimo, ou no desgastado oceano da consciência alheia. Sugerem que estão à cata de tesouros perdidos em caravelas espanholas naufragadas dos séculos XVII e XVIII. Tais escritores comprazem-se em exasperar o burguês, em brindar-lhes dores de cabeça. Tome note, jovem de que a maioria das coisas ditas “geniais”, que os escritores assinam, são lugares-comuns aprimorados, que levam a êxtases quase místicos professores universitários, ou críticos de diários de grande tiragem. Quando tu, ó jovem, topares com tais clichês, não te deixes trapacear. Dá-lhes, a esses tais, um par de cotoveladas, à maneira (segundo fui informado) dos japoneses nas filas de entrada dos museus italianos. As cotoveladas devem sempre ter sempre um ar polido de ocasionais batidas ósseas.
IV.               Quarta Regra:
Sub-ler.
Ouviste falar em subentendidos? Subler não é ir atrás de louçanias de estilo, expressão usual aos historiadores lusitanos do século XIX. É esbarrar num basalto inamistoso. Na pior das hipóteses, embora o basalto estejade bom humor, podes  identificá-lo com a pedra no meio do caminho de Carlos Drummond de Andrade. Nunca te fies da polpa, que dizem estar debaixo da casca, ou no interior da noz.  Fica à espera de outra coisa. O melhor dos escritores reside no que eles não dizem, nem escrevem. Está no que o leitor imagina que eles dizem.. A imaginação é, com certa freqüência, mais abundante no leitor do que no escritor.

            5.         Quinta Regra:
                        Não apreciar o que os escritores oferecem de original.
Retém as palavras de um anônimo sábio chinês: Tudo foi dito. O bom escritor é o que diz o que todo o mundo diz. Ele o diz volvendo os olhos para um dos lados, ou para todos os lados do objeto, segundo sua capacidade visual. O mais talentoso dos escritores fingirá interessar-se por uma lagartixa  que se aquece ao sol. Como já percebeste, o verdadeiro escritor não quer nada com nada. É por isso que as multidões o levam a sério. Não fosse por isso, a literatura seria um deserto. Camus, por exemplo, afirmou que um escritor escreve só duas ou três coisas na vida, e as fica repetindo até morrer, dando a impressão de que tais repetições são la crème de la crème. Previne-te contra tal cilada. Os escritores, especialmente os que a mídia canoniza, têm suficiente talento para se tornarem interessantes. Sua impostura só se expõe, na sua nudez total, quando lhes exumam os corpos. Na grande maioria dos casos, tais corpos se desfazem ao contato do ar extra-tumular. O pó de seus ossos aparece mais fino do que o pó de todos os caminhos palmilhados pelos camelos, ao menos desde a Hégira. Recomendo-te, ainda, um cuidado: não confundas o bom coração de um escritor com o coração que ele tem. Consulta, como medida de precaução, o seu cardiologista (o deles). Nãoatribuas a mínima importância às suas idéias políticas. Reflexiona, pausadamente, sobre o que Fernando Pessoa escreveu num momento de aterradora lucidez: sentir é estar distraído. A humanidade termina sempre por descobrir que o melhor de um escritor são suas distrações.
            6. Sexta Regra:
            Sempre que leres um escritor, pensa no que ele poderia ser, caso não fosse escritor.
Imagina-os nas mais diversas profissões sapateiros, frentistas, executivos, taxistas, gigolôs, provadores de vinho, barbeiros, primeiros-ministros da eurozona, emires, cardeais da Igreja, professores de educação física, icoglãs. Este último vocábulo, que significa “pajem de antigos sultões do Império Otomano”, encontrei-o em Voltaire, no seu delicioso e obrigatório livro Cândido ou o Otimismo. Imagina-os, também, escarranchado em dorsos de jumentos. Leva em conta o seguinte: na ânsia de chegarem à fama, alguns deles não se lembram de que mamaram quando eram bebês. Informa-te, pois, sobre seus hábitos normais: se andam de ônibus, se escovam os dentes, se param para ouvir um relincho de cavalo, e sobretudo, se eles próprios não relincham. Não dês maior importância ao que dizem sobre teorias da linguagem. Nem te fascines pelos berliques e berloques com que cativam as suas amadas (isto é, seus poemas, seus romances, suas crônicas). Fixa-te, particularmente. nos seus olhos. Se não percebes neles a alma, que costuma alojar-se no fundo dos seus olhos, desembaraça-te de seus livros.  Mesmo que seus autores te mostrem a medalha do Prêmio Nobel, busca outras fontes de distração e inspiração. Com o rolar dos anos, verás que a literatura é sempre outra coisa. Uma coisa inútil, mas, cuja falta, deixaria os homens infelizes. Para te facilitar as coisas, defini-la-ei toscamente: “é o esforço de um pintor para se equilibrar num pincel suspenso no ar, ou uma escada que um teólogo ergue para que seu pai possa chegar ao Céu”. Nos seus melhores momentos, toma cuidado, ó jovem: a literatura pode ser uma ilusão tão maravilhosa que seus praticantes chegam a imaginar que Deus poderia, na eternidade, interessar-se em ler o que eles escrevem. Alguns, mais afoitos, cogitam que Deus poderia ser autor do que eles escrevem. Evidentemente, tais autores, por serem mais ingênuos, são raríssimos. As más línguas dizem que um deles teria sido Victor Hugo. Outros mencionam, sigilosamente, o recém-falecido Prêmio Nobel português. A literatura verdadeira, caro jovem, parece ser tudo aquilo que,ao menos uma vez na vida, consegue tirar das mãos dos autores o chocalho da fama. A expressão: “A fama, esse chocalho” não é minha: é do Mario Quintana. Tentei localizá-la na sua Poesia Completa. Não o consegui. Despeço-me, pois,caro jovem, oferecendo-te o supra-sumo da literatura, curiosamente em outro verso do autor de A Rua dos Cataventos:
Somente nunca sai da moda quem está nu.
 (Ib. p.321.
Agora, à modo de corbelha, galantemente oferecida a uma jovem – pois hoje as jovens já são majoritárias no exercício literário – sintetizemos o que ficou exposto anteriormente:
A) A literatura é tudo que foi escrito para não se perder tempo.
B) A literatura é tudo que foi escrito para que o tempo se perca.
 C) A literatura é uma forma de o homem olhar para si mesmo, mirando-se, ao mesmo tempo, num espelho que guarda o derradeiro rosto que nele se espelhou.
D) Nota que Cecília Meireles escreveu: Em que espelho do mundo ficou perdida minha face?
E) Acho que o espelho de Cecília Meireles foi recolhido por um Anjo, e guardado no Céu à espera do Juízo Final, quando todos os escritores serão obrigados a se espelharem nele.

           

Um comentário:

  1. Seu blog e excelente, seus textos também são ótimos, vou tentar me inspirar no seu blog para melhorar o meu, se quiser depois e só da uma olhada o link ta logo a baixo: http://derlandreflexivo.blogspot.com/

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