quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A favor ou contra o Teólogo Hans Küng?

Os leitores devem conhecer Hans Küng, teólogo suíço  nascido em 1928. Ficou célebre por suas polêmicas com o Vaticano.
Digam, porém, o que disserem: Hans Küng permanece cristão, mais especificamente um sacerdote católico.
Em 28 de janeiro de 2011, declarou ao principal diário da Espanha, El País:
- Tenho sido, e sou ainda, um membro fiel da Igreja!
Se quisermos, portanto, situar  Hans Küng, sirvamo-nos do próprio método escolástico de Tomás de Aquino: “Utrum sit...: “Isto é: “Se é possível...” a um intelectual sentir-se à vontade dentro do Catolicismo!
Prescindamos  dos “Sed contra” ( “contra tal afirmação”). Dirijamos. sem maiores rodeios: “Ad  primum” et ad secundum respondeo...” (“ao primeiro e ao segundo ponto, respondo).
Com razoabilidade podemos admitir: “Sim, é possível a um intelectual permanecer no seio do rebanho de Cristo”. Não é, porém, nada fácil.
A idéia de rebanho já dá a impressão de que todos devem balir ao mesmo tempo, e do mesmo modo.
Depois, a parábola da Ovelha Perdida ,com certa freqüência, é associada no inconsciente católico, a duas classes de pessoas: às prostitutas e aos intelectuais. Atribui-se talsentido às prostitutas porque a profissão delas o torna compreensível. Quanto à atribuição aos intelectuais, a razão principal disso é que eles são pessoas de têmpera rebelde, que levantam muitas objeções à Igreja, – ainda que a maioria deles reafirme sua fidelidade a Cristo.
Alguns, com o tempo, se tornam hereges. São queimados em fogueiras públicas, como aconteceu ao frade dominicano de Firernze, Jerônimo Savonarola. Outros abandonam a Igreja. Outros desistem das objeções quando se cansam de encontrarem ouvidos surdos.
Nenhum historiador católico, creio eu, deixou algum dia de se perguntar como é que determinados intelectuais puderam permaneceram na comunidade cristã, a despeito das pressões que sofreram. Pensemos no fielTeilhard de Chardin, que convidava a Igreja a olhar noutras direções, empenhando-se por inserir nas suas preocupações uma série de contribuições científicas da Paleontologia.
E que pensar do capítulo das Heresias? Capítulo dolorosíssimo da História da Igreja.
Sintetizando um pouco, diremos: a partir ddo Papa Gregório VII (1020-1085), a vida ficou dura para os intelectuais. Na época, esse Papa instaurou a Teocracia (alguns a denominam Hierocracia). Gregório VII foi autor do celebérrimoDictatus Papae” de 1075 .
 Dois medievalistas católicos da atualidade, Alessandro Barbero e Chiara Frugoni,  reexumaram esse Dictatua, tornando acessível ao grande público nas páginas do livro Medioevo,. Storia di Voci, Racconto di Immagini  (Roma-Bari, Editori Laterza, 1999.  p.179-180.
Para entender tudo isso, retrocedamos a Santo Agostinho. Folheemos suas Confissões, onde  ele antecipou os futuros conflitos entre autoridades e intelectuais.
Numa página candente, o Santo investiu contra os cristãos da época que se recusavam a admitir  suas interpretações dos primeiros capítulos do Gênesis.
Perdendo a paciência, o futuro Doutor da Igreja não resistiu a um acesso de raiva piedosa:
- Ninguém mais me queira molestar...escreveu ele. Os dois Padres Jesuítas portugueses, que traduziram a autobiografia do Santo, utilizaram o verbo molestar! Tenho a impressão de que, se o Santo falasse o português brasileiro de hoje  teria dito:
Ninguém mais me aporrinhe! (ou melhor, mais ao nosso jeito: ninguém mais me chateie!) Moisés não pensou o que tu dizes, mas o que eu digo”. Eles não afirmam isto porque sejam muito espirituais ou porque lessem no coração do Vosso Servo (Moisés) o que proclamam, e sim, por serem soberbos. Não conhecem a opinião de Moisés, mas amam somente a própria opinião, não por ser verdadeira, mas por ser a deles”.
Harold Bloom incluiu as Confissões entre as 100 maiores obras-primas da literatura mundial. Se alguém quiser ler o texto do grande Doutor , numa das muitas traduções de sua obra publicadas no Brasil, procure-o no Livro XIII  das Confissões.
Respiremos um pouco! –
E então, José, ou Feliciano, ou Policarpo – o do Triste Fim, ou do Bom Fim: ou  o que pensar a respeito de Hans Küng?
O ideal seria que, previamente a discussão sobre personagem tão controverso, tomássemos todos lições de humor arte com o personnal-trainer  clássico dessa arte esquecida, Voltaire.
De qualquer modo, aproveitemos, desde já, Santo Agostinho para baixarmos o tom de nossas petulâncias. Assim entenderemos, talvez, Hans Küng! Assim entenderemos, também, os motivos que a Igreja tem para pedir moderação aos teólogos.
Vale a pena, ainda, recordar a advertência do melhor teólogo católico que já houve, Tomás de Aquino:
- Nenhum filósofo, antes da vinda de Cristo, apesar de todos os seus esforços, pôde conhecer, a respeito de Deus e das coisas necessárias para a vida eterna, o que, depois de sua vinda, qualquer velhinha conhece pela fé.”(O Credo .2 ed. Petrópolis, Editora Vozes, 2006. p. 17).
Não é provocativo acentuar que a teologia não é uma ciência apenas do intelecto; é uma ciência principalmente -do coração. Do coração que se acerca ao Deus sensível ao coração.,
Polidez e respeitabilidade, portanto, seriam as regras das relações entre o Papa, os Bispos, e os intelectuais.
Nossa aprendizagem do humor, finalmente, ganharia se principiássemos porbatizá-lo. A seguir,m poderíamos ler a seguinte confissão de fé do biblista, Cardeal Carlo Maria Martini, um dos papabili do último conclave:         -
Antes eu tinha sonhos acerca da Igreja. Sonhava com uma Igreja que percorre seu caminho na pobreza e na humildade, que não depende dos poderes deste mundo, na qual se extirpassem pela raiz as desconfianças, uma Igreja que desse espaço às pessoas que pensam com maior amplidão, que ouvisse especialmente, os que se sentem pequenos ou pecadores. Sonhava com uma Igreja jovem. Hoje limito-me a rezar por ela.” ( Diálogos Noturnos em Jerusalém. 2 ed..São Paulo, Editora Paulus, 2009) .

Nenhum comentário:

Postar um comentário