segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Em defesa de São Tomás de Aquino (II)

II. O QUE HÁ DE SIMPÁTICO E ANTIPÁTICO EM TOMÁS DE AQUINO.

Quantos homens magníficos existiram neste mundo!
A quantos admiramos! A quantos amamos!
É possível, até, que tenhamos admirações excessivas!
Poucos leitores, orovavekmente, opor-se-ão à nossa afirmação: é mais fácil admirar do que amar!
Com essas palavras – diria quase, com essas interjeições – iniciamos nossas considerações sobre o legado intelectual de Tomás de Aquino.
Antes de mais nada: uma constatação: Tomás de Aquino, como gênio do pensamento,parece influir pouco – ou nada? -  no mundo atual.
Com o objetivo de facilitar o acesso dos leitores a este ensaio, dividi-lo-emos em duas secções.
A)                  O que há de simpático em São Tomás de Aquino;
B)                  O que há de antipático em São Tomás de Aquino.

A).O que  há de simpático em São Tomás de Aquino.
Tomás de Aquino pode ser considerado um dos homens mais discretos e humildes que já houve na Igreja Católica.  
Foi humilde desde que nasceu.
Não o supomos nascido de cabeça curva, para se conformar ao figurino do santoral católico, que atribuía um toque de servilismo à grande virtude da humildade. Justamente por ter nascido com uma cabeça bem assentada sobre um pescoço ereto, que os biógrafos do Santo afirmam ter sido grosso, é que São Tomás pôde ser um humilde como ninguém.
O grande filósofo-teólogo, do ponto de vista físico,nada tinha de um tipo atlético. Nem poderia ser considerado o que hoje se qualifica de charmoso. Era louro, de estatura alta, porém tendia à obesidade - pinguissimus (muito gordo!) afirmam em latim seus ex-alunos de Paris, nomeadamente um deles, Remígio dei Girolami, que entrou na história por ter-se tornado professor de Dante Alighieri em Firenze. (Jean-Pierre Torrel pensa que Tomás devia sua estatura avantajada à sua ascendência normanda).
Além disso, o Santo tinha algo que contrariava – e ainda contraria - os padrões estéticos sociais: era um tanto quanto calvo: “aliquantulum calvus”.(Cf.Jean-Pierre |Torrell. Inciação à Santo Tomás de Aquino. 2 ed. São Paulo, Edições Loyola, 2004.p. 326).
Podemos, aqui, formular uma questão: que tinha isso a ver com o QI desse homem? Com sua inteligência?  
 São Tomas impressiona quem se acerca dele com a intenção honesta de destapar-lhe a verdadeira personalidade, por sua singeleza. Não se trata da singeleza de pessoas que estão, continuamente, a pedir desculpas pelos talentos que Deus lhes concede. Referimo-nos aos falsos-tímidos. A humildade de São Tomás foi sempre uma humildade de face corada, de dentes escovados, de mãos limpas.
Portanto, o primeiro aspecto simpático nesse homem é essa sua cristalinidade existencial.
Mas existem  muitos outros aspectos pelos quais ele nos é simpático.
Um deles: sabia pensar.
 Apetecia-lhe mais pensar do que “raciocinar”. Por vício de época, ele caiu amiúde num defeito que julgamos antipático: raciocinar demais. Quando, porém, pensava, pensava pra valer,como quem voa com sofisticada aparelhagem de computadores de bordo.
Mencionemos outro aspecto simpático no Santo, afim ao que acabamos de enunciar: ele não se deixava empolgar pelo próprio pensamento.
Tendia a dissecá-lo,a revirá-lo,a submetê-lo às tensões mais exigentes possíveis.    
Parece que se deixou empolgar uma única vez. Como convidado do rei da França, Luís IX, São Tomás participava de um banquete real.
Durante o banquete, embalado pelo monótono ronronar das conversas, e pelo não menos monótono tilintar dos talheres...Talheres? Que anacronismo! Como é, mesmo, que se comia na Idade Média?
O medievalista francês , Michel Pastoureau, no-lo informa:
- Não havia garfos, apenas umas poucas colheres, às vezes uma única faca para dois comensais . (...) Com a faca separavam-se pedaços grandes,levados à boca com as mãos. (A Vida Quotidiana no Tempo dos Cavaleiros da Távola  Redonda. França e Inglaterra nos Séculos XII e XIII .São Paulo, Companhia das Letras- Círculo do livro, 1989. p. 84-85).
Retomemos nossa narrativa.
 São Tomás estava desinteressado das intrigas palacianas dos convivas. Acabou por isso esquecendo o prato que tinha à frente, o cálice de vinho, (talvez um legítimo grand-cru da Borgonha). Distraiu-se, à maneira do grande Ampère que, ao voltar para casa de seu laboratório,  jogou o guarda-chuva sobre a cama...Isto causou-lhe a morte, pois contraiu uma pneumonia fatal!
A distração de São Tomás – para nossa sorte - não o matou!
 O Santo.na ocasião, estava obcecado por uma idéia fixa: queria encontrar um argumento decisivo contra os Maniqueístas!  Aludindo-se à alcunha, que lhe tinham dado, de Boi Mudo, poderíamos dizer que São Tomás, nesse festim real, não estava interessado em mugir, mas em ruminar.
 De súbito, bateu ruidosamente com o punho na mesa, e exclamou: Achei! 
O rei Luís IX entendeu que um cérebro como o de Tomás não podia ser menosprezado. Chamou os seus escribas, e deu-lhes ordem de anotar tudo o que o Santo havia pensado!
Passemos a outro aspecto simpático em São Tomás: ele foi sempre um crente fervoroso! Desses que fervem, não como o chiar de panelas de alumínio, mas com a pujança de uma sofisticadas panela-de-pressão contemporânea. São Tomás não explodia – porque era realmente piedoso, e não lhe sobejava tempo para comentar baixarias de clérigos, bispos e até papas...
Convenhamos: no século XIII, o século de  SãoTomás, os Papas – se não eram santos – eram pelo menos ótimos cristãos. Não saberemos nunca o que poderia acontecer se São Tomás se visse diante de outro tipo de Igreja, por exemplo a dos tempos deTeofilato e Teodora, a Igreja dos Papas João X, Leão VI, Estêvão VII, João XI... Como teria reagido o Santo, se o tivessem introduzido na intimidade de Alexandre VI, e este lhe tivesse solicitado sua assessoria intelectual e religiosa, como lha solicitaram Urbano IV e Clemente IV?
 Segundo seus biógrafos, o Santo  havia sido contemplado por Deus com uma graça especialíssima: a de não ser  afligido pelos espinhos da carne. Mesmo assim, apreciariamos saber como teria reagido frente a uma despudorada Vanozza dei Catanei, mãe de César Bórgia e Lucrécia Bórgia. Teria condenado tais criaturas, ou teria tentado demovê-las de sua vida dissoluta?Teria oferecido a Deus suas preces para ajudá-las a regenerarem-se?
Fato indiscutível: o Santo possuía uma alma de criança! Ele foi, segundo o testemunho de seus contemporâneos, um dos invejados católicos da História da Igreja que pôde enfrentar  serenamente a terrível ameaça de Jesus :
- Se não vos fizerdes como as crianças, não entrareis no Reino dos Céus. (Marcos 10, 13-16).
É, também, simpático verificar em São Tomás a ausência de toda vaidade intelectual. Se o glorioso Santo vivesse hoje, provavelmente nem o todo poderoso empresário do setor das comunicações,o australiano Murdoch, o convenceria a ocupar as manchetes de seus jornais, ou  os sets de suas televisões. Tomás parecia desprezar qualquer corrida aos 17 minutos da fama, a que nosso mundo atual parece condenado.  Não lhe importava ser o último em qualquer competição insana dos homens, contanto que pudesse ser, também, o último entre os bem-aventurados servos de Deus, inscritos no jardim-da-infância da iniciação aos Mistérios Divinos.     
Ao ser-lhe revelado, indiscretamente, por Frei Reginaldo que o Papa lhe preparava uma surpresa no Concílio de Lyon, durante o qual desejava conceder o Cardinalato a ele, e ao seu colega de magistério em Paris,  São Boaventura, Tomás virou-se para o seu confrade e secretário, e lhe disse:
- Irmão,em nenhum outro estado posso ser mais útil à minha Ordem do que no estado em que estou...
É, ainda, simpático descobrir em São Tomás uma nítida preferência filosófica: ele seguia, muito mais, o realista Aristóteles (que ele, também, cita com muito mais freqüência) do que o idealista Platão, a quem o cínico Diógenes ( o filósofo que, em pleno meio-dia, procurava um homem ajudado por uma lanterna acesa) em pleno ironizara, atirando por uma janela, ao interior da Academia de Platão um frango depenado, porque ouvira o autor dos Diálogos afirmar  que o homem era um bípede depenado...A anedota, que a tradição grega guardou para nós, embora não mereça senão frágil credibilidade histórica, ilustra bem o estado de ânimo dos dois filósofos.  Embora Tomás fosse filho de Conde, negava-se a viver na atmosfera artificial e envenenada das pompas, mesmo das pompas dos Papas, cujos palácios era obrigado a freqüentar.  
É suficiente examinar uma das teses, que ele sustentou,ferrenhamente, no campo da  antropologia, para nos darmos conta de que Tomás se negava a trapacear
 Vejamos, com mais detalhes, o que ele ensinava sobre o composto humano.
Segundo o Santo, o homem é uma unidade constituída por dois elementos indissociáveis: alma e corpo. A alma não goza de nenhum privilégio especial em relação ao corpo, a não ser o de sua natureza específica. Por isso, ao contrário do que pensava Platão  também ao contrário do que pretendia Descartes ,São Tomás sustentava que a alma humana,embora realmente espiritual, não podia separar-se de seu corpo, do qual ela era a forma. Digamos mais claramente: Tomás foi um dos poucos pensadores católicos que ensinou que a unidade substancial entre a alma e o corpo não podia ser comparada à de uma camada de geléia sobre uma fatia de pão. Consultemos alguém que pode dizer-nos algo sério sobre tema tão complexo, o monge dominicano,  Marie-Dominique Chenu. Peçamos-lhe que nos esclareça o pensamernto do seu coirmão santo. A explicação de Chenu honra a inteligência – e, naturalmente, a fé – de qualquer católico contemporâneo
-Cedendo à pressão de um platonismo disfarçado, substituído pela filosofia de Santo Agostinho, os teólogos e os espirituais tendem a conceber a união da alma com o corpo sob a condição prévia de uma alma consistente em si. Sua união à matéria só acidentalmente a afetaria: de certo, é num corpo que o espírito realiza seu destino presente e futuro, mas isso não é senão a envoltura temporal de uma vida que, em definitivo, escapa à nódoa do tempo. Donde uma espécie de imperialismo espiritual a adotar contra a degradação, ou, ao menos, contra a dispersão, não só das forças corporais centrífugas, senão também do universo e da matéria, da qual o corpo humano, como corpo, é solidário.(...) São Tomás recusa expressamente não só as consequências, como os princípios mesmos dessa antropologia.(...) não são duas coisas, não uma alma que tem, ou move um corpo, senão uma alma encarnada, e um corpo animado, de tal modo que a alma está determinada como “forma” do corpo, até no mais íntimo de si,a ponto de que, sem o corpo, ser-lhe impossível tomar consciência de seu próprio ser.(...) Se o corpo obstaculiza a alma não é por sua natureza, mas sim porque se corrompe. Nem a imortalidade, nem a contemplação, nem a vida interior, nem a dignidade absoluta da pessoa, nem a liberdade estão ameaçadas por essa união natural do corpo e da alma, porque o espírito, no composto humano, permanece como sujeito de ser e princípio de subsistência.(...) A vida interior, que começa pelo conhecimento de si, não se desenvolve evadindo-se das coisas; a liberdade não se refugia à margem dos determinismos exteriores ou psicológicos, nem a pessoa precisa temer as ligações sociais.Elimina-se, portanto, a mentalidade segundo a qual, sob formulações mais ou menos explícitas,o homem só assumiria o elemento corporal de sua natureza como um órgão provisório, como um instrumento mediador, graças ao qual ele se eleva das turvas imagens dos corpos às essências puras absolutas, desprendidas da matéria; domínio ideal, universal, sem mistura, onde ele jamais acha o lugar eterno e imutável conforme o seu espírito, prelúdio de um repouso que acabará superando finalmente o ônus indigno de sua natureza.(...) O espírito do homem é um só e o mesmo, desde a animação orgânica do corpo até à visão das coisas divinas, o mesmo que governa o jogo das paixões e que, pela Graça, se converte em habitáculo do espírito.(Santo Tomás de Aquino e a Teologia. Rio de janeiro, Livraria Editora Agir, 1967. p.124-129).
Étienne Gilson, além de confirmar a explanação de M.-D. Chenu, sublinha a novidade que, na época de São Tomás, significou a sua tomada de posição. A alma, diz o lilustre historiador, é vinculada ao corpo, do qual ela é a forma: “Por mais que isso choque, é preciso resignar-se a não privá-la do contato direto com o corpo, e é preciso renunciar às formas intermediárias que a separavam dele. Mais ainda: é preciso admitir que essa alma racional, forma única do corpo, é uma substância incompleta , embora sobreviva ao corpo, e não pereça com ele. Por isso a alma é obrigada a extrair do sensível todos os seus conhecimentos, mesmo os da inteligibilidade (...)”.(La Philosophie au Moyen Âge. 2 ed. Paris, Payot, 1952.p. 539; João Ameal.São Tomaz de Aquino. 3 ed. Porto, Apostolado da Imprensa, 1947. p..371; Otto hermann Pesch. Tomás de Aquino.Límite y grandeza de uma Teología Medieval. Barcelona, Editorial Herder, 1992. p.262-263).
 Em nosso tempo, de enfermidades como Alzheimer e Parkinson, de pesquisas sobre células-tronco, de  problemas de  Eutanásia: quanta luz poderia trazer-nos essa interpretação autêntica de São Tomás sobre a  união indissociável da alma e do corpo no composto humano!
No texto acima, omitimos uma observação de Chenu a respeito de um dos corolários da tese de São Tomás . Leiamos também essa observação:
-A matéria, no homem, poderá fazer-se, nesta consubstancialidade, partícipe da vida divina, e no dom gracioso dessa vida. Cristo Homem-Deus é o fiador de uma Ressurreição da carne glorificada. O homem é o transmissor da expansão do amor criador até ao interior da própria matéria.
Tudo isso, naturalmente não consegue inserir-se facilmente no menu de filosofias de última geração,nem nas tentativas, até certo ponto louváveis,propostas pelas Teologias Experimentais de nosso tempo. O pensamento cristão, tal qual o interpreta São Tomás, resiste bem à dura advertência de São Paulo aos primeiros cristãos:
- A este respeito temos muito a vos dizer, mas é difícil de vos explicar tais coisas, porque não quereis compreender. Já era tempo de serdes mestres. Mas a verdade é que ainda precisais que alguém vos ensine as coisas fundamentais da mensagem de Deus. Ainda necessitais de leite, quando já devíeis estar provando alimentos mais substanciosos.(Carta aos Hebreus, 5,11-12).
A fim de que não se trivialize o pensamento dos filósofos e teólogos católicos verdadeiramente na linha  de São Tomás, tenhamos sempre diante dos olhos a frase desafiadora de Jesus:
- Quem puder entender, entenda!
É,também simpático em São Tomás deparar, nos seus escritos, uma atenção aos detalhes de nossa vida ordinária.
Quem imaginaria que ele pudesse tratar questões como:
 - Podem o sono e os banhos aliviar a dor e a tristeza dos homens?
São Tomás conclui positivamente: a tristeza,diz ele, embora nasça nas profundezas da psique,necessita do corpo para deixar de ser tristeza.Remédios naturais– como o sono e os banhos –  diríamos hoje: recursos tão variados e eficazes como os da fisioterapia, da farmacologia, dos psicofármarcos, etc. - reconduzem o corpo ao seu estado conveniente. Portanto, o prazer é fundamental para amenizar – ou, se preferirmos uma expressão mais contemporânea - para se administrar a tristeza.
Que pretendia dizer com isso São Tomás?
Prescindamos, mais uma vez, da falsa idéia de que a alma é uma acionista majoritária, de nariz empinado, do composto humano, ou uma arrasadora tirana do corpo, como se ocorpo não passasse de um camelô que volta para casa, ao fim do dia, trazendo para a mulher uma dúzia de pãezinhos, e para as crianças uma caixa de isopor com sorvetes...
São Tomás é taxativo: ele afirma que não pode haver nem sequer um mínimo de vida religiosa, se primeiramente não forem atendidas as exigências básicas de sobrevivência animal!
Logo,não existe vida humana, nem vida religiosa, sem equilíbrio psíco-somático,  sem a cesta básica do atendimento às exigências médico-sanitárias, etc.
Em nosso mundo contemporâneo, no qual a biologia molecular nos traz, cada manhã novas descobertas, em que a neurociência já tem condições de interfer na dança dos  neurônios, quantas rotas para a compreensão do enigma humano se abrem com essa tese antropológica de São Tomás de Aquino!
Mas, à parte o que já foi dito, consideramos ainda simpático surpreende em São Tomás imprevistas impaciências!
Não me constranjo de imaginá-lo sentado a uma mesa de bar universitário, a dizer a uma garçonete que lhe veio trazer o café,elogiando-o  “por sua brilhante inteligência”:
 -Deixe-se de fantasias, irmã! Amar a Deus é melhor que conhecê-lo!
(Cit. por João Ameal.São Tomaz de Aquino.p. 420.O autor remete o leitor ao texto da  Suma Teológica. Prima Pars, Quaestio.82, Art.3. Resp.).
É, também, profundamente simpático descobrir em São Tomás que ele não era um “plácido e majestoso obeso” - como alguém o qualificou - mas um católico comum, capaz de se irritar com a petulância e o ar escarninho de certos indivíduos:
-Se algum de nossos contraditores, estiver convencido de sua ciência,e deseja apresentar algum argumento contra nossas afirmações, não o faça por aí, pelo corredores, diante de jovens que, em assuntos tão difíceis, carecem de critérios, mas o exponha por escrito, e venha no-lo trazer. Se fizer isso, não só me encontrará a mim, o menor dos amigos da verdade, mas a muitos outros, que lhe mostrarão onde está o seu erro e a sua ignorância.
(Cit. por  Martin Grabmann, em: Santo Tomás de Aquino.Barcelona, Editorial Labor, 1930. p..17; cf. Tb. Jean-Pierre Torrell.  Iniciação a Santo Tomás de Aquino.p. 110).
 São Tomás, todavia, é mais do que simpático quando se recorda que ele próprio possui uma alma de poeta, em geral camuflada sob seu hábito de monge, e forçado amavelmente pelo  Papa Urbano IV (1264),  compõe o Ofício Litúrgico da Festa de Corpus Christi!
(Cf. Jean-Pierre Torrel. Inciação a Santo Tomás de Aquino. p. 151-159).
É preciso deter-se no poema de São Tomás de Aquino, que começa pelas palavras:  Adoro Te. É uma obra máxima de lirismo cristão, um milagre de ternura abstrata!  Como definiremos tal explosão poética do Santo? 
Em versos latinos, de assombrosa despretensão, São Tomás eleva-se ao mais sublime misticismo:
Eu Te adoro, Deus escondido,
que, sob estas aparências, estás oculto:
a Ti meu coração plenamente se confia,
e, ao contemplar-Te, cai e desfalece.

A vista, o gosto, o tato, não podem Te alcançar:  
é só pelo ouvido que consigo crer.
Mas creio no que disse o Filho de Deus :
 nada há mais verdadeiro do que a Verdade.

Na Cruz a Divindade estava oculta,
aqui  nem se vê sua humanidade!
Não obstante, creio e confesso uma e outra
e, para mim, peço o que Te  pedia o Bom Ladrão.

Ao contrário de Tomé, não toco nas tuas chagas!
Não obstante, confesso-Te como meu Deus.
Dá-me a graça de crer cada vez mais em Ti,
e de,em Ti, ter mais esperança e amor

Ó memorial da morte do Senhor!
Ó Pão Vivo que dá vida ao homem!
Possa minha alma viver sempre de Ti,
e  que Teu Sabor lhe seja sempre doce.

Pio Pelicano, Bom Jesus,
como sou imundo, purifica-me  com Teu sangue,
do qual uma só gota basta
 para purificar o mundo de toda mancha.

Jesus, a quem escondido eu vejo,
dá-me – suplico-Te -  o que tanto desejo:
que eu possa Te ver, sem véus,
e contemplar Teu Rosto,  no Paraíso.
Essa imagem de São Tomás, tão elementar na aparência, tão vulgar (as pessoas por acaso não dizem: Não lhe sobrou uma gota de sangue... Não há uma gota ‘água na torneira... Falou sem uma gota de vergonha na cara...), como soa bem aqui, no coração pequenino desta metáfora! Do qual uma só gota basta?  Qual o cristão que não estremece diante desse mistério? Há muitos séculos, o grande Pascal se deu conta do valor dessas gotas de sangue do Redentor, quando pôs na própria boca do Redentor esta comovedora confissão:
- Pensava em ti na minha agonia, por ti derramei certas gotas de sangue.
Cada vez que ouço as palavras de São Tomas, cantadas por um coral afinadíssimo ou por um grupo de cantores de uma cidadezinha do interior do Brasil, que se esforçam por extrair de suas gargantas algo que os aproxime dos incomparáveis coros europeus: Cujus uma stilla...Sim, essa pequenina gota de sangue evoca mil outras gotas. Inclusive as gotas de sangue de todos os campos de concentração que o Nazismo montou em Dachau, Birkenau, Auschwitz, e dezenas de outros locais malditos deste infeliz planeta...
Nem Dante, nem São João da Cruz foram capazes de compor um poema sem asas (aparentemente!), tão linear, tão...semelhante a uma poesia descalça!
Vejam como o poema se apresenta à altura, ao mesmo tempo, da inteligência, e do coração. Tem um gosto de fruta exótica ...nascida onde?  No ar...num sopro da boca de Deus! Repito: o fruto parece renegar a árvore donde efetivamente veio,a emoção litúrgica que lhe emprestou a seiva e a própria polpa que o constituem. Mas é engano.
É algo que não sei me explicar: toda vez que leio esse poema, e os demais do Ofício da Festa do Corpo de Deus, tenho a esquisita impressão de que São Tomás fez com eles o que o pintor Claude Monet fez com suas ninféias , em Giverny, nos arredores de Paris. As ninféias eram simples flores aquáticas. Foram convertidas pelo pincel do artista num delírio policrômico ,numa coreografia de virgulações texturais, com sabor inicialmente à Van Gogh, depois com sabor ao Abstracionismo Lírico de Kandinsky, ou ao  Informalismo quase psicodélico de Wols...
Os versos de São Tomás – ao jeito das ninféias de Monet – são basicamente objetos : em sai não passam de vocábulos tradicionais. São Tomás pegou essa nobre sucata litúrgica, desgastada pela usura dos séculos e da salivação cristã monástica, e o converteu numa  espantosa e cativante caricatura infantil da própria Transubstanciação Eucarística.
Sustento, no que me diz respeito, que o poema Adoro Te contém elementos transcatólicos, assimiláveis por quem quer que seja: acatólicos, judeus, islâmicos, budistas, afro-brasileiros...e – quem sabe? - principalmente agnósticos e ateus, dado que estes, por sua neutralidade psíquica, podem talvez captar melhor a dimensão puramente palatável do poema.
 A título de informação: o Ofício do Santo Sacramente (Ofício Sacerdos e Missa Cibavit) enfeixa os seguintes hinos: Lauda Sion, Pange Lingua, Sacris Solemniis, Verbum Supernum, O Salutaris Hostia, Tantum Ergo Sacramentum ).
Insisto: se alguém ler esses versos de São Tomás com eros  verbal, com eros espiritual ,com algum gosto acústico, esse leitor chegará à  amêndoa que se oculta no interior de uma noz sem muito atrativo exterior.
Observem as expressões:
Pie Pellicáne, Jésu Dómine
me immúndum munda tuo sánguine
cujus uma stilla salvum fácere
totum mundum quit ab ómni scélere.
Agora silabem os vocábulos! Façam isso em voz alta - como se estivessem aproveitando gomos de uma laranja, ou degustando bagos sensuais de uva...Parem um pouco nas palavas conclusivas dos versos – sem se importarem com o significado delas. As ondulações rítmicas, as graciosas  aliterações dos versos seduzirão vocês!
Pie Pellicáne,
 Me immundum munda!
 Com os lábios: lambam os impulsos proparoxitonais dessas rimas assonantes!

B).O Que há de antipático em São Tomás de Aquino.

1)                  Antes de mais nada, é antipático ver em Santo Tomás que  o exercício de sua capacidade intelectual se cumpre muitas vezes unidimensionalmente, no interior de uma espécie de cabine espacial:  a da inteligência celibatária .

 Sem dúvida, São Tomás é genial, porém sua genialidadenão, com relativa freqüência, tenta driblar sua categórica afirmação sobre a unidade psicossomática do composto humano, a que nos referimos. Embora o Santo seja um aristotélico convicto, põe, por vezes, entre parênteses o realismo aprendido com o Estagirita. Noutras palavras: temos direito a cobrar de São Tomás maior fidelidade ao axioma da Escolástica: Não se conhece nada, no plano intelectual, que não tenha estado primeiramente nos sentidos corporais.
Étienne Gilson pode ajudar-nos nos a compreender isso:
-A origem de nosso conhecimento – diz Gilson - está nos sentidos; explicar o conhecimento humano é definir a colaboração que se dá entre as coisas materiais, os sentidos, e o intelecto. O homem, constituído de um corpo e da forma desse corpo, está colocado num universo de naturezas, isto é, de corpos materiais, dos quais cada um possui sua forma. O elemento, que particulariza e individualiza essas naturezas, é a matéria de cada uma delas; conhecer consiste em extrair das coisas o que nelas existe de universal. A essa operação denominamos abstração. Os objetos sensíveis agem sobre os sentidos mediante as espécies materiais que se imprimem neles. Tais espécies, embora despojadas de matéria, conservam vestígios da materialidade dos objetos donde eles se originam”.(La Philosophie au Moyen Âge.2 ed. Paris, Payot, 1952. p. 537-538).
Dito de outra forma: o conhecimento humano é obrigado a revelar sempre alguma coisa de sua fonte original, os sentidos. Não existe inteligência pura no homem, como não existe também nele espiritualidade pura.  A inteligência só funciona acoplada aos sentidos .Expressemos isso com maior veemência:  é antipático verificar que o exercício intelectual de Santo Tomás , que deveria decolar dos sentidos, sem desligar-se, porém, completamente deles, aparece com freqüência desconectado dessa moldura sensorial. O Santo realmente decola, dos objetos sensíveis, porém, de súbito, parece esquecer que sua decolagem é provisória, que o aparelho terá de pousar outra vez na terra donde partiu. Raciocinar, afinal, é ir em direção à abstração, mas não se render à abstração, não permanecer nela. A abstração,por assim dizer, é uma viagem ao espaço rarefeito das essências,  onde  o homem pode testar as resistências que lhe permitirão conhecer melhor sua condição carnal.
 Em síntese: é permitido guindar-se a um ambiente sem gravidade, onde todas as coisas ( dez quilos de chumbo ou uma pluma de colibri, caem com a mesma velocidade). Isso permite descobrir as leis que regem nosso mundo, onde os dez quilos de chumbo e a pluma do colibri não caem com a mesma velocidade. A abstração,contudo, é vôo provisório – de certo modo inatural – que convém ao espírito encarnado só interinamente. Ficar nesse vôo é tombar no conhecimento artificial. No caso de um cientista, tal tendência poderia levá-lo, não apenas a exilar-se da ciência, mas a traí-la. No caso de São Tomás, tal tendência a raciocinar na sua cápsula, o afasta do concreto, debilitando-lhe as conclusões. Percebe-se bem isso nas provas da existência de Deus da Suma Teológica. São Tomás passa das criaturas movidas ao Motor Imóvel. Tudo parece lógico. Mas quem prova que Deus é um Motor, mesmo eliminndo-se dessa palavra o que ela tem de não- vital,de inerte, de mecânico?
Bertrand Russel pode não estar em erro quando objeta a São Tomás:
- Tomemos os argumentos destinados a provar a existência de Deus. Todos eles, exceto o da teleologia nas coisas inanimadas, dependem da suposta impossibilidade de uma série que não tenha primeiro termo. Ora, todo matemático sabe que não existe tal impossibilidade. A série de inteiros negativos que termina em menos um é um exemplo do contrário.
(História da Filosofia Ocidental. Livro Segundo. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1969. p. 178)
Russell, de resto, peca em perfeita simetria com São Tomás: ele - e São Tomás – estão ambos por demais  convictos de que a razão sozinha pode chegar a Deus – a uma “abstração chamada Deus”, naturalmente, não ao Deus Vivo.
 N sua Explicação do Credo, Tomás escreve:
 Nenhum filósofo, antes da vinda de Cristo, apesar de todos os seus esforços, pôde conhecer, a respeito de Deus e das coisas necessárias para a vida eterna, o que, depois de sua vinda, qualquer velhinha conhece pela fé.
(O Credo. Tradução, prefácio, introdução e notas de Armindo Trevisan. 2 ed. Petrópolis, Editora Vozes, 2006. p. 17)
Notemos que São Tomás escreveu: “a respeito de Deus” -  e só então acrescentou: “e das coisas necessárias para a vida eterna”, distinguindo, portanto, o conhecimento natural de Deus do conhecimento sobrenatural da Revelação. Podemos concordar com Russel na afirmação de que as afirmações de São Tomás ocorrem “dentro de uma lógica que não pode mais ser aceita”.
(Ob. cit. p. 179).
Não endossamos, porém, o que o filósofo diz a seguir:
- Há pouco do verdadeiro espírito filosófico em Tomás de Aquino.(...) Antes de começar a filosofar, ele já conhece a verdade; está declarada a fé católica.
(Ibid. p. 179).
Ainda que o mesmo Russell tenha dito, anteriormente, que a influência viva de São Tomás pode ser comparada à de Platão, Aristóteles, Kant e Hegel,“ maior, com efeito, que a destes dois últimos”,o filósofo inglês não faz justiça a São Tomás. Russell, em certo sentido, merece a mesma crítica que fazemos a São Tomás:  de razão raciocinante!
 Consideramos, igualmente, antipático em São Tomás não ter ele amenizado, de vez em quando, seu trabalho intelectual com mais trabalho braçal O defeito básico da “síntese tomista” parece ser um defeito compartilhado com todas as filosofias: pretensão intelectual. Talvez São Tomás não se tenha apercebido de que a  pretensão intelectual pode vestir-se, às vezes, com os farrapos da humildade...
Mas o que nos impressiona nos escritos de São Tomás é a ausência neles de um sentido: o tato!
Sim, o tato está praticamente ausente de tudo o que ele escreveu. Podemos identificar na sua obra vestígios de outros sentidos, da visão, da audição, talvez do olfato, quiçá do gosto...Mas o tato, onde encontrá-lo? Tem-se a impressão curiosa de que São Tomás foi um homem sem tato.
Verdadeiro? Falso?
Ousamos sugerir uma explicação para essa ausência do táctil no pensamento tomista. Talvez ela se relacione com a vocação monacal do Santo. Teoricamente, o tato é  excluído da vida de um monge. Ele é o inimigo mais traiçoeiro da castidade.
Atendo-nos às informações, que dão biógrafos categorizados, chegamos à constatação de que o Santo não conheceu nenhuma experiência sexual.
 Comparemos, sob esse aspecto, os escritos de São Tomás aos de outros pensadores medievais, como Santo Anselmo e São Bernardo de Claraval. Comparêmo-lo, até mesmo, a Santo Agostinho, tenaz adversário do sexo. Percebemos certa diferença entre esses autores e São Tomás.
Nos escritos de Tomás de Aquino descobre-se, como frisamos, tal ou qual insensibilidade sensorial. Obviamente, isso não quer dizer que Santo Anselmo e São Bernardo tenham tido, necessariamente, experiências sexuais. Possivelmente não as tiveram. Viveram, conforme os escritores eclesiásticos dizem, ou subentendem, uma existência virginal.
O que, porém, diferencia Anselmo e Bernardo de São Tomás é a amizade que esses santos  tiveram com mulheres
Não se vislumbra nenhuma amizade feminina na vida de São Tomás. As únicas, que seus biógrafos se esforçam por valorizar, são as amizades com suas irmãs e sobrinhas. Perguntemo-nos: que tipo de relações afetivas o Santo Tomás mantinha com elas? Nossa impressão é que São Tomás teve poucos encontros com suas irmãs e sobrinhas. Tais encontros dão-nos a impressão de que o Santo ia visitá-las, ou elas iam a ele, ao sabor de circunstâncias aleatórias, não como pretendia Saint-Exupéry, como quem deseja regar suas plantas prediletas.
Narremos um estranhíssimo episódio, que ocorreu no fim da vida do Santo, quando, gravemente enfermo, estava ainda no Castelo de sua sobrinha, em Maenza, um pouco ao norte de Terracina. Segundo esses biógrafos, o médico, que o assistia,vendo que o Santo estava muito debilitado, perguntou-lhe se não desejava comer algo. Candidamente, São Tomás confessou que gostaria de comer arenques, que ele tinha apreciado muito quando residia em Paris. Milagrosamente, acrescentam os biógrafos, os peixes foram encontrados, porém o doente,imprevistamente, disse que não os comeria.(Jean-Pierre Torrell. Iniciação a Santo Tomás de Aquino. p.341).João Ameal  dá uma versão levemente diversa: Ao sair de junto do leito de São Tomás, o médico, João de Guido, de Piperno, encontrou, na praça fronteira ao Castelo, um vendedor de sardinhas chamado Bordonarius. Perguntpu-lhe qual a espécie de peixes que trazia.O peixeiro Este disse-lhe que trazia sardinhas. Ao destapar, porém, o cesto para as mostrar, Bordonarius maravilhou-se: as sardinhas tinham se transformado em arenques frescos! O médico voltou ao Castelo, e declarou que o desejo do Santo podia ser satisfeito: os arenques estvam aí.
-Donde vêm esses arenques -indagou São Tomás- quem os trouxe aqui?
- Foi Deus quem vo-los mandou, replicou Frei Reginaldo, seu secretário.
A Sobrinha- Condessa,o Conde, seu marido,e os demais circunstantes, insistiram para que São Tomás os provasse.. O Santo permaneceu algum tempo em silêncio, depois disse:
- Agradeço-lhes o favor.Mas não os provarei. Desejei-0s excessivamente.
( São Tomaz de Aquino. Iniciação ao Estudo da sua Figura e da sua Obra. p. 152).
Novamente, verificamos aqui outro esforço da hagiografia no sentido de tornar São...sem sentidos!  Até o paladar procuram confiscar-lhe! São Francisco de Assis, seu contemporâneo, teve à beira da morte idêntico desejo: queria comer um doce que lhe preparava em Roma, onde residia, a fidalga “Irmão Jacoba”, ou “Irmão Jacqueline”, a quem Francisco enviara uma carta pedindo que lhe trouxesse, daquela cidade,além de um lençol grosseiro para a sepultura, os deliciosos pastéis de amêndoa que ela sabia fazer com tanta habilidade.
 Francisco mal pôde provar um desses pastéis! Rogou a seu coirmão Bernado de Quintavalle que, em nome da obediência, os comesse...(Omer Englebert. Vida de São Francisco de Assis. Trad. de Adelino Gabriel Pilonetto. Porto Alegre, Escola Superior de Teologia S. Lourenço de Brindes – CEFEPAL, 1978. p. 303-304).
No caso de São Francisco, ao menos, a iguaria foi provada. Os biógrafos, porém, de Tomás, possivelmente consideraram o desejo do santo em relação aos arenques politicamente incorreto...
2)Antipático em São Tomás  é, também, um aspecto de sua doutrina: a misoginia..
 A misoginia, nos séculos XII-XIII, era uma característica monacal “globalizada”. Otto Hermann Pesch, na sua conhecida obra: Tomás de Aquino, Límite y Grandeza de uma teologia Medieval (Barcelona, Editorial Herder, 1992) mostra-se implacável com São Tomás. Vai ao ponto de chamá-lo “misógino tenebroso(Ibid. p. 257) .
A denúncia, porém, mais documentada é a de Uta Ranke-Heineman., em  Eunucos pelo Reino de Deus  (Rio de Janeiro, Editora Rosa  dos Tempos, 1999).
Não há como livrar São Tomás de semelhante pecha. Uta escreve: dada a noção, que São Tomás defende na Suma Teológica ( III Pars q.65 a.1 ad 5), a de que o desejo sexual com sua instabilidade paralisa a razão,  “é preciso dizer que Tomás colocava o sacramento do casamento em último lugar, porque tem um mínimo de espiritualidade”.(Ibid.,a.2.ad 1.. p. 170).  
A autora, a seguir, desenvolve outros pontos negativos da concepção de São Tomás. (Ibid. páginas 198, 201-203, 208-209 ). Por vezes, tal aspecto causa-nos, mais do que perplexidade, tristeza. Sugiro, pois, aos leitores que consultem uma obra coletiva, elaborada por um grupo de medievalistas internacionais de grande mérito: História das Mulheres no Ocidente (sob a direção de Georges Duby e Michelle Perrot. Porto, Edições Afrontamento, 1993).
Seria fastidioso reproduzir as referências que aí se encontram. Podemos dizer que São Tomás tinha em comum com seus contemporâneos monacais uma atitude similar, frente às três imagens dominantes da mulher na cultura dos séculos XI-XIII: a imagem  da Tentadora, a imagem da Rainha do Céu, a imagem da  Pecadora Resgatada.
(História as Mulheres no Ocidente. A Idade Média. “Olhares de Clérigos”. Jacques Dalarun.p.54).
Jacques Dalarun acrescenta que, para a maioria desses autores, “toda a iniciativa é masculina e a mulher, “macho falhado” segundo a expressão de Aristóteles, não pode viver senão na sua subordinação”. (Ibid. p. 56).
Claude Thomasset, no capítulo “Da Natureza Feminina”, revela que o Santo, ao explicar a formação do embrião divino no seio de Maria, se esforçava por afastar, por um artifício de fisiologia, o princípio divino de qualquer contacto com o sangue menstrual impuro, alimento do embrião do comum dos mortais. Nunca – diz ela – a fisiologia da mulher foi causa de um debate tão vivo e de uma procura tão incessante!”(Ibid. p. 68).  
Silvana Vecchio esclarece: “São Tomás julga poder fundamentar a própria necessidade do matrimônio na exigência de confiar a educação da prole a uma figura masculina”, o que, segundo ela, está na linha dos autores de então que desejavam  uma “exclusão radical da figura feminina de todo o âmbito educativo”.(Cit. Ibid. p. 167).
Como remate dessa digressão (também antipática!) sobre o antipático em SãoTomás de Aquino, transcrevamos uma observação de Claudia Opitz, seguida por um texto do próprio Santo Doutor:
- Para os homens da época, a relação (entre as trivialidades e os mistérios da “produção feminina) era tão óbvia e evidente (como um domínio exclusivamente reservado à competência das mulheres) que mesmo Tomás de Aquino, numa passagem de sua Suma teológica, muitas vezes citada e criticada, atribui o aparecimento da mulher na Criação apenas à circunstância de o homem, para assegurar-se a sua descendência, pela procreatio, não poder dispensar a sua capacidade de dar à luz”.
O texto de São Tomás é o seguinte:
- Era necessário que a mulher entrasse na Criação, como diz a Escritura, como ajudante do homem; e não como ajudante para quaisquer outras obras da criação, como alguns afirmam, pois o homem encontra para as restantes obras melhor ajuda noutro homem do que na mulher, mas sim como ajudante na obra da procriação.(Cit. Ib. p. 378).
3) Outro aspecto antipático em São Tomás : sua falta de sensibilidade estética.
Por mais que alguns autores se empenhem em extrair de suas obras uma Estética, não o conseguem. Em termos estéticos, São Tomás tem pouco, ou nada a dizer. Levá-lo a sério no que ele “filosofa” sobre arte e temas afins é identificar a ornitologia com a apreciação da plumagem das araras,ou com o deleite que nos causa o canto dos sabiás. Uma coisa é maravilhar-se com a policromia dessas plumagens e a graça dos trilos e gorjeios das aves, outra submetê-los a uma análise gramatical.
Eis por que não nos surpreendeu ler que São Tomás se mostrou indiferente, ou hostil, à introdução da polifonia no culto litúrgico de sua época. (Cf. Otto Hermann Pesch. Ob. cit. p.413; também: p. 443-444).
Em nossa opinião, o Santo somente se revelou estético numa área: na poesia, por uma feliz erupção de sua piedade,como registramos.
Talvez seja aqui o momento de se cotejar, a título de ilustração, a sensorialidade de Santo Agostinho e de Santo Anselmo de Canterbury com a de São Tomás.
Em Santo Agostinho encontramos este impressionante depoimento pessoal, incluído na sua autobiografia:
- Que amo eu,Senhor, quando Vos amo? Não amo a formosura corporal, nem a glória temporal, nem a claridade da luz, tão amiga destes meus olhos, nem as doces melodias das canções de todo o gênero, nem o suave cheiro das flores, dos perfumes ou dos aromas, nem o maná ou o mel, nem os membros tão flexíveis aos abraços da carne. Nada disto amo, quando amo o meu Deus. E contudo, amo uma luz, uma voz, um perfume, um alimento e um abraço, quando amo o meu Deus, luz, voz, perfume e abraço do homem interior.(Confissões.Livro X, 6.11 ed.Tradução de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. Porto, Livraria Apostolado da Imprensa, 1984. p.244).
Seu autorizado biógrafo contemporâneo, Peter Brown diz-nos:
- (Agostinho) era receptivo, como raras vezes ocorreu depois, às belerzas natrurais que o cercavam: ao ritmo da água corrente na casa de banhos, a dois galos brigando sob a luz matutina do sol, aos céus límpidos do outono italiano (...) (Santo Agostinho. Uma Biografia. Trad. de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, Editora Record, 2005. p. 143).
Em Anselmo deparamos o seguinte trecho no seu livro Proslógio:
- Tu, ó Senhor, te escondes da minha alma, encoberto pela tua luz e a tua felicidade e, por isso, ela está mergulhada nas trevas e na sua miséria. Olha ao redor de si e não vê a tua beleza; escuta e não ouve a tua harmonia; aspira e não percebe o teu perfume; tem paladar e não consegue experimentar o sabor de ti. Toca e não percebe a suavidade da tua substância. Sem dúvida, ó Senhor meu Deus, tu tens todas essas qualidades de uma maneira inefável,e as doaste às tuas criaturas sob forma sensível; porém, os sentidos da minha alma endureceram, entibiaram e obstruíram-se pela languidez do pecado. (Proslógio.Trad. e notas de Ângelo Ricci. São Paulo, Editor Victor Civita, 1973. P. 120).
São Tomás de Aquino não revelou, em momento algum, uma sensibilidade – ou antes, uma sensorialidade – como a desses dois Santos!                           
4) Existe outro aspecto antipaticíssimo em São Tomás : sua abordagem do Inferno.
É realmente de se perguntar: como pôde um gênio de inteligência e bondade, como São Tomás, descobrir, no castigo eterno aos réprobos, uma prova especial da misericórdia divina?
A frase com que Otto Hermann Pesch conclui seu parágrafo a respeito do Inferno, tal como o concebe São Tomás, pode ser endossada por qualquer católico:
- Esses pensamentos de São Tomás deixam sem palavras um cristão nascido depois de Lutero.
(Cf. Tomás de Aquino.Límite y Grandeza de uma Teología Medieval. p. 186.)

5) Para terminar este buquê de antipatias pessoais, uma última antipatia em São Tomás: a justificação da pena de morte.
O biógrafo do santo, Jean-Pierre Torrell, em duas obras que lhe dedicou recentemente, não faz um único comentário sobre esse assunto. Em outros livros, que também abordam a vida ou a obra, de São Tomás, nada encontramos a respeito.
Haverá um constrangimento geral dos autores em tocar nessa espécie de calcanhar de Aquiles de São Tomás?
Torrell  limita-se a dizer que o irmão de Tomás, Renaud, foi condenado à morte pelo imperador Frederico II.  Esclarece que o imperador mandou executá-lo, em 1246, por ter conspirado contra ele.
E acrescenta:
 - A família o considerava um mártir pela causa da Igreja. Ao que parece, Tomás também pensava assim, pois foi ele que teve em sonho uma visão de sua irmã Marotta, então recentemente falecida, que lhe teria informado do destino póstumo de dois de seus irmãos: Renaud se encontrava no paraíso, enquanto Landolfo estaria no purgatório (...)
(Iniciação á  Santo Tomás de Aquino. p. 4).
Martin Grabmann, conhecido expert tomista alemão, comenta que a melhor forma de governo,segundo São Tomás, é a monarquia, “o governo justo de uma pessoa só”, e que, na opinião dele, a pior forma seria a tirania, ou seja, governo injusto de um único governante.
 Para surpresa geral nossa, Grabmann nota que São Tomás não permitia que o tirano, por pior que fosse, pudesse ser eliminado. (Santo Tomás de Aquino. Traducción Salvador  Minguijón Adrián.  Barcelona, Editorial Labor, 1930. p.. 141).
 Em forma resumida,Thomas Pègues, dominicano, expõe a doutrina do Santo numa  obra dirigida ao grande público: A Suma Teológica em forma de Catecismo:
-Pode exigir o bem comum que se imponha a um homem a pena de morte?
- Sim,senhor;  porque, bem pode ocorrer o caso em que não haja outro meio eficaz de por termo à arrogância dos criminosos, ou em que a consciência pública exija esta satisfação por alguns crimes odiosos e execráveis.
- Logo, é o crime a única razão que pode invocar a autoridade pública para impor a pena de morte?
- Sim, senhor.
- A razão do bem público, não poderia em algum caso justificar a morte do inocente?
- Não, senhor; porque o bem supremo da sociedade é o bem da virtude.
- É lícito aos particulares matar ao injusto agressor em defesa de suas pessoas ou bens?
- Não, senhor, exceto quando seja necessário parta defender a própria vida e a dos seus, e não haja nenhum outro meio de repelir a agressão; e ainda neste caso, o que se defende não há de ter intenção de tirar a vida alheia, senão de defender a própria.
(São Paulo,Tipografia  Rossolillo, 1941. p. 129).    
Recorramos, agora, à fonte original, à Suma Teológica, na esperança de ali beber água absolutamente cristalina e fresca. Abramos a Secunda-Secundae, isto é,a Segunda Secção da Segunda Parte, Questão 64, artigos 2 e 3.
 São Tomásaborda nelaí as seguintes questões:  a)Será lícito matar os pecadores? b) Será lícito a uma pessoa particular matar um homem pecador?
Os elementos básicos de seu ensinamento são os seguintes:
1. A parte está ordenada para o todo, o imperfeito para o perfeito. Logo, quando se julga que é necessário para a saúde de todo o corpo humano que um membro, apodrecido e que pode infeccionar todo o corpo, seja amputado, tal amputação é louvável e saudável. Ora, cada pessoa humana pode ser equiparada a toda a comunidade, como a parte ao todo. Por conseguinte, caso seja necessário à preservação do bem comum que um membro da comunidade seja executado, a autoridade pode fazê-lo.
2.Primeira objeção: Jesus ensinou que a o joio deve ser poupado até à colheita final, para que o trigo não seja prejudicado. Esse conselho deve ser interpretado assim: pode-se tolerar que os maus não sejam eliminados, se sua morte significar, também, a morte dos bons cidadãos. Quando a morte dos maus não acarreta prejuízo para os bons, os maus podem ser eliminados.
3.Segunda objeção: Deus, às vezes, permite que a vida dos maus se protele, na esperança de que se convertam. Não deve proceder assim a justiça humana? Isso vale para aqueles delinqüentes que, sem prejudicar gravemente os demais, oferecem esperança de conversão. A justiça humana age do mesmo modo.
4. Ao delinqüir, o homem separa-se da ordem da razão, decaindo da dignidade humana - que se fundamenta na liberdade do indivíduo, e na sua autonomia pessoal – e vai na direção da escravidão animal. Pode-se, nesse caso, aplicar a tais homens o dito do Salmista: “O néscio servirá ao sábio”. Portanto, matar um homem que decaiu de sua dignidade pode ser bom, como é matar um animal, uma vez que Aristóteles diz:”Um homem mau é pior do que um animal, e causa maior dano”
(Suma Teológica de Santo Tomas de Aquino.Texto latino de la edición crítica Leonina.Traducción  y  Anotaciones  por una  Comisión de  Padres  Dominicos presidida por el  Excmo. Y Rvdmo. Francisco Barbado Viejo, Obispo de Salamanca.  Tomo VIII. Tratado de la  Justicia. Introducción  por el  Padre Fr. Teófilo Urdáñoz, O.P. Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 1956. p.. 432-435).
Nas notas esclarecedoras, que acrescentou ao texto, o frade dominicano Teófilo Urdáñoz chama a atenção para os seguintes pontos:
A)                  Os  teólogos clássicos tiveram muita dificuldade para legitimar a argumentação tradicional a favor da pena de morte, dado que Duns Scoto, e  seus seguidores, sustentavam  que o mandamento “Não matar” constituía uma proibição absoluta do homicídio. Só uma dispensa formal de Deus poderia autorizá-la, visto que a vida está amparada por um preceito de direito natural. Parece que tal dispensa somente foi autorizada por Deus para crimes de sangue, para os blasfemos  do Antigo Testamento,e em alguns casos excepcionais, como o da morte – que acabou não acontecendo –do filho de Abraão, Isaac, substituído por um carneiro.
B)                  Urdáñoz diz que só negaram a legitimidade da pena de morte algumas correntes liberais e penalistas da Filosofia Moderna, como Beccaria, Bentham, Spedalieri. Outros, como a escola criminalista de Ferri e Lombroso, no âmbito do pensamento positivista e sociologista, também se pronunciaram contra a pena de morte.
C)                  A Teologia Católica aderiu à posição de São Tomás que se resume no seguinte: é lícito à autoridade pública,em virtude do direito natural, infligir a morte aos malfeitores, como pena de seus crimes. Segundo Urdáñoz, o Papa renascentista Leão X a teria “definido” contra Lutero. Tal condenação seria retomada por Pio XII.
D)                  O mesmo comentarista adverte que, à medida que o sentido humanitário contemporâneo se afina, mais repugna à consciência popular certos procedimentos punitivos, a ponto de se reclamar atualmente a abolição da pena de morte, visto que o direito natural  a considera lícita, porém não necessária.
E)                  Segundo Frei Urdáñoz, só se poderia provar a ilicitude intrínseca da pena de morte se isso fosse essencialmente mau, ou seja, se o direito à vida fosse inalienável e consubstancial à dignidade humana. Segundo alguns pensadores, esse direito inalienável à vida pertence exclusivamente ao homem inocente.(Ibidem. p. 421-424).
A argumentação de São Tomás não deixa de impressionar... Impressiona, também, por sua gélida tessitura, que parece elaborada por alguém que, nunca enfrentou, nem imaginativamente, um pelotão de fuzilamento - como foi o caso de Fiodor Dostoievsky. A engenharia do arrazoado funciona, a embalagem do arrazoado é processada a vácuo.
Na minha condição de católico, não sinto, em toda essa argumentação de São Tomás , um único frisson evangélico!
Tentemos, porém, verificar se o pensamento católico, do século XIII até à atualidade, avançou. Consultemos o Novo Catecismo da Igreja Católica – o do Papa João Paulo II – publicado em 1993. Reflitamos sobre o o que aí é apresentado: 
- Preservar o bem comum da sociedade exige que o agressor se prive das possibilidades de prejudicar outrem. A este título, o ensinamento tradicional da Igreja reconheceu como fundamentado o direito e o dever da legítima autoridade pública de infligir penas proporcionais à gravidade dos delitos, sem excluir, em casos de extrema gravidade, a pena de morte. Por razões análogas, os detentores da autoridade têm o direito de repelir pelas armas os agressores da comunidade civil pela qual são responsáveis. A pena tem como primeiro efeito compensar a desordem introduzida pela falta. Quando a pena é voluntariamente aceita pelo culpado, tem valor de expiação. Além disso, a pena tem um valor medicinal, devendo, na medida do possível, contribuir para a correção do culpado. Se os meios não-sangrentos bastarem para defender as vidas humanas contra o agressor e para proteger a ordem pública e a segurança das pessoas, a autoridade se limitará a esses meios, porque correspondem melhor às condições concretas do bem comum e estão mais conformes à dignidade da pessoa humana.
(Catecismo da Igreja Católica. N. 2265-2266. Petrópolis, Editora Vozes, 1993. N. 2265-2266. p.590).
Não se deu um único passo além de São Tomás de Aquino!
Consultemos outro Catecismo, o Catecismo Holandês, conhecido também como “A Fé para Adultos” (“Obra redigida pelo Instituto Catequético Superior de Nijmegen, em colaboração com diversos, e por ordem dos Senhores Bispos da Holanda”).
 Nessa obra , ao menos, faz-se um esforço para pensar à maneira do próprio Tomás de Aquino, de modo a superá-lo – não, talvez, pela força da argumentação propriamente dita, mas pela força da evolução da consciência da Humanidade, que não é mais a mesma da Idade Média.
Nas páginas 489-490 da edição brasileira desse Catecismo (São Paulo, editora Herder, 1972), lemos:
- Existem duas situações em que, desde os tempos mais antigos, é lícito tirar-se a vida de outrem: legítima defesa (inclusive na Guerra) e pena de morte.
Se eu ameaçar voluntariamente a vida de outrem – quando a escolha tem de ser feita entre o agressor e a vítima – então o agredido pode tirar-me a vida. Consoante tal princípio, defende-se também a liceidade de lutar-se na Guerra.
Quanto à pena de morte, os argumentos tradicionais para defendê-la baseiam-se na noção de que a comunidade tem poderes que uma pessoa individual não tem. Tais poderes jamais incluem a permissão de matar pessoas inocentes; mas, sim criminosas. Nessa norma residiria o elemento de retribuição.
Pergunta-se agora: tudo isso é cristão?  É verdade que Cristo não condenou a Guerra, nem a pena de morte em nenhuma de suas palavras. Se o tivesse feito, os Evangelhos no-lo teriam comunicado. Mas isso não significa que Ele as tenha aprovado, e que sejam necessariamente cristãs. O Novo testamento não condenou tampouco a escravidão, nem por isso ela é cristã. Cristo não introduziu mudanças de organização, para as quais a sociedade humana não estava madura, nem moral, nem psíquica, nem organizativamente. Mas comunicou espírito que pudesse promover o processo de maturação. Com todas as nossas forças, devemos colaborar para dar forma sempre melhor à doutrina de Jesus sobre a igualdade de todos perante o Pai, sobre o oferecimento da outra face, o amor do inimigo, e para verificá-la cada vez mais em leis e instituições, mais justas e mais humanas.
A tais palavras segue-se, no mesmo Catecismo, um libelo contra a Guerra. (Ib.p. 490-493).

C) Dez  Flashs sobre São Tomás de Aquino.
1.São Tomás de Aquino merece  imenso respeito, imensa admiração, imenso carinho por parte dos católicos.
2. Ele pode – e deve - ser considerado o mais genial Teólogo do Catolicismo.
3. Foi, às vezes, um grande filósofo, um filósofo importante – como dizia o historiador da filosofia, I. M. Bochenski -  referindo-se a outros filósofos, como Descartes. Tomás é digno de uma leitura atenta.Sua filosofia, porém, não é a única do Catolicismo. Seu conteúdo, método e linguagem precisam ser revisados, ampliados, completados. São Tomás precisa ser confrontado, não com os temas da mente e do imaginário do século XIII, mas com temas da mente e do imaginário do século XXI.  Não dizemos que ele precisa ser atualizado. O de que precisamos é encontrar um novo São Tomás , que se atreva a filosofar, não a partir de Platão e Aristóteles, nem de Agostinho de Hipona e do Pseudo-Dionísio, mas de Darwin, Marx, Freud, Henri Bergson, Edmundo Husserl, Martin Heidegger, Martin Buber, e outros.
4. Principalmente, é preciso evitar erigir a São Tomás de Aquino um Taj Mahal católico.
5. O Santo precisa  ser imitado na sua humildade, na sua modéstia, e sobretudo na sua devoção a Jesus Sacramentado.
6. São Tomás de Aquino deve ser re-lido, para sabermos com precisão o que ele deve ao seu tempo, e o que, nele, resiste ao seu tempo. Não estamos interessados no que ele “possui de eterno”, e sim no que ele possui de uma água límpida que se renova no próprio jorro. As bocas sedentas são outras.
7. A inteligência de São Tomás de Aquino, provavelmente, nos faz menos falta que seu coração.
8. Precisamos, ainda, encontrar um São Tomás mais “callejero”, que se misture com o povo. Ou antes: precisamos que ele converse com a Igreja e com o Povo..
9. O novo São Tomás não será , em hipótese alguma, misógino. Falará com as mulheres, manterá laços de amizade com elas. As mulheres não terão o direito de assediá-lo! São Tomás sempre foi casto, e desejamos que assim se conserve.  
10. Seria maravilhoso se o novo São Tomás tivesse dez vezes mais sensibilidade do que ele teve em vida. Desejamos, porém, que sua lucidez intelectual se mantenha, dentro da ortodoxia católica, tão dramaticamente lógica, em termos de coerência, como foi a de Émile Michel Cioran na sua perseguição às suas essências mais míticas e existenciais  que filosóficas.  
                Sabemos que o São Tomás histórico – o do século XIII – foi, talvez, o único cristão que entrou no Paraíso, e pôde realizar o sonho que Giuseppe Ungaretti, com a sua iluminada manhã terrestre, pensou ter  visto ao escrever seus memoráveis versos:
- M’illumino
 d’immenso
(Em português, aproximadamente):
Ilumino-me
de imenso.

Tomás de Aquino foi grande, foi genial, foi um farol na História da Igreja e da humanidade. Mas a sua pessoa e o seu magnífico legado demonstram  que, em se tratando da fidelidade à mensagem do Evangelho, nós apenas ultrapassamos – se é que a ultrapassamos - a Pré-História do Cristianismo.

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