segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Em defesa de São Tomás de Aquino (I)

I. QUEM TEM MEDO DE TOMÁS DE AQUINO?
Nestas Viagens ao Redor do Catolicismo , referimo-nos, diversas vezes,  à personalidade de São Tomás de Aquino.
Em dois ensaios tentaremos apresentá-lo aos leitores.
Comecemos por afirmar algo insólito: São Tomás dá sempre a impressão de não ter existido.
 O que, no entanto, sempre existiu é uma entidade abstrata, que lhe substituiu o corpo vivo (e até morto), a vaga figuração de um Santo que teve uma vida, mas não uma biografia, ao estilo usual de outros personagens históricos.   
São Tomás é, antes, alguém cujo nome a filosofia e a teologia católica usurparam, colocando seu patrimônio intelectual sob a égide de uma Sociedade Anônima de Filosofia, ou mais particularmente, de uma Sociedade Anônima de Teologia Católica,a melhor e mais poderosa dessas entidades.
Alguns livros recentes procuram centrar-se sobre sua vida real, esforçando-se por remover as camadas arqueológicas, de elogios ou de críticas, que se acumularam sobre seu nome. Mas o que sobra de tangibilidade nessa área é que continuamos a encontrar de tudo nesses livros, menos a “presença” Santo, menos ele, o italiano que teve esse nome. Achamos sua linhagem, seus mestres, suas andanças, alguns episódios curiosos, porém uma cronologia bastante precisa.
Mas ele? A pessoa de  Tomás de Aquino, com suas impressões digitais, sua ficha na polícia, onde está?
Perguntemos , com um certo humor, à Castro Alves:
em que mundo, em que estrela ele se esconde
 embuçado nos céus?
Contamos, porém, com uma âncora: quando os autores se referem à família de São Tomás, nos  surpreendem: dizendo histórico: que ele nasceu!
 Comecemos, então, por esse fato que, para qualquer homem, é o acontecimento decisivo de sua vida.
No Castelo de Roccasecca, a meio caminho da atual autopista que liga Roma a Nápoles, aproximadamente no km 100, apareceu, pelo fim de 1224 ou inícios de 1225, uma criança, a quem foi dado o nome de Tomás.
Na Roccasecca atual só existem ruínas.  
 Não obstante, eis-nos situados, com um ponto de referência geográfico.
Portanto,São Tomás habitou este mundo,foi um DRT humano nascido do esperma de um homem, de um óvulo fecundado de mulher.  
Os esboços histórico-biográficos referentes a ele nos reservam outra surpresa: a importância de alguém ser chamado Aquino. Porque foi dessa prosápia que o Santo derivou. Os Condes , que se orgulhavam de tão honroso título, dominavam uma região, então pertencente ao reino das Duas Sicílias, na Itália meridional.Ali ganhara respeito e obediência o  pai de Tomás ,Landulfo, filho da irmã do Imperador Frederico Barbarroxa - que se tinha casado com o tenente- general desse mesmo Imperador, o Conde de Somacla.
Alguns autores, quase como se tratasse de uma bisbilhotice,informam-nos que Landulfo teria casado duas vezes. Da primeira mulher teria tido três filhos. Discutem se esses rebentos eram “irmãos uterinos de Tomás”, ou filhos de outro Tomás ,Conde de Acerra. Da segunda esposa, Teodora de Teate, da ilustre estirpe napolitana dos Caraccioli, descendente de príncipes normandos que tinham conquistado a Sicília, Landulfo teria tido nove crianças: quatro meninos e cinco meninas.
 O mais velho, Aimon, quando adulto, participou de uma expedição à Terra Santa. Foi aprisionado nessa expedição, porém, algum tempo depois, resgataram-nos, graças, em especial,  à intervenção do papa Gregório IX. O segundo, Renaud (ou Reinaldo), por um tempo partidário de Frederico II, acabou bandeando-se  para o partido do Papa Inocêncio IV, que acabara de excomungar o monarca. Acusado de conspirar contra Frederico II, Renaud foi condenado à morte.
Os nomes das irmãs de Tomás, também,nos são conhecidos:  Marotta, a mais velha, foi superiora de um convento,tendo morrido por volta de 1259; Teodora tornou-se esposa do Conde de São Severino; Maria desposou o mais velho dos Condes de São Severino, Guilherme;  Adalásia casou-se com outro nobre, Rogério de  Áquila.Quanto à quinta irmã do Santo, cujo nome não se sabe,morreu cedo, atingida pelo cólera. O pequeno Tomás, que dormia ao lado de sua ama, foi poupado. (Jean-Pierre Torrell. Iniciação a Santo Tomás de Aquino. Sua Pessoa e Obra .2 ed. São Paulo, Edições Loyola, 1999.p.2-5).
Do exposto infere-se que o Santo estava vinculado às mais ilustres dinastias da Europa: “Não lhe faltou mesmo um elo de parentesco com o grande monarca francês, Luís IX” diz João Ameal.( São Tomaz de Aquino. 3 ed. Porto, Tipografia Sequeira, 1947. p.7).
O primeiro, e mais autorizado biógrafo de São Tomás, Guilherme de Tocco,  diz ter ouvido de Catarina de Morra, sobrinha de São Tomás,a qual por sua vez a ouviu da mãe de São Tomás, a seguinte história: um eremita procurou a ilustre grávida, e disse-lhe: “Nobre senhora, alegrai-vos! Dareis  à luz um filho. Pensareis, de acordo com vosso marido, em consagrá-lo à vida monástica no Monte Cassino, onde descansa o bem-aventurado Bento, na esperança de o ver governar mais tarde essa Abadia, e assim usufruir importantes rendimentos”.
Os desígnios de Deus, porém, não corroboram totalmente a profecia do eremita. Tomás não pertenceu nunca à Ordem Beneditina. Entrará, mais tarde, na Ordem dos Pregadores, fundada por São Domingos de Guzmán.
Frei Buono, o eremita que procurara a mãe de São Tomás, disse algo mais: que o nascituro deveria chamar-se Tomás, nome que significa “abismo”.
Quando criança,Tomás foi surpreendido,certa vez, com uma folha de papel nas mãos. Nesse papel estava escrito: Ave Maria.
Para nós, homens do século XXI, desconfiados das legendas medievais, os mesmos biógrafos de Tomás esclarecem: tais fatos só poderiam ser creditados “à cândida simbólica medieval”. (João Ameal.  Ob. cit.. p. 10-11).
 Por volta dos cinco ou seis anos, Tomás foi oferecido – era costume da época - “como oblato” à Abadia de Monte Cassino. A Abadia abrangia sete dioceses da Apúlia, e era o centro de um apreciável patrimônio senhorial.
Voltemos a insistir num ponto: de documentado, o que se sabe da vida de Tomás de Aquino na Abadia?
Relativamente pouco. O suficiente,diz um autor, para podermos definir o perfil moral de São Tomás.
 Imaginêmo-lo, pois, envolto no hábito negro dos oblatos, ajudando à missa, tomando parte nas procissões e cerimônias litúrgicas dos monges  beneditinos, aprendendo o latim, e habituando-se ao canto comunitário dos Salmos.
Os biógrafos, também, nos dizem que o menino, aos dez anos, já sabia ler e escrever e que, imediatamente, foi iniciado nos elementos da aritmética e da gramática.  Sabe-se que progrediu rapidamente. Aos treze conhecia boa parte do Saltério, dos Evangelhos, das Epístolas de São Paulo, e lia as principais traduções dos Santos Padres, entre as quais os escritos morais de São Gregório, as cartas de São Jerônimo, e os textos mais divulgados de Santo Agostinho.
Mais ou menos nessa altura, um monge, intrigado pelas frequentes “distrações” do adolescente, indagou-lhe:
- Em que estás sempre pensando, Tomás?
 Contraperguntou-lhe o menino:
- Que é Deus?
(Ibid. p. 14).O
Infelizmente... os acontecimentos politicos obrigaram os pais de Tomás a interromper-lhe a vida monástica.
A guerra entre o Papa e o imperador Frederico II reacendeu-se. O imperador, como dissemos, fora excomungado pelo Papa. Vingou-se dele tomando-lhe um dos baluartes, a Abadia de Monte Cassino,e  expulsou daí todos os monges.
Sem muitas opções à vista, Tomás inscreveu-se na Universidade de Nápoles, em cujos bancos começou a assimilar o que de melhor se ensinava em letras e ciências na época.
Nessa mesma ocasião, conheceu uma nova Ordem: a dos Frades Dominicanos,cuja fundação era recente (20 anos antes).
 Em 1243, com o falecimento do pai, Tomás resolveu oficializar seu ingresso na Ordem. Acabara de completar 19 anos.
A Condessa Teodora, mãe de Tomás, porém, desaprovou a resolução do filho. Como este persistia em seu projeto, a Condessa recorreu a um dos filhos, para forçar Tomás a abandonar a companhia dos frades, que já tinham decidido conduzi-lo a Paris ,para que ele ali completasse seus estudos.
 Renaud, com a aprovação do todo-poderoso conselheiro do imperador, Pedro della Vigna, interveio na questão, e sequestrou o irmão. O Superior Geral dos Dominicanos, em cuja companhia Tomás estava viajando, - protestou vivamente contra a flagrante violação de seus direitos eclesiásticos, mas se viu obrigado a entregar o jovem aos seqüestradores.  
 Tomás foi submetido a uma residência forçada de um ano no Castelo de Monte-San Giovanni, pertencente à sua mãe. A família de Tomás não poupou esforços para convencer o rebelde a voltar à vida civil.
Baldados os esforços, ocorreu-lhes um último recurso: seduzir o adolescente. Renaud contratou para isso uma moça, que se apresentou com a nudez ardilosa de uma cortesã. Ou, de acordo com outras fontes ,Renaud simplesmente apelou para uma camponesa de sua criadagem, dotada de um certo sex-appeal.
 A legenda diz que o obstinadoTomás afugentou a moça com um tição aceso.
Diante disso, a família capitulou. Em julho de 1245 Tomás, foi libertado.
(M. D. Chenu. Santo Tomás de Aquino e a Teologia.Ro de Janeiro, Agir Editora, 1967. P.7-9).
Segundo seu documentadíssimo biógrafo atual, Jean-Pierre Torrell, foi a própria mãe de Tomás quem o reconduziu ao Convento dos Dominicanos, em Nápoles. Ali o Santo, sempre na companhia do Superior Geral da Ordem, João, o Teutônico, retomou a viagem à Alemanha, onde deveria estudar com Alberto de Bollstädt, o sábio que se tornaria o famoso Santo Alberto Magno.  Roger Bacon chamava Alberto de Primus Magister de Philosophia  (o maior entre os mestres do pensamento escolástico da época).(João Ameal. Ib. p. 47).
A partir de então,a vida de São Tomás transforma-se num imponente rio silencioso, cujas águas fluirão por entre as margens bem definidas da Filosofia e da Teologia.
A título de curiosidade, registremos que, já nessa época, o Santo foi cognominado Boi Mudo da Sicília, devido à sua índole taciturna.
Após vários anos de estudos sob a direção de Santo Alberto, primeiramente em Paris ( de 1245 a 1248), depois em Colônia, na Alemanha ( de 1248 a 1252), SãoTomás regressou a Paris, a fim de obter, nesse prestigioso centro universitário , os três graus exigidos para  o magistério universitário: o grau de bacharel bíblico, o grau de bacharel sentenciário (isto é, de comentador do Livro das Sentenças , de Pedro Lombardo) , e o grau de baccalarius formatus, ou seja, de mestre formado.
Seus cursos, desde o primeiro deles, atraíram-lhe numerosos alunos. O jovem professor contava apenas 27 anos. Seu brilhantismo ofuscou o dos colegas que, enciumados, não lhe perdoaram as vitórias nos torneios dialéticos em voga.
Em 1256, o jovem professor recebeu, das mãos do Chanceler de Notre-Dame, a “permissão para ensinar”.  Foi inscrito, imediatamente, no Colégio dos Professores de Paris. No ano seguinte, obteve o grau de Mestre.
 Tomás completara 32 anos, três a menos da idade requerida para o cargo. Em época recente descobriram-se os apontamentos da lição inaugural que São Tomás proferiu em ao ser promovido ao cargo de Mestre.
(M.-D. Chenu. Santo Tomás de Aquino e a Teologia.p. 87-88).
Até à morte, ocorrida em 1274, aos 49 anos de idade,o grande Doutor , foi prioritariamente professor.
Sintetizemos-lhes as grandes etapas de sua trajetória:
A)                de 1259 a 1268, exerce suas atividades em centros italianos.
B)                De 1259 a 1261, incumbe-se de uma espécie de assessoria intelectual (filosófico-teológica) junto ao Papa Alexandre IV, residente em Anagni.
C)                 De 1261 a 1265, reside em Orvieto, para onde se havia transferido Urbano IV, o novo Pontífice.
D)                O sucessor deste, Clemente IV, desejando demonstrar o apreço que tinha pelo seu assessor,pensa em  elevá-lo à função de Arcebispo  de Nápoles. Sentindo-se apenas um humilde frade,Tomás recusa a honraria.
E)                 Em setembro de1265, o Capítulo Provincial celebrado em Anagni, ordena a Tomás que se fixe em Roma, confiando-lhe a tarefa de fundar nessa cidade um  Studium, isto é, um Centro de Estudos para a formação de frades, escolhidos em diversos conventos da Província Romana.
F)                 Por sua vez, o Papa Clemente IV decide convocá-lo à sua corte, em Viterbo. O Santo acompanha o Papa, e permanece junto dele, do outono de 1267 a Novembro de 1268.
Nesta altura,convém registrar um fato importante: já em 1258, Tomás principiara a redigir sua catedral intelectual, a Suma teológica, concebida, na verdade, como uma introdução à Teologia  de “iniciantes”, que se embaraçavam com questões dispensáveis, e com artigos e provas cuja coerência eram incapazes de perceber. Numa palavra, Tomás desejava fornecer-lhes um itinerário da mente para Deus. Seu colega, São Boaventura, mais tarde,o faria, em outro estilo, e com outra abordagem.
Torrell constata  que “a obra-prima de Tomás não atingiu diretamente um grande público”.(Iniciação a Santo Tomás de Aquino. p. 186).
Outra surpresa para nós: a Suma nunca foi finalizada.
Para dar-lhe uma espécie de “arredondamento”, seu fiel secretário, Frei Reginaldo de Piperno se encarregou de adicionar-lhe um Suplemento.
Em 1269, quando do Capítulo Geral da Ordem Dominicana,Tomás retornou a Paris. 
Por esse tempo, às margens do Sena, travava-se acirrado debate - desta vez entre São Boaventura, de um lado, e do outro um grupo de teólogos do clero secular, liderados por Siger de Brabante. No meio dessas ferozes discussões, alguns franciscanos aderiram ao partido contrário a São Tomás. Seus adversários, entre os quais sobressaía um confrade seu, o inglês John Peckham, não conseguiram, porém, abalar-lhe a serenidade. Tomás, por outro lado, recebeu um apoio decisivo, o de seu antigo mestre, Alberto Magno.
                As controvérsias prolongaram-se durante os anos 1270 -1272.
                No fim de desse último ano, o Santo foi chamado a Nápoles, cidade onde residirá até 1273.
Na Capela de São Nicolau, do convento dominicano dessa cidade, os biógrafos localizam o milagre da aparição de Cristo Crucificado ao seu discípulo.
                - Escreveste bem a meu respeito, Tomás! O que desejas de mim em recompensa?
                 -Nada mais que vós, meu Senhor! –responde o Santo.         
Outro episódio marcante teria ocorrido nesse convento.
Tomás confidencia a Frei Reginaldo que não consegue mais prosseguir na elaboração da Suma ( estava na Tertia Pars).
Frei Reginaldo admira-se:
 - Abandonais, caro Mestre, uma obra tão vasta, que estais realizando para a glória de Deus e iluminação do mundo?
Replica-lhe Tomás:
-Não tenho mais condições para continuar a escrever...Tudo o que escrevi me parece palha!
(Otto Hermann Pesch. Tomás de Aquino. Límite  y Grandeza de uma teologia Medieval. Barcelona, Editorial Herder 1982.p. 64;João Ameal. São Tomaz de Aquino. p. 146-147; Jean-Pierre Torrell. Iniciação a Santo Tomás de Aquino.p. 339).
O Papa, que queria Tomás presente na abertura do Concílio Ecumênico de Lyon, convoca-o mais uma vez. O Santo encaminha-se a essa cidade.  A meio caminho, é acometido por uma doença grave. Levam-no para o Castelo de Maenza, propriedade do Conde Aníbal de Ceccano, casado com Francisca de Aquino, sobrinha do Santo.
Nesse Castelo o Santo perde  completamente as forças. Está sem apetite algum. Manifesta o desejo de ir para um convento de religiosos, não muito distante do Castelo de sua sobrinha, o Mosteiro Cisterciense de Fossanova.
 O Abade desse Mosterio, Frei Nicolau , acolhe-o fraternalmente, e sente-se honrado em oferecer sua cela ao ilustre hóspede.
Vendo aproximar –se a agonia, São Tomás pede que lhe dêem a derradeira comunhão. Ao comungar, murmura:
- Recebo-te, preço da redenção de minha alma, manjar de minha peregrinação! Por amor de ti estudei, realizei vigílias, sofri, preguei, ensinei. Jamais disse algo contra ti, e se o fiz foi por ignorância, e não insisto no meu erro. Se acaso ensinei mal a respeito desse sacramento ou de outros, submeto-me ao julgamento da Santa Igreja Romana, em obediência à qual me despeço desta vida.
(Jean-Pierre Torrell. Ob. cit. p.343;João Ameal. Ibid. p. 154;Otto Hermann Pesch. Tomás de Aquino. Lìmiter y Grandeza de uma Teología Medieval.p. 54).
No dia  7 de março de 1274, São Tomás expira.
É doloroso ter de inserir aqui uma nota histórica complementar: seus inimigos aguardavam essa ocasião para deflagrarem uma violenta campanha contra os ensinamentos filosóficos e teológicos do Santo.
                Antes, porém, de tão desairosa investida, prestaram-lhe astutamente uma homenagem.  O Reitor da Universidade, os Procuradores e Mestres da Faculdade das Artes remeteram um panegírico ao Capítulo Geral da Ordem dos Dominicanos, reunido em Lyon. Nesse documento consideraram São Tomás  um “luminar máximo que preside ao pleno meio-dia, iluminando a Igreja com seus raios”.
Solicitaram ao Capítulo que os honrasse, enviando-lhes seus restos mortais. Depois, aguardaram uma ocasião favorável a um novo ataque.
No terceiro aniversário da morte de São Tomás, sentiram-se com suficientes armas para empreenderem a batalha final.
 Primeiramente, o Bispo de Paris, Étienne Tempier emitiu um documento , no qual condenou 219 proposições doutrinárias, ensinadas  também por outros mestres de Paris. No elenco imncluiram cinco teses  errôneas de São Tomás.
 Onze dias após essa condenação, o Arcebispo de Cantorbery, Robert Kilwardy, lançou nova bomba em apoio à primeira. Listou, no novo documento, outros “erros” de São Tomás.
 Finalmente, por volta de 1279, um enraivecido frade franciscano, Guilherme de La Mare, foi mais contundente: publicou um manifesto com o título provocador de: Correctorium Fratris Thomae ( Corretório, ou Livro das Correções a serem introduzidas nas obras do Irmão Tomás!). Nesse libelo denunciava 118 pontos fundamentais da Suma Teológica.
Não nos estenderemos mais sobre esse imbróglio clerical!
Resumamos a série de fatos que se sucederam às condenações anteriores:  após inúmeros vaivens, bate-bocas um tanto ridículos,novas escaramuças  e combates renhidos, o grande Alberto Magno, ex-Mestre de Tomás, então com 71 anos, retornou a Paris, e resolveu intervir  na rixa, disposto a pelejar pelo ex-aluno.
 Reuniu, para isso, os antigos colegas da Universidade, subiu à cátedra dos Pregadores,  e lançou em rosto aos adversários de São Tomás  este terrível repto:
                - Que louvores haverá para aquele que vive, se os próprios mortos o elogiam?
                Alberto considerava mortos os adversários de São Tomás!
                (João Ameal. São Tomaz de Aquino.p. 167).
                Uma vez que a Igreja estava, provisoriamente, privada de seu Chefe, dado que o Papa João XXI  falecera, ninguém em Roma  julgava-se em condições de arbitrar questão tão relevante. O Sacro Colégio dos Cardeais limitou-se-a pedir prudência.
Porém os ânimos voltaram a inflamar-se!   
1323 – repare-se nessa data! –a procela amainou: nessa data o Papa João XXII publicou a Bula de Canonização de São Tomás, em cujo texto fez um elogio circunstanciado das virtudes do grande Doutor. João XXI I declarou, inclusive, nessa bula, que a doutrina de São Tomás, não só estava isenta de erros, como não podia ser entendida sem uma intervenção especial de Deus.
Meses após essa Bula, o novo Bispo de Paris, Étienne Bourret cancelou todas as interdições de seu antecessor, Étienne Tempier, sobre São Tomás.
Tomás de Aquino passou a ser considerado o maior teólogo da Igreja Católica.
Sua consagração máxima, contudo, havia de esperar o ano de 1567, quando o Papa Pio V declarou Tomás de Aquino Doutor da Igreja, atribuindo-lhe o título de Angélico.
Finalmente, em junho de 1923, com a Encíclica Studiorum Ducem, Pio XI guindou Tomás a alturas ainda maiores:
- Aprovamos, proclamou o Pontífice, tanto os louvores concedidos a esse gênio divino que pensamos que Tomás merece ser chamado não só Doutor Angélico, mas  Doutor Comum ou Universal da Igreja, uma vez que a Igreja fez sua a doutrina desse Santo, como o atestam documentos de toda a espécie”.
 Pio XI rematou sua Encíclica com uma frase de impacto:
- A todos que andam à procura da verdade dizemos: ide a Tomás!
(Cit. por João. Ameal. Ib. p. 228).



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