sábado, 26 de fevereiro de 2011

Conheci um grande escritor: Gustavo Corção.

                 
                      I. Um debate tempestuoso sobre Teilhard de Chardin.
Mil (e um) brasileiros já disseram, mas não é demais redizer o que é considerado uma verdade - até pelos brasileiros que não nasceram: somos um povo sem memória. Um povo-nescafé, de memória instantânea. Deita-se uma colherinha na xícara, o café é misturado à água ou ao leite, bebe-se o café, pronto. Não existe mais nada.
Já que me dispus a falar sobre um grande escritor, que era, também, um católico de fibra, posto fosse um indivíduo “fanatizado” por suas próprias verdades...ilustremos a falta de memória nacional com um incidente ocorrido com o próprio escritor, e descrito por ele, com insuperável humor, no livro Fronteiras da Técnica (Rio de Janeiro, Editora Agir, 1963. P. 86):
-Num depoimento já antigo tive ocasião de descrever, num capítulo que intitulei “O meu próprio cadáver”, esse microcosmo fechado onde o técnico se inebria de realizações. Contei, como vivendo entre fios, válvulas e galvanômetros, achei-me num certo dia sem saber o nome do Presidente da República. Apesar de inverossímil, isto aconteceu. Uma tarde, não sei como veio-me a dúvida cívica no meio de uma experiência. Larguei no descanso o ferro de soldar e entrei em casa, quase correndo, para perguntar à primeira pessoa que encontrasse – e que no caso foi um cozinheiro chinês – quem era o Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil.
Advirtamos: se Corção tivesse vivido na nossa última década, não teria esquecido o nome do nosso mais recente Presidente! Não que eu ache Lula digno de ser esquecido, embora a maioria de seus colegas dificilmente obtenham, anos afora, recordações estáveis! O caso é que Lula nasceu – não com o lunar bendito de Sepé, o São Sepé dos gaúchos, mas com o lunar nordestino, que pode ser considerado como um carisma cristão. O carisma de Lula foi o da verdadeira popularidade e, também, o da arte difícil, complexissima, que os nordestinos em geral possuem, a de serem os  melhores  marqueteiros de si próprios. Estou citando, é claro. Não me exijam o nome do amigo que me disse isso, porque lhe prometi, sob juramento, que jamais o revelaria, mesmo que fosse intimado a tal revelação por Sua Santidade, o Papa Bento XVI.
 É provável que a afirmação do meu sagacíssimo sociólogo amador não seja verdadeira! Consultando, com efeito, a opinião de outros amigos, fui acumulando exemplos de idêntica marqueteria em todo o território nacional. Para dar alguns exemplos: em São Paulo ( Paulo Maluf, José Dirceu, Quercia); em Minas Gerais (lembram-se do simpático e ágil mediador entre os Bancos e os Mensaleiros da Câmara Federal?); na Bahia (poderá alguém esquecer a deliciosa água de coco da nobre Bahia, e seu velho cacique ACM?). Creio que existem marqueteiros  no Acre, e na Ilha de Marajó, ainda que esta ilha não seja Estado,e que nela habitem, prioritariamente, magníficos búfalos.
Dir-me-ão os  leitores: mas o Corção, esqueceu-o?
Vamos a ele!
 Foi em 10 de julho de 1963. Lembro a data por um simples acaso: a dedicatória que o escritor dignou-se caligrafar (a letra dele era bonita!) sobre um exemplar do livro citado. Ela ainda está lá, na sua esplêndida e afetuosa legibilidade. Uma espécie de lema para minha vida de escritor:
- Ao A.T. em lembrança de uma conversa animada pelo amor da verdade.
                Pelo amor da verdade!
Sim, tinhas razão, querido e venerado amigo! Estávamos, então, realmente animados pelo amor da verdade. Só que esse amor se encontrava na penosa situação de uma boneca de pano disputada por duas irmãs em briga.  
Nossa discussão não foi um debate, foi uma discussão. Recheada de socos imaginários, de canelaços filosóficos, de tapas  emotivos. Irritadíssimo, porque eu defendia, com unhas e dentes, o famoso paleontólogo e visionário jesuíta, P.Teilhard de Chardin, o grande Corção perdeu as estribeiras. Desconcertado, não menos que ele, eu brigava como um guri enfurecido, porque o escritor não me abria, nem sequer o postigo de uma janela de sua casa, para que eu pudesse jogar-lhe no assoalho da  casa uma página, um trecho comovedor que fosse do livro de Teilhard.
 Não me recordo, até, se à falta de outros argumentos não recorremos à foice, à gadanha, e outros instrumentos agrícolas cortantes... Foi uma briga de favela, em que dois católicos, ajustados previamente sob um pacto de luta incruenta, se digladiavam no campo das idéias. Briga feia.
No fim, exaustos como dois cachorros em dúvida sobre o vencedor da disputa, cada um  foi para um lado, rosnando com o seu osso. ficamos a nos olhar quase de soslaio...
À distância de 48 anos incompletos, rememoro essa não-memorável cena! E me arrependo. Sim, me arrependo, retroativamente, da minha pseudo-segurança, de ter esbanjado tanta adrenalina por tão pouca percentagem de massa cerevral...Se tivesse sobrado um vídeo desse debate moleque, aplicar-lhe-ia, hoje, o furor de uma tesoura.
Naquela época, municiado pela emoção, eu exibia certezas que já não tenho. Não que eu tenha mudado de opinião – entendam-me - a respeito da obra de Teilhard, O Fenômeno Humano, livro que tive a gentil ousadia de oferecer aonosso excepcional poeta, Carlos Drummond de Andrade, que se declarava ateu, ou antes, como ele me explicou,que era agnóstico.
O livro de Teilhard continua bom, embora não seja lido hoje a não ser por retardatário de um século tão veloz e fútil como o nosso. O problema é basicamente outro: no momento da discussão, eu não sabia que a verdade - qualquer verdade humana nanica - que caminha à sombra daverdadeira Verdade, a que se dignou nascer de uma Virgem, sempre fala baixo. Fala desculpando-se de ter razão. Fala com a doce e transparente  segurança da pedra e da água, que não precisam auto-afirmar-se  para serem o que são: dois elementos fundamentais para a vida dos homens. Inclusive a pedra, que iria tornar-se, mais tarde, a pedra do Pedro das chaves de Cristo.
 Ensinado pela vida, preocupo-me hoje em não cair (a advertência primeira foi de Machado de Assis), não só das nuvens, mas até do primeiro andar do edifício onde moro. Aprendi, refletindo sobre a malograda discussão com o Corção, que toda humildade é pouca. A minha, quando por acaso existe, a surpreendo sempre, para minha vergonha, encolhida como um gato, no mais  vazio de minha alma...
Voltemos a Corção: à distância de 48 anos incompletos, sorrio de minha...insensatez!
Digo de mim para mim:
- Diante de uma personalidade como Gustavo Corção, eu deveria ter ficado calado,caladíssimo, mesmo sabendo que ele não tinha razão em tudo. Talvez tivesse  aénas 1/3 de razão.! Mas ele era Corção, e tinha um mundo para me dizer.
Repito: nossa briga foi feia.
Chegou um momento em que, constrangidíssimo, tive de informar-lhe que eu precisava voltar à casa do casal de amigos que me hospedavam no Rio de Janeiro.
Corção, após indagar pelo endereço de meus amigos, observou, com súbita e viril doçura:
-Terei muito prazer em levá-lo até lá!
Protestei, dizendo-lhe que apanharia um táxi, que...
O escritor manteve-se irredutível. Daí a minutos, dirigiu-se à garagem, tirou o carro de dentro dela... um fusca! Sim, o carro dele era um fusca, de segunda mão.
 Convidou-me a sentar ao seu lado, e lá nos mergulhamos no inferno enlouquecido dos decibéis do Rio, o Rio daquelas eras, que ainda era – convenhamos - o dos bons selvagens de Rousseau.
A viagem até à residência de meus amigos foi noutro tom: o de irmãos apaziguados. Corção dirigia com perícia, talvez com excessiva velocidade para um matuto de Santa Maria da Boca do Monte.         
Depois chegou a hora da despedida...
Caros amigos, adivinhem como foi!
 Eu não devia contar nada. Mas conto. Para a glória de meu saudoso amigo!  A discrição reservar-me-ia momentos de maior saboreio para a memória, já que a guardei durante anos só para mim. Afinal, a memória estava na adega dos bons vinhos, dos que costumam envelhecer no silêncio e na penumbra das cantinas, guardando, porém, o aroma dos vinhedos ao sol.
Sem dizer água vai, o escritor desceu, abraçou-me, com aquele abraço sem subentendidos dos irmãos de sangue que se amam com sangue e alma, mesmoquando brigam com certa  frequ}ência, e se desentewndem em política, e me disse, com acento de inegável grandeza:
- Sou um  chato... Às vezes, me empolgo, e dá nisso. Esqueça, esqueça, Trevisan! O principal é que somos irmãos na fé! Não esqueça: é o que importa!   
Abraçou-me, outra vez, subiu no fusca, e sumiu no sempre enlouquecido trânsito do Rio de Janeiro.
II.       Quem foi Gustavo Corção?
 Abro a História Concisa da Literatura Brasileira, escrita por um amigo que admiro sem restrições, o  ex-Professor da USP, Alfredo Bosi.  Minha edição é a segunda, sexta impressão (São Paulo, Editora Cultrix, 1976). Corro os olhos pelo “Índice de Nomes” da obra, que já li no mínimo três vezes,  pela simples razão de considerá-la a melhor história da literatura nacional em termos didáticos, e, repensando o caso, em termos também não-didáticos.
 Concisa? Nada mais exato. E de uma precisão de fuzil telemétrico! Uma história admirável pela quantidade de informações, pela clareza de critérios, pela finesse dos juízos críticos, pela radioatividade permanente da sensibilidade estética que subjaz a tudo, impedindo o autor de incidir na caipirice de donos de mercearias literárias de arrabalde.Uma história de dar inveja aos autores franceses – os melhores - do gênero, como um Philippe Van Tieghem, autor da História da Literatura Francesa, que meu querido ex-mestre português, Jacinto do Prado Coelho verteu para o português.(Lisboa, Estúdios Cor, 1955).
 Pois bem: que desagradável surpresa que me reservou o tal “Índice”?
Não figura nele o nome de Gustavo Corção!
Lá aparecem, por exemplo, Peregrino Júnior, Osvaldo Orico, Raimundo de Morais, Dalcídio Jurandir, Herberto Sales (bom amigo me deu estímulo nos primórdio de minha carreira de escritor), Amando Fontes, José Condé, João Clímaco Bezerra, Permínio Ásfora, Lourdes Teixeira, Darci Azambuja – o do Pampa (contista de No Galpão),Ciro Martins (obrigatório para quem quiser saborear a melhor literatura regional – e universal – do Rio Grande do Sul, com sua Trilogia do Gaúcho a Pé).
Não preciso dizer que o Prof. Alfredo Bosi não esqueceu nenhum de nossos clássicos: Erico Verissimo, Dionélio Machado, Ivã Pedro Martins. Agora, uma surpresa: lá, também,encontrei, dormindo provavelmente sua sesta debaixo de um guarda-sol praiano, o catarinense Guido Wilmar Sassi, romancista e contista nascido que desconheço. Talvez ele seja um bom, um grande escritor! A informação sobre sua condição de romancista, e contista, eu a catei na Enciclopédia de Literatura Brasileira (Volume I, sob a direção de Afrânio Coutinho e J. Galante de Souza. 2 ed. São Paulo, Global Editora,2001. p. 1464).
Para evitar malentendidos, esclareço: não implico com nenhuma presença - das incluídas pelo Professor Bosi na sua História; implico, porém - e muito! - com uma ausência: a de Gustavo Corção.
 Faço questão de informar que, neste momento, a História Concisa do Prof. Bosi já está na sua qüinquagésima edição nacional.
Parabéns ao Brasil!
Depois de abeberar-me, portanto nas fontes cristalinas do docente universitário da USP, apelei para as luzes da scholar italiana, Luciana Stegagno-Picchio, recentemente falecida.
 Tive o privilégio de conhecer, em Roma, essa grande Dama da História da Literatura Portuguesa e Brasileira. Mulher amável, lúcida, de uma erudição espantosa. Incrível a acuidade crítica dessa mulher, sua capacidade de enfiar a linha no buraco mais fino de uma agulha...
Perdoem-me, leitores, é que me lembrei, inoportunamente sem dúvida, do conto de Machado de Assis, o famoso Um Apólogo, com aquela birra engraçada entre a agulha e a linha...a qual linha, humilhada, acabou indo ao baile no corpo da baronesa,ao passo que a agulha orgulhosa foi para a caixinha da costureira...
Não me privo de assestar um pouco mais os holofotes na Professora Luciana: ela foi colaboradora de Roman Jakobson,grande amiga de Murilo Mendes, escreveu mais de quatrocentos ensaios ou artigos, em sua maior parte dedicados às literaturas de língua portuguesa, traduziu Fogo Morto de José Lins do Rego para o italiano, foi convidada, pelos coordenadores da conhecidíssima coleção Que sais-je das Presses Universitaires de France para compor o volume La Littérature Brésilienne (1981).  
 Folheio a obra magistral da Professora Luciana, indispensável em qualquer biblioteca brasileira que se preze, a História da literatura Brasileira (Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 1997). Pois bem, esbarro em apenas três citações do autor de Lições de Abismo: na primeira,Corção é lembrado no rabinho de uma frase:  “até os metropolitanos Gustavo Corção e Nelson Rodigues, unidos pela mesma paixão reacionária.”(p. 543). Na segunda, emerge a cabecinha de um elogio: “O romance de ambiente urbano, além da isolada, patética introspecção do carioca Gustavo Corção (1896-1978), tem os seus expoentes mais interessantes no paraibano Ascendino Leite, no carioca Macedo Miranda, e no mineiro Geraldo França de Lima, atentos observadores da vida nas cidades do interior”(p. 633). A terceira citação é uma nota biográfica, do tamanho de uma cenourinha...(p. 666).
 Fiquei arrasado!
 Como? Então um escritor do gabarito de Gustavo Corção, um dos maiores estilistas da língua, romancista e ensaísta original, traduzido na Holanda, na Alemanha, na Inglaterra, na Espanha, na Itália, é aviltado assim pelo ensino universitário?
Cheguei à conclusão de que é mau destino ser escritor no Brasil! Melhor ser político, executivo, cartola, jogador de futebol, cangaceiro - como Lampião - na pior das hipóteses, rinoceronte de zoológico. Há muitos brasileiros que ainda não esqueceram Cacareco! Ele mereceu uma crônica de Manuel Bandeira, incluída na coletânea Andorinha, Andorinha (2 ed. Rio de janeiro, José Olympio, 1986. p.360).
Por falar em... Manuel Bandeira!
Quanto te deve a cultura nacional, ó Poeta! Tu sempre nos salvas, em qualquer circunstância, tu que, com teus Sapos, da coletânea de poemas  de 1919, nunca coaxaste em nenhum charco, mesmo nos  mais cultos, evoluídos e suntuosos da literatice nacional.  Nunca te enfeudaste nem à  Direita, nem à  Esquerda. Só isso explica que tenhas tido a coragem de escrever uma Carta a Mestre Corção, que publicaste no teu Andorinha, Andorinha (p. 11). Gostaria de transcrevê-la na íntegra, para regalo dos leitores. Ali, com fidalguia superior, te penitencias de não ter incluído, na quinta edição de tuas Noções de História das literaturas, uma análise, mesmo sumparia, de Gustavo Corção.
Modesto Manuel! Genial Manuel!
Confessas:
- A princípio não quis acreditar. Procurei tranqüilizar-me pensando comigo que a omissão se teria verificado no índice onomástico. Folheei nervosamente as páginas consagradas à nossa literatura contemporânea: tanto nome encarreirado, um que outro bem dispensável. Deus me perdoe, alguns nomes que nada ou pouco admiro, mas que são admirados por muita gente, até uns tantos meus rancorosos desafetos, este ou aquele rapaz de talento promissor ainda em estado larvar...e você ausente! Você, a quem tanto admiro, estimo e respeito desde que li Lições de Abismo, você que em seus artigos de jornal, sempre tão vibrantes de idéias e sentimentos, me tem tratado mais de uma vez com cativante generosidade... Estou envergonhado, estou desesperado, estou verdadeiramente de cara no chão...(...) A ausência de seu nome no meu livro será o meu remorso de todos os dias.(Ibid. p. 11-12).
Em 1978, um grupo amigos, liderados por Paulo Rodrigues, resolveu enfeixar numa coletânea uma série de artigos do Mestre, a que deram o belo título de Conversa em Sol Menor (Rio de Janeiro, Editora Agir, 1980). Nessa coletânea tive a sorte de encontrar uma crônica que Oswald de Andrade publicou no carioca Correio da Manhã, intitulada: “Telefonema – Corção”.
Leiamos, pois, Oswald de Andrade que de algum modo indeniza Gustavo Corção da altivez e indiferença de nossos estudiosos:
- Não me lembro de em toda a minha vida ter conhecido, entre artistas e literatos, uma figura tão impressionante como a de Gustavo Corção. Privei com Inglês de Souza que era meu tio, conheci de perto João Ribeiro, Alberto de Oliveira e o nobre Emílio de Menezes. Fui íntimo de Villa-Lobos e Mário de Andrade. Na Europa me liguei a Picasso e Léger, Cocteau e Cendrars, a esse orignal e magnífico Valéry Larbaux, a Supervielle e Romain, enfim a toda uma geração revolucionária do começo do século. E apenas com outro tom, mas com doçura sarcástica, alguém, que me lembrou o autor excelso de Lições de Abismo. Era um velho de 70 anos e tinha sido cruelmente abandonado por todos os seus amigos, quando o encontrei no Quartier Latin. Chamou-se Erik Satie. E talvez venha a ser um dia considerado o maior gênio musical do século XX. O que caracteriza essas naturezas que vão do doce ao amargo sem contraste é o que nelas há de inquebrável. Gustavo Corção é um inquebrável – faca de dois gumes. E isso muito se liga a virtudes intelectuais que o fazem sem dúvida o nosso maior romancista vivo. Nas Lições de Abismo como também em A Descoberta do Outro não vejo concessões. O que vejo é uma extraordinária e lúcida natureza de criador, ou melhor de restituidor, pois que arte é restituição. Depois de Machado de Assis aparece agora um mestre do romance brasileiro”.(Ib. p. 137-138. Os negritos são nossos).
                Concordo com Manuel Bandeira e Oswald de Andrade em tudo o que eles escreveram a respeito de Gustavo Corção.
 É inaceitável num país como o nosso que não tenhamos ainda aprendido a separar as opções ideológicas do legado artístico. Trata-se de dois hemisférios, que com certa freqüência se repelem. Que tem a ver com a arte de Wagner o seu nojento antisemitismo? Que tem a ver com a verve de Nelson Rodrigues o seu efervescente e antipático reacionarismo? E o reacionarismo de Jorge Luís Borges, que lhe nocauteou, provavelmente, o Prêmio Nobel? Deixaremos de ler escritores esquerdistas por serem esquerdistas? Deixaremos de ler os ateus ou agnósticos, por serem o que são?
Continuo, como católico, a apreciar Voltaire, e tenho por alguns  agnósticos paixão especial. Aprecio, por exmplo, Émile Michel Cioran, embora lhe rejeite a cosmovisão, Considero-a. até, supervalorizada, no que se refere à sua qualidade puramente filosófica. Mas que expressão literária, que  humor corrosivo e oblíquo, que desmontagem milimétrica, sem outro exemplo que se lhe compare na literatura contemporânea, da presunção humana, de suas ilusões, das opulências de vento da vaidade dos homens! É de deixar atônito qualquer leitor internacional.   
A realidade é que há enxames de católicos chatíssimos, de ateus e agnósticos chatíssimos,de e esquerdistas e direitistas mais chatos ainda!
                A arte literária não depende só, nem principalmente, da mensagem do autor! O conteúdo da mensagem pessoal situa-se noutro patamar. O autor, como escritor, deve ser avaliado pelo que soube fazer com a linguagem, e com a memória e o imaginário do idioma a que pertence. Numa palavra: pelo seu estilo. Dizia Buffon: Le style est l’homme même.( O estilo é o homem).
Este pode ser maravilhoso, ou chinfrim. A poesia de Dante não depende, essencialmente, de sua mensagem cristã. Para sorte do catolicismo, Dante foi um grandíssimo Poeta –talvez  o Maior que já houve. Já imaginaram um Dante, que carregasse nas costas toda aquela filosofia e teologia , sem perfumá-la com sua altíssima poesia?  Seria o Chato-Maior. Agradeçamos a Deus não só sua filosofia e teologia, aprendida nas escolas de Firenze, mas seu gênio poético, que não foi obra só de seus mestres,  mas incompreensível dom de Deus!
                Digamos, agora, sem mastigar as palavras: Gustavo Corção foi, e continua a ser, detestadíssimo pela Esquerda brasileira.
 De resto, fez por merecer essa raiva.
Não faz muito, por ocasião de uma Feira de Livro interiorana, da qual eu era Patrono, perdi um peixe maravilhoso, especialidade do restaurante local, por ter, lá pelas tantas, recordado uma historiazinha de Corção... Santo Deus! Um dos convivas, do grupo oficial que me oferecia o jantar, esquerdista ressentido, roubou-me o jantar. Perdi o peixe...creio que uma traíra à moda da casa, o sono na noite que se lhe seguiu, e minha esperança de que a Esquerda Brasileira se despeça algum dia de sua incurável soberba...  
Pensemos na exclamação de Manuel Bandeira, após uma discussão sobre cinema, na qual o próprio poeta se portou, segundo sua confissão, “como um quadrúpede”:
-  Brasileiro não sabe discutir.
 (Seleta de Prosa. Quinta impressão. Org. de Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1997. p. 246).

III.                Descubramos um Grande Escritor!
                Espécie de guerreiro do pensamento cristão, enfurecido polemista católico, Corção “faleceu no dia 6 de julho de 1978, em sua casa no Cosme Velho. Morreu dormindo suavemente, de olhos e boca fechados”.
É assim que um amigo íntimo do escritor descreve o passamento do escritor.
Alegro-me que Deus lhe tenha concedido tal graça. No fundo, Corção era uma flor de cacto que teimava em valorizar os endiabrados espinhos que a cingiam. Uma alma nobre, de sensibilidade excepcional, um pássaro, nascido para cantar, mas que teimava em usar o bico para bicar o que quer que fosse.
Isso diz respeito, porém, apenas ao seu temperamento.
A sua trajetória pessoal é curiosa. Nasceu dentro de um colégio, o de sua família. Filho de professores, cursou a Escola Nacional de Engenharia, diplomando-se em 1920. A seguir, foi trabalhar em Mato Grosso, na bacia do Rio Paraná, onde fez levantamentos de solo e astronomia de campo. Regressando ao Rio, na sua condição de engenheiro, dirigiu empresas de energia elétrica no Rio de Janeiro e Espírito Santo. Posteriormente, tornou-se Professor da escola Técnica do Exército e da Escola Nacional de Engenharia, no setor de Telecomunicações.
Segundo o editor de Corção, o escritou registrou os seguintes inventos: um órgão musical eletrônico; dispositivos especiais para repetidores telefônicos; um sistema de telegrafia multiplex com frequências combinadas.
Já maduro, o engenheiro enveredou para a literatura. Aliás, o ofício de escrever apareceu nele, também, como uma exigência de sua conversão ao catolicismo. Materialista até os quarenta anos de idade, entrou em crise, em 1936, ao perder sua primeira esposa. Esse período marcou sua aproximação com a Igreja. Conheceu, então, as obras dos grandes pensadores e teólogos católicos, entre os quais Gilbert K.Chesterton, Jacques  Maritain, Karl Adam, Léon Bloy, George Bernanos, Romano Guardini, Dom Columba Marmion. Freqüentou os religiosos do Mosteiro de São bento, e em 1939, aderiu definitivamente ao catolicismo. Daí por diante, alternou sua vida de engenheiro com sua militância literária, que resultou em ensaios, num único romance, Lições de Abismo, que recebeu o Prêmio da UNESCO em 1968, e em inúmeras livros de crônicas (escritas para revistas e jornais).
As principais obras publicadas por Corção são as seguintes: A Descoberta do Outro (memórias, 1944); Três Alqueires e uma Vaca (ensaios, 1945); Lições de Abismo (1952); As Fronteiras da Técnica (ensaios, 1956); Dez Anos (crônicas, 1957); Claro-escuro (ensaios, 1958). Publicou, também: Dois Amores, Duas Cidades (1967); O Século do Nada (1973).
Que pensar da produção literária de Corção?
Gustavo Corção merece ser removido, de uma vez,  da câmara frigorífica em que o puseram seus inimigos.  Os inimigos de Corção são de dois tipos: os intelectuais marxistas, e os católicos progressistas (assim eram chamados, antes de o rótulo envelhecer).
Repitamos um reparo anterior : a partir da Pseudo-Revolução de 1964 – Corção radicalizou  suas posições. Como a Ditadura Militar coincidiu, em parte, com a Renovação Católica e a Teologia da Libertação, o escritor colocou  a Esquerda e a Teologia da Libertação no mesmo saco – um saco de gatos evidentemente –  e não cessou mais de protestar, de ironizar, de agredir. No furacão em que se envolveu, e se viu envolvido, achou jeito de tentar levar a um paredón imaginário o adversário mais poderoso que o enfrentou,  Dom Helder Câmara.
Acompanhei tudo isso, hélas!
O Correio do Povo, de Porto Alegre, divulgava suas crônicas semanais no Rio Grande do Sul. Elas eram propaladas aos quatro ventos pelo O Globo, O Estado de São Paulo, Diário de Notícias, A Tarde, e toda uma cadeia de jornais. O escritor malhava implacavelmente o que lhe parecia criticável.
É a parte mais débil de sua produção literária.
Quem terá paciência, hoje, de ler as crônicas que publicou sobre disputas intelectuais, teológicas, ideológicas, etc. nesse período assas longo de nossas trevas?Não obstante, mesmo essas crônicas merecem ser lidas. Por uma única razão: Corção escreve bem. Escreve magnífico. Chega a lembrar o melhor Machado de Assis!
É claro que o Corção imortal, o Corção pelo qual estou batalhando,  não está nessa produção, de altos e baixos, de lances eventualmente cômicos, de clareiras de agudeza e penetração psicológico-sociológica, de  estilhaços de ironia, ou borrifos do mais sutil humor...Tais crônica, não raro, estão impregnadas de lirismo memorialístico, de um matiz religioso do mais bizarro valor.
É preciso, porém,ir atrás do há de “genial” nele: Três Alqueires e uma Vaca, por exemplo, é um dos melhores ensaios da literaturas brasileira. Um ensaio fulgurante! Tão bons quanto o citado, são os de  As Fronteiras da Técnica e O Desconcerto do Mundo.São coletâneas que contêm páginas do que de mais inteligente se escreveu no Brasil, e principalmente, do que de mais sensível se produziu entre nós.
Três Alqueires é, além do mais, de início ao fim, um show machadiano de língua portuguesa! Creio detectar, por vezes, detectar nesses ensaios um não sei quê de camoniano, passagens que se reportam aos  versos do autor dos Lusíadas, como:
- Enfim, nestes cansados pensamentos
passo esta vida vã, que sempre dura

Ou (também de Camões):
-Tem o tempo sua ordem já sabida:
o mundo não; mas anda tão confuso,
que parece que dele Deus se esquece.
Casos, opiniões, natura e uso
fazem que nos pareça desta vida
que não há nela mais que o que parece.
Dada ao carácter excepcional da obra de Corção, façamos alguns comentários mais detalhados sobre três obras de Gustavo Corção., suas obras-primas sem contestação.
A)      1944: A Descoberta do Outro.

É um livro de memórias, uma sorte de autobiografia que se desbobina diante do leitor, não com a precisão factual de anedotas ou puros episódios, mas com a precisão das idéias e sentimentos que o autor vivenciou, e disseca impiedosamente. Corção não está interessado na espuma da vida, nas cocorrências  que passam; Está interessado em apanhar, numa espécie de ratoeira, a polpa dos fatos. No fim. É verdade,a tapeçaria revela, sem dúvida, a paisagem de sua vida concreta, com a morte da primeira mulher, a morte do pai, e outras circunstâncias dramáticas.A abordagem, porém, de Corção, é na linha de Roentgen: a ossatura que não aparecia, o esqueleto oculto das coisas, agora aparece.
Se alguém desejar dois exemplos dessa maneira nova - no Brasil ao menos - de praticar o memorialismo, remeto-o, primeiramente, ao capítulo intitulado Close Up,,em cuja saleta o escritor foi buscar um certificado de reservista. A descrição dos três personagens que lá encontrou vale o livro inteiro!
Leiamos:
- O tenente Lino era magro sem exagero, mais seco do que magro, com esses traços finos e esticados que logo dão pena. Cortesmente deu-me uma cadeira, tratando-me de professor, e mergulhou nos seus papéis.
- O sargento batia na máquina como quem se desforra; quando errava alguma letra, soltava um palavrão surdo, suficientemente surdo por causa da disciplina, e suficientemente palavrão por causa da sua virilidade e de suas perneiras. Esse sargento tinha um rosto comprido, cavalino e esverdeado. Um certo langor nos olhos permitia que seu nome fosse Eulálio.
- As botas do capitão Rocha, de tempos em tempos, mudavam de posição por debaixo do tabique. Era excelente pessoa esse capitão Rocha! Poderia prová-lo se abrisse outro capítulo para uma história especialmente dedicada ao capitão Rocha: neste agora aparecem-lhe somente as botas. (A Descoberta do Outro. 8 edição. Rio de janeriro, Editora Agir, 1961. p.35-36).
Vemos aqui o melhor Tchekov salpicado pelo melhor sal de Machado de Assis.
Retrocedamos ao capítulo intitulado O Viúvo Viu a Ave, onde o escritor narra a morte da mulher:
- Ora, foi nessa ocasião que minha mulher morreu.
Morreu moça. Levou dois meses a morrer. E passei esse tempo curvado sobre o meu caso particular. Alguém me dissera que aquela toxemia gravídica, com os progressos da medicina, conta somente um e meio por cento de casos fatais. Passei dois meses quase sem dormir por causa desse um por cento, dando-lhe água e comida como às criancinhas, cuidando das menores coisas, passando um dia feliz por causa dum defecar e logo outro acabrunhado porque o pulso subia.Vi o médico deixar cair o estetoscópio em cima da cama e ficar olhando pela janela, pensativo. Quando me aproximei ele disse:
 - Bonito flamboyant!
Olhei também; era no vizinho em frente. Era bonito mesmo. Num dos galhos mais altos estava um passarinho. Lembrei-me de minha cartilha que na segunda ou terceira página dizia assim: “O viúvo viu a ave”. Durante algum tempo fiquei remoendo estupidamente esse fenômeno lingüístico pelo qual eu seria um viúvo. Achei esquisito e repulsivo o vocábulo. O médico então explicou-me, com termos caridosos, que o meu caso particular estava entrando devagarzinho naquele um e meio por cento, e pondo a mão no meu braço, de leve, com cerimônia, falou-me em Deus.
Viveu ainda uns vinte dias. Uma tarde fui para o quintal e sentei-me num banco, embrutecido. Olhei o sol que se deitava por trás da casa do coronel. Lá ia o sol. O sol era um milhão e quatrocentas mil vezes maior do que a Terra; a Terra, com seus quintilhões de toneladas, era um grão de areia perdido dentro duma enorme galáxia. Acordei de meus cálculos astronômicos pensando na minha doente desenganada. Era um caso particular, um ínfimo caso particular metido no universo e no tempo. Pensei no materialismo histórico; e senti de repente um calor de vexame no rosto. Olhei em volta com receio que me tivessem visto o pensamento. Senti, como ainda hoje, quando me lembro, um vexame intenso.. Haverá decerto coisas mais graves, ações muito mais sérias, de piores conseqüências, mas não há nada mais persistente do que a lembrança duma gafe.Tudo aquilo, as discussões, os sistemas, tinha sido uma gafe (...)
Se isso não é literatura, e grande literatura, então não sei do que estamos falando.
Repito: é inaceitável que nossos historiadores da literatura tenham desterrado Corção de seus inventários apressados, ou excessivamente subjetivos.
Pior para eles!
Dá-me vontade de torcer aquela frase maldosa: “O resto é literatura”, para que se retorça nestoutra: “O resto não é literatura”!
Fico por aqui, caso contrário, teria que trazer à mesa do joalheiro muitas jóias.

B)      1945: Três Alqueires uma Vaca.
Alguns de meus amigos acham que essa coletânea de ensaios constitui o ápice estilístico de Corção!
 Prefiro não me pronunciar a respeito. É, indiscutivelmente, uma coleção soberba de comentários à obra de Chesterton, um exercício de dialética intelectual e existencial único em nossa literatura, pobre em vôos de humor e de dialética.
Tudo nesse livro é cintilante. Vejamos um trechinho, extraído da coletânea como outrora se extraía de um chapéu os números sorteados das rifas paroquiais:
        - Há escritores (ai de nós!) cujo maior título é uma pontualidade ou uma atitude: estar escrevendo, Vivem num particípio presente que não participa de um presente. Estão na literatura como os generais na ativa. Reformados, vai-se-lhes o prestígio; mortos, fica um registro nos almanaques e outro na sepultura. Há no mundo dois mundos, um de pedra e outro de neblina: geologia e metereologia. Na literatura há também montanhas e brisas. Os livros que encontramos são na maior parte, como as correntes de ar; e sua leitura tem a brevidade e o enfado de uma gripe. Leu-se, sofreu-se; acabou-se.
(6 edição. Rio de janeiro, Editora Agir, 1961. p. 14-15).
Se Voltaire resolvesse tirar uma temporada de fériasd nalguma praia brasileira, para poder escrever sobre nós, ou uma temporada carioca, para desintoxicar-se de seu excesso de “razão imperturbável”, renunciando um pouco à sua “sabedoria infalível” (como a qualifica Lucien Febvre, em seu Michelet e a Renascença), nunca, porém, renunciando ao seu estilo insubornável, escreveria como Corção escreveu o trecho acima.
Seria um nunca acabar selecionar novos encantos dessa obra-prima de sutilezas e alfinetadas.

C)      1952: Lições de Abismo
A esta altura, torno-me enfático: leiam, senhores leitores, leiam, por favor, esse romance único da literatura brasileira! Leiam-no, sem pressa, com o respeito que é devido: ao Iracema,às Memórias Póstuma de Brás Cubas, ao Triste Fim de Policarpo Quaresma, ao Macunaíma, às Memórias Sentimentais de  João Miramar, ao Fogo Morto, ao Vidas Secas ou São Bernardo, ao Continente ,ao Ratos, ao Grande Sertão Veredas, ao Perto do Coração Selvagem,e mais alguns poucos romances que constituem a cesta básica da ficção brasileira!  
Dizia Flaubert: “Les chefs-d’oeuvre sont bêtes”! Ele queria dizer que não se pode explicar uma cereja sem comê-la! Se, por acaso, queria dizer outra coisa, peço desculpas a esse Grão Príncipe da Ficção Francesa, e me aposso de sua sentença, dando-lhe o sentido que me apraz.
 O romance inteiro de Corção é um milagre estilístico. Quanto à ficção propriamente dita, elevo-a  à mesma altura que os romances de Mauriac e Bernanos. Não sei de outro romance no Brasil que tenha tal vibratilidade vibratilidade existencial.
Como homenagem aos que me acompanharam até aqui, brindo-lhes uma única página dess e romance, que extraio  do capítulo VI, cujo título é: “A Moça do Café em Pé, de Marré Deci”:

- Entrei no café e coloquei-me, como aspirante,atrás de um indivíduo corpulento e suarento que já degustava a xícara arduamente conquistada, exibindo no punho grosso um pesado bracelete de ouro, e arqueando um pouco o tronco atlético, para não pingar café na roupa de brim claro.
(...)
Eu esperava, pois, com a ficha na mão, que o meu corpulento predecessor se saciasse de café, e me cedesse sua brecha ao pé do mármore. Atrás do balcão9, aprisionados em três metros quadrados, um rapaz e três moças multiplicavam os mesmos gestos rápidos, distribuindo louça, servindo café, recolhendo as fichas e retirando para um enorme caldeirão de água fervendo as xícaras usadas. Foi então que reparei na minha rosa trigueira e frustrada. Era a do meio. Acabava de ouvir alguma história engraçada do lavador, e ainda tinha um vestígio de sorriso quando me estendeu a xícara. Seria bonito o sorriso, talvez, se tudo ou quase tudo nela não fosse frustrado. Ela mesma, com seu rosto irregular, de maçãs salientes, e faces ligeiramente cavadas, seria uma bela princesa russa que os azares de uma revolução tivessem trazido para aquele humilhante ofício.
Ofício de quê?Que nome terá esse ofício de ficar oito horas em pé a distribuir xícaras com gesto de autômato? Creio que não tem nome. Receio que não tenha nome. Antigamente todos os ofícios tinham nome. A moça pobre seria costureira ou florista, e as meninas cantadeiras da Rua Santa Alexandrina cantavam assim nas noites de verão:

Eu sou pobre, pobre, pobre,
De marre, marré, marré,
Eu sou pobre, pobre, pobre,
De marré, deci...

Quero uma de vossas filhas,
De marré, marré, marré.
Quero uma de vossas filhas,
De marré, deci...

Que ofício darás a ela?
De marré, marré, marré.

Dou ofício de costureira,
De marré, deci...

Como poderíamos pôr em canto de roda a longa especificação deste ofício sem nome: moça que distribui as xícaras de café em pé, de marré, marré, marré? Mas se não tem nome a profissão, tem nome, nítido e rígido, a classificação. Ela é comerciária de marré, deci. Amanhã ou depois, ela não estará aqui, de avental manchado de café, com aquela meia-lua de organdi plissado que lhe puseram nos cabelos castanhos – diadema de servidão - ela não estará aqui a sorrir de um resto de história que o rapaz ruivo acabou de contar. Amanhã ou depois ela estará nos corredores, nas filas de seu enorme instituto. E depois se achará no meio de outros aventais, mais limpos que o seu, e terá uma cabeça grisalha encostada ao seu peito de andorinha cansada.
 - Tussa! Respire...
Porque é evidente que não irá longe. Seu rosto ainda tem força e vivacidade, deixando adivinhar o que seria, se lhe tivessem dado licença de viver. Mas o peito vazio, a cinturinha quebrada, e os braços chupados, indicavam uma quebra da harmonia do seu tipo, uma desafinação brutal que só a proximidade da morte é capaz de explicar. E eu vejo, isto é, via lá no café, enquanto esperava que me servissem, que a minha rosa trigueira não irá muito mais longe do que suas irmãs de minha jarra. Quem poderá firmar-lhe a haste frágil? A florista da Rua Gonçalves Dias, quando a flor é propensa ao desmaio, passa-lhe um arame que fica fazendo às vezes de saúde. Quem poderá firmar aquele corpinho de menina condenada a servir de croupier desse esquisito jogo com fichas e louças?
Deve ser bem esquisita a sua visão das coisas e do mundo. Ali no seu balcão, no seu plantão, ela serve...vejamos quantas xícaras. Calculemos: três ou quatro por minuto, vezes sessenta, vezes sete ou oito, digamos sete. Dá mil cento e oitenta; digamos mil. Ela serve mil fregueses por dia! (Lições de Abismo. São Paulo, Círculo do livro, 1976.133-135).
Eu teria ganas de transcrever para os leitores, também, o capítulo XII do livro, intitulado: Rosa, Rosae. (Ibid. p. 245-265).Mas se eu o transcrevesse, os leitores possivelmente desprezariam a crítica brasileira oficial que cometeu em relação a Corção!
So me resta fazer o que Paulo de Tarso fez, quando o prenderam, e ele viu que seus juízes, que lhe tinham ódio, o condenariam. Apelou para César, que estava em Roma. Faço o mesmo: já que meu admirado amigo Alfredo Bosi, e minha saudosa amiga Luciana Stegagno-Picchio não podem mais reparar a injustiça literária feita a Corção, apelo para os novos historiadores da literatura brasileira. Digo-lhes:
                - Antes que seja tarde, muito tarde , dêem a Corção o que é de Corção: um lugar de grande destaque na História da Lteratura Brasileira!  




Um comentário:

  1. Professor e escritor Armindo, quando me sentia com a minhoquinha na boca, o anzol fugiu com o meu alimento por dentro das águas da boa literatura: sim, vou procurar e ler o Gustavo Corção.
    Em especial, Lições de Abismo.
    Abraços cordiais, Medina.

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