sábado, 26 de fevereiro de 2011

Gustavo Corção, Um Reacionário?

À MANEIRA DE MACHADO DE ASSIS: UM FALAR E DOIS ENTENDERES
Amigos, que leram meu blog: Conheci um grande escritor: Gustavo Corção, não entenderam que, nesse primeiro ensaio sobre o escritor, eu procurava atingir dois objetivos: relatar meus encontros com Corção, e valorizar seu talento específico de escritor – melhor dito: de grande escritor. Não me interessava naquele escrito em falar sobre a incrível trajetória cristão-católica do escritor, durante a qual ele passou – de uma posição materialista e atéia, com um ideário político comunista,a uma posição espiritualista e de católico praticante, com um ideário soi-disant democrático.
Atendendo, pois, ao desejo desses amigos, tentarei, nesta crônica-ensaio, explicar meu ponto de vistasobre as dramáticas reviravoltas  religioso-políticas de Corção, esforçando-me por evitar qualquer parcialidade na apreciação de tão surpreendentes reviravoltas.
Começo por dispensar-me de relatar sua conversão ao catolicismo, que culminou em 1939. O próprio escritor encarregou-se de no-la contar no seu (recomendadíssimo) livro, quase um romance de tão bom que é: A Descoberta do Outro, réplica, ao jeito brasileiro, das Confissões de Santo Agostinho. O relato de Corção é o de um indivíduo de nosso século, acossado por problemas totalmente diversos dos que torturavam as pessoas no século IV d.C. Além disso, Corção o fez, com um sentido de humor que inexiste nas efusões emotivas, quase vulcânicas, do Santo Doutor. Santo Agostinho escrevia diante de Deus, como se o Senhor dos Céus e da Terra estivesse sentado no seu trono diante dele, a escutá-lo. Daí a expressão Confissões, que pode ser glosada em dois significados: o de confidência a uma pessoa amada, e o de pedido de indulgência a um Ser, que tem poder de perdoar. Em  A Descoberta do Outro o autor não adota tal ponto-de-vista. Prefere escrever ao grande público, sem preocupações de auto-justificação, ou de auto-acusação. Quer, simplesmente, oferecer um depoimento existencial. E o cumpre com toques de poesia e de auto-ironia. São dois estilos, unificados pelo desejo de prestar um serviço à comunidade dos crentes, e – no caso específico de Corção – também à imensíssima comunidade dos descrentes.
Fiquemos no terreno em que nos propusemos ficar: o de sua trajetória religiosa e política.
O escritor facilitou-nos a tarefa com a publicação de O Século do Nada, obra convulsiva que não deixamos de mencionar no nosso blog. Trata-se de um terrivelmente polêmico. Pode-se defimni-lo, até, uma espécie de libelo contra os seus adversários, contra quem, simplesmente resolvesse contrariar suas tomadas de posição, tanto dentro do catolicismo, como no domínio das opções políticas. É um livro de uma agressividade grotesca. Merece ser adjetivado como desagradável. Falta nele o respeito aos adversários, falta-lhe, sobretudo, a cortesia – vá lá o termo falta-lhe, principalmente, elegância espiritual.
 Corção dá a impressão de um “fanático, com todas as ramificações que esse termo tem de pejorativo.
 Para que ninguém nos acuse de malevolente – a nós, que sempre nos declaramos admirador incondicional de seu talento de escritor e, sob certas ressalvas, também de seu catolicismo -  sim, de seu catolicismo vivido, existido, presente  nos refolhos de sua personalidade – forneceremos alguns exemplos da efervescente impertinência do escritor.
Antes de tudo, deixemos bem claro um ponto: não aprovamos o catolicismo que Corção defende, o seu catolicismo incendiado por um temperamento excessivamente feroz, por uma paixão “apostólica” desvairada, que o leva a considerar-se o acionista-mor da Fé que professa, o possuidor de certezas interiores e exteriores, que só a Graça de Deus pode assegurar, (e sempre em carácter de exceção), a alguns místicos, cujas credenciais a Igreja é que tem o direito de examinar “com pente fino”. Mesmo assim, as autoridades eclesiásticas legitimamente constituídas não obrigam ninguém a admitir tais certezas, advindas por meio de revelações particulares.
 Indistamos: a Revelação, trazida pessoalmente pelo Filho de Deus aos homens, cessou com a morte do último dos Apóstolos. Disso se infere que só nos é permitida a elucidação do Depósito da Fé, a exploração de suas silenciosas jazidas, tarefa confiada à Comunidade dos Crentes, ou seja, à Ecclesia propriamente dita, sob a direção dos Bispos, sucessores dos Apóstolos, e do Papa que, por ocupar a diocese de Pedro, detém em suas mãos as Chaves da Igreja, que Cristo confiou a Pedro.
Abramos, pois, esse buliçoso Século do Nada, o livro “com que venho sonhando há mais de quatro anos! –como confessava o escritor aos leitores na sua primeira edição de 1973.
Um pouco adiante,Corção acrescentava:
- O fato é que tudo o que li nestes últimos cinco anos sobre o que aconteceu no mundo católico, e sobre o que me parece explicar o que está acontecendo, compele-me imperativamente, preceptivamente, a escrever este livro, não por julgá-lo necessário e útil para a Igreja e para o mundo, mas simplesmente por julgá-lo indispensável à completação e ao retoque do testemunho que venho deixando há tantos anos em livros, aulas e artigos.(O Século do Nada. 2 ed.Rio de Janeiro, Distribuidora Record, sd. p.13).
Vê-se por aí até onde se estende o “furor religiosus” de Corção! Inconscientementre, ele se arvora num profeta de cabelos desgrenhados. Aliás, ele mesmo se incumbe de nos precisar o tom de suas objurgatórias:
- O tom será aqui e ali pessoal, evocativo e afetivo, porque na verdade vou reabrir feridas, ou ferir-me onde me julgava ileso. Deixarei correr a memória sem preocupação de método e de sistematização, mas depois desse desabafo no ombro imaginário de um leitor imaginariamente amigo, levantarei vôo para as terras onde todo o drama deste século se iniciou e se desenrolou, e então tratarei de esquecer-me de mim e do leitor, para entregar-me de corpo e alma à observação e ao registro dos fatos, que nos trouxeram tão inimagináveis calamidades.
Talvez eu me tenha equivocado: não se tratará, aqui, de um profeta do Antigo Testamento, mas de um brasileiríssimo – e atualizado - Antônio Conselheiro, descido de pára-quedas numa das praias do Rio de Janeiro.
Tanto valor o escritor atribui ao seu libelo que começa antepondo-lhe, em latim, o penhorante e exorcizante  sinal da cruz: in nomine Patris et Filii et Spirictus Sancti.
Após uma breve resenha autobiográfica, Corção levanta vôo com uma sorte de louvação histérica à Espanha Católica de 1936, a Dom José Moscardó Ituarte (o comandante da defesa do Alcazar de Toledo), ao  general Queipo de Llano, e a José Antonio Primo de Rivera:
- España libre, España bella
 con roquetés y Falangres
 con el tercio mui valiente...
Inacreditável!
Como compensação a tão desmedida adesão a indivíduos, que não tardarão a ser contestado, o escritor dá-se pressa em abrir uma clareira de lucidez:
- No Brasil, o regime originado pelo golpe de estado de 1937, inculcou-me uma aversão pelos regimes políticos semelhantes. Vinha da Europa, e mais especialmente da França, uma corrente de antifascismo que recebi sem procurar discernir as várias significações que o mesmo vocábulo encobria. Lembro-me bem da primeira vez que vi, em Jacarepaguá, num cinema empoeirado, a figura de Adold Hitler, a discursar num cenário wagneriano. Levantei-me, como quem acorda, sem poder sopitar uma exclamação: “Esse homem é louco!” Minha mulher puxou-me pelo casaco, e eu me espantava com a tranquilidade da platéia.(...) A figura de Mussolini, correndo em passo ginástico com seu ministério, veio compor o que designava o termo “fascismo”, e facilitar o sumário desprezo com que enquadraríamos o regime de Salazar em Portugal, e a recente ditadura implantada por Franco na Espanha”.(Ibid. p. 19).
Prosseguindo nas suas auto-revelações, Corção afirma ter sido filocomunista:  Marxista nunca”. Conta que a publicação de seu livro A Descoberta do Outro o tornou, repentinamente, figura conhecida, um ícone da intelectualidade católica.  A primeira edição desse livro esgotou-se em quinze dias! A segunda e a terceira edição seguiram pelo mesmo caminho: esgotaram-se em poucos meses.
Em 1945 – prossegue Corção - uma voz estridente de mulher o acordou, no coração da noite, para dizer-lhe: “Os russos estão chegando em Berlim!” Confessa ter ficado, inicialmente, mudo.  Como a mulher voltasse a dizer-lhe: “Os russos estão entrando em Berlim!”, Corção – inexplicavlelmente segundo refere – perdeu a paciência, e respondeu-lhe: “Merda!” (Ib. p. 23). Segundo o escritor, naquele dia, estava sendo consumada uma monstruosa impostura: os povos ocidentais entregavam ao Minotauro Comunista dez vezes mais que a parte da Polônia, em razão da qual o mundo entrara em guerra!
Foi, talvez em 1948, que Fernando Carneiro interrompeu um disco de Mozart, que estava deliciando Corção, para dizer-lhe: “Você já ouviu falar no Padre Lebret?”
O escritor convertido não conhecia o dominicano francês, cujo movimento Economia e Humanismo estava eletrizando a mentalidade social dos católicos franceses. Esse movimento, na opinião de Corção, foi o responsável de se terem implantado no Brasil “os primeiros vírus do esquerdismo católico que vinte anos depois produziria os escândalos dos Dominicanos que, em São Paulo, transformaram o Convento das Perdizes em reduto de guerrilheiros”. (Ibid. p. 25).   
Por causa do famoso Padre Lebret, Gustavo Corção  refere ter o poeta Murilo Mendes engolido um dospiores sapos de sua vida. Em 1948, o ilustre religioso francês veio ao Rio de Janeiro para uma série de conferências. Corção foi ouvi-las. Após uma delas, resolveu acompanhar, com outros amigos, o conferencista francês que desejava conhecer o Mosteiro de São Bento. Murilo Mendes estava no grupo dos acompanhantes. Espirituoso como sempre, o poeta teve a má idéia de acender uma sorte de buscapé ideológico, declarando, alto e bom som:  “O Comunismo é chato por não ter o senso da poesia”. O Padre Lebret, no mesmo instante,voltou-se para o indiscreto, e gelou-o com a seguinte observação: “C’est vous  que n’avez rien compris du communisme”. De acordo com Corção, o poeta “meteu a viola no saco”...
Dessa data em diante, a inteligência católica do Brasil começou a atolar-se num pântano de idéias “revolucionárias”. Corção que, após o fulgurante sucesso de seu livro de memórias, se convertera num “popstar” do Catolicismo de então, chovendo-lhe convites a dar palestras de todos os cantos do Brasil, rdpecialmente de Minas e do Rio Grande do Sul, foi – de repente - qualificado por estudantes católicos de “inimigo número 2 dos estudantes” e, insulto intolerável, declarado uma “múmia” pelos rapazes que até então o consideravam seu padrinho espiritual.
 Na mesma época, surgiu  a União Brasileira de Estudantes (UNE), que assinalou o início da vitória da infiltração comunista no meio estudantil. Corção o confirma: “Eu vi essa infiltração com quem vê uma mosca caída no leite.”(Ib. p. 32).
Para não enfadar o leitor, sintetizemos o que se lhe seguiu: altercações a granel entre católicos, semi-católicos, e católicos integrais! Atritos generalizados. Mútuas acusações a respeito de diferentes atitudes com respeito a esse ponto, ou a outro da Religião. O momento decisivo da cisão não tardou a acontecer: foi em 1963 quando o escritor famoso e um grupo de adeptos cansaram-se do líder dos católicos considerados “esquerdizantes”, o Prof. Alceu Amoroso Lima (conhecido, também, como Tristão de Athayde), que presidia o Centro Dom Vital, uma Linha Maginot da intelectualidade católica nacionmal. O Dr. Alceu foi pressionado a demitir-se. Corção, após 15 anos de militância nesse centro, onde dava cursos e conferências, até para empregadas domésticas, escreveu uma carta ao Dr. Alceu, desligando-se do Centro. Imagine-se o rebuliço que a saída de Corção provocou!
 O dissidente Corção resolveu fundar com amigos um movimento alternativo: o Permanência.
Saltemos, porém, os tumultuosos acontecimentos que resultaram na queda de Jango Goulart e que, consoante o escritor, levaram os brasileiros ao assassinato do Brasil. Façamos, tão somente, uma alusão à “Marcha da Família – com Deus e pela Liberdade”, que precedeu o levante militar de 64. Deixemos aos historiadores profissionais a descrição e análise das greves, que começaram a pipocar em, toda a parte, quaislevaram Jango Goulart à sede do Automóvel Clube do Brasi, onde ele pronunciou um discurso aplaudidíssimo, repleto de chavões para-socialistas. Nessa noite – declara Corçao, com ênfase -  o Brasil chegou ao ponto mais baixo de sua história.(Ib. p. 40).
Neste ínterim, prestemos ( por um minuto!) atenção ao ranger dos tanques, que os militares estavam pondo nas sempre divertidas ruas cariocas...
Demos outro salto imaginativo: instalemo-nos em 1968, ano básico segundo Corção, quando “as esquerdas, vencidas e expulsas dos cargos” começaram a levantar as cabeças...Nesse ano fatídico, os guerrilheiros de Marighela – sempre segundo Corção –estabeleceram sua cabeça-de-ponte (expressão significativa do escritor) no Convento Dominicano das Perdizes, em São Paulo.
Com a explosão do Escândalo-Marighela, surgiram as primeiras denúncias na Europa contra as perversidades do governo militar brasileiro. Dom Helder voa a  Paris, convoca a imprensa, e  concede uma sensacional  entrevista à revista L’Express sobre as técnicas repressivas dos militares goverbnistas: -“para vergonha – diz Corção, hiper- enfáticamente – do planeta Terra”. (Ib. p. 46).
Cai o pano do Primeiro Ato.
Corção, em O Século do Nada, evita estender-se. Parece ignorar os Amos-de-Chumbo dos Anos Setenta, os detestados Anos-Médici. Os canhões de Corção, agora, estão apontados  contra os arraiais católicos adversos. Ajusta contas até com ex-mestres reverenciados, como Jacques Maritain e seu Le Paysan de La Garonne, que não agradou inteiramente ao ex-devoto. Critica o grande teólogo tomista,  M.D. Chenu, e outras sumidades do Catolicismo.
Podemos dizer que, a partir de então, encontraremos sempre Gustavo Corção de dentes afiados,constantemente  tentando morder o calcanhar-de-Aquiles de algum intelectual de esquerda,ou mesmo de direita, se não lhe cai nas graças.
O Século do Nada, esse livro-libelo de Gustavo Corção, à parte os seus fulgurantes trechos estilísticos, é um painel sobre a mentalidade reacionária católica dos últimos séculos. Na sua visão panorâmica, Corção toma partido a favor de todas as manifestações emblemáticas do “Contra” da Igreja Católica,  de Pio IX e PIO X , até aos Papas mais atuais. Corção insurge-se como um touro contra a capa vermelha do toureiro, contra as – assim ditas - inovações modernistas. Corção
Em princípio, o escritor está sempre a favor daquilo que miopiza a Igreja, que – se nçao chega a por-lhe uma venda aos olhos – ao menos lhe põe um véu opaco. Corção propugna por uma Igreja defensiva, por uma Igreja a obriga a marcha a ré. Não lhe escapa nem o “Affaire Dreyfus”, que – para nossa satisfação – Corção, num lance de lucidez,  considera um caso de estupidez judiciária, acrescentando, fulminante: “em outro ponto da história e em outro país  (tais episódios) seriam arrastados pela onda de acontecimentos e se corrigiriam sem tanto alarde, ou mesmo sem se corrigirem desapareceriam nos ralos da história ou da des-história, que de minuto a minuto escoam os erros, as injustiças, e as variadas mesquinharias e baixezas que todos nós vivemos a produzir neste mundo sublunar”. (O Século do Nada. p. 165).
No meio dessa  pasmosa confusão, eis que Corção aborda uma questão que, literalmente, rasgou a opinião francesa: o Caso Brasillach, o pro-nazista francês condenado que o General De Gaulle condenou à morte, acusando-o de colaboracionista.Corção não concorda com o General: “por não haver participado da Resistência Francesa”- explica ele.
Corção aproveita, ainda, a deixa para – utilizando-se da técnica cinematográfica do flashback – relatar as principais peripécias da Action française, suas infinitas querelas com as autoridades eclesiásticas, que terminaram pela censura papal (em 1915) de seu líder, Charles Murras, condenado, por sua vez, pelas autoridades civis francesas à prisão perpétua.
O próximo capítulo será consagrado por Corção à Guerra Civil Espanhola, à Guernica, à Queda da França em 1941, com paradas obrigatórias nos casos do Marechal Pétain  e de Robert Brasillach.
Sejamos justos com o escritor, e com o saudoso amigo: consideramos as páginas que ele dedica ao Affaire Brasillach, figura enigmática da intelectualidade francesa, as melhores do livro. Por um átimo, o irascível escritor  deixa de martelar seus chavões, e se detém, subitamente, com soberba gravidade e simpatia católicas no que realmente importa a um católico: a tragédia humana, existencial e espiritual desse ensaísta e erudito. Corção não esconde nada. Expõe os fatos com objetividade – não com toda a toda a objetivi dade talvez. Mostra-se, em todo o caso, dez vezes mais humano e generoso que os inimigos de Brasillach.
 Confessamos que as reflexões de Corção poderão ajudar o leitor a formar um juízo menos turvado por sentimentos ideológicos – e talvez de vendetta – dos inimigos do infeliz Brasillach. Recentemente, ainda, encontrei num sebo de Porto Alegre, desse escritor, que me deixou perplexo. Pois bem, Corção não dribla dificuldade alguma. Revela como esse “menino-prodígio” se envolveu com a “teatralidade exultante do nazismo”, como esteve na Guerra, como foi corajoso na luta contra os invsores, como amava sua mãe, sua irmã, seus amigos, sua Pátria, seu Deus.  Alude, inclusive, às tolas  boutades (piadas de mau gosto!)) de Brasillach contra “o Judaísmo” que, segundo ele, esquerdizava a França, e deixa claro que o controvertido escritor foi um dos poucos a protestar, em Je suis partout, contra a crueldade com que, nas famílias judias presas, se separavam os pais dos filhos.
 Por fim, Corção  nomeia fatos relacionados com os dias que precederam o fuzilamento de Brasillach. Diz que ele passou esses derradeiros momentos a rezar, que compôs nessa ocasião versos religiosos de peregrina beleza, salmos agônicos, escritos “la mort em face”. (Ib. p. 338-339). Transcreve o apelo que 63 escritores e artistas apresentaram em seu favor ao General de Gaulle – entre os quais: Jean Anouilh, Jean-Louis Barrault, Le Prince de Broglie, Albert Camus, Paul Claudel, Jean Cocteau, Arthur Honnegger, Patrice de La Tour du Pin, Gabriel Marcel, François Mauriac, Paul Valéry, Vlaminck) -  a fim de que este comutasse a pena de morte em prisão. Revela que De Gaulle chegou a conceder a graça pedida, mas que a retirou “à vista de um inesperado documento trazido na última hora: uma fotografia de Robert Brasillach “em uniforme alemão”. Corção esclarece:”O uniforme era realmente alemão, mas quem o vestia não era Brasillach”. (Ib. p. 340). Reproduz os Salmos I, II, III, IV, VII escritos na prisão, e o poema do dia 04 de fevereiro de 1945, à  espera da execução ( que me atrevo a traduzir, parcialmente):
Diante do sepulcro, Vós chorais ainda,
diante do sepulcro onde dormia Lázaro:
nos dias deste mundo, ele foi Vosso amigo,
Vós quebraste, Senhor, suas sombrias amarras.

Lázaro, meu irmão, companheiro de Deus,
Virá o Senhor amanhã...ou nesta noite?
Ajuda-me, tu que nasceste duas vezes para as alegrias da terra,
padroeiro para sempre das derradeiras esperanças.
               
Junto ao monumento, ela se mantém invisível
                a meninazinha, de claros olhos matinais,.
Senhor, tudo é possível, se o quiserdes,
a Menina Esperança já juntou as mãos.

Entrego,  ó Senhor, às pregas de sua veste
minhas aflições, o abraço do  meu coração.
Que o filho me devolva, à hora da alvorada,
o dia da terra, - ou  então  outro dia.
(Ibid. p. 343).
Corção  menciona o livro de Jacques Isorni:  Le Procès de Robert Brasillach. Cita a peça de Brasillach, A Rainha de Cesaréia, escrita pelo autor durante a Guerra, que se tentou programar, em fins de 1957, para o Theatre dês Arts de Paris. Foi impossível encená-la.  Provocou tantas manifestações hostis que o diretor da peça decidiu cancelá-la. Refere um episódio, que ocorreu nessa noite, que realmente redime esta pobre humanidade de sua vergonha: um policial, destacado para conter a multidão,ao verificar que a multidão desertava o local, abordou uma mulher que permanecia sentada, convidando-a, também, a afastar-se.
A mulher respondeu:
- Tenho 20 anos, sou comediante, e sou judia...
                Conhecendo-se o anti-semitismo de Brasillach, e seu fim trágico aos 35 anos, não deixa de comover-nos, até de enternecer-nos, encontrar essa descendente de Israel, no local dos acontecimentos, desejosa de respeitar e homenagear um escritor que, apesar de tudo, possuía uma personalidade sincera, e que não tinha culpa de ser talentoso...
O católico Corção remata esse capítulo estranhíssimo – sob muitos aspectos, inexplicável para a cultura francesa – citando a Carta a François Mauriac , que Maurice Bardèche, casado com uma irmã de Brasillach, confidente durante muitos anos do escritor fuzilado, lhe endereçou.
Finalmente, reproduz um comentário de Jean Madiran ao livro de Bardèche, onde afirma que Brasillach foi executado por aderir a uma política que ele desdenhava: “Condenaram Brasillach por algo que, fora dele ou nele, não era dele”. (Cit. Ib. p. 347).
Verdadeiro? Falso?
Por que me detive tanto tempo no Affaire Brasillach – que Corção trata com prolixidade?
Caros leitores: por uma razão pessoal!
Em 1966, ignorando todos esses imbróglios miseráveis, eu, um jovem candidato ao doutorado em Filosofia, freqüentava a Universidade de Fribourg, na Suíça. Adquiri, então, um exemplar de uma  Anthologie de La Poésia Grecque que um amigo francês me recomendara Quem era o tradutor dessa antologia? Pois bem, o que, na época não me dizia nada, hoje me diz algo: logo no título eu li: Choix, traduction, notices par ROBERT BRASILLACH.( Paris Librairie Stock, 1950).
Foi por esse livro que descobri o gênio épico e lírico dos gregos!
E digo-lhes: sem esse livro, possivelmente, nunca teria desenvolvido meu talento poético... O contato com a poesia grega, naquele preciso momento, deflagrou em mim uma emoção, um interesse pela Poesia, que nem sei explicar hoje.
Mas o encontro com esse infeliz erudito francês (que escreve maravilhosamente, como o detestado Céline, seu amigo), parece que até à atualidade me persegue! Num dia desses, no corrente ano de 2011, de repente topo num sebo de Porto Alegre com uma espécie de garrafa lançada ao mar com uma mensagem: um exemplar em papel amarelado de Notre Avant-Guerre, de Robert Brasillach (Paris, Librairie Plon, 1950).
Verifiquei que a primeira edição desse livro de Brasillach era de 1940, cinco anos antes de o autor ser fuzilado!
Nesse livro de memórias,o autor rememora sua formação no Liceu Louis-le-Grand, em Paris, descreve suas amizades com os colegas, seus sonhos de adolescente, suas primeiras tentativas de escritor, seus amigos, suas descobertas literárias, como a do primeiro livro de Georges Bernanos: Sob o Sol de Satã. Fala de seus encontros com Colette, Paul Valéry, Louis-Ferdinand Céline, das viagens que realizou à Espanha e à Itália. Por fim, num capítulo especial, aborda  “Ce Mal du Siècle, le Fascisme” -  o fascismo  que o iria perder. Em suas páginas irrompem, também, duas figura repelentes: Himmler, o Chefe das SS, e Goebels, o Ministro da Propaganda do Terceiro Reich. Brasillach conta ter jantado com eles, num acampamento militar, onde comeu chucrute, salsichas bávaras, e bebeu o vinho seco da Franconia!
No final desse capítulo, quem dá o ar de sua graça nessas memóprias de Brasillach? Hitler em pessoa - sobre o qual o autor escreve:
- Nunca esquecerei, penso eu, a cor e a tristeza dos olhos de Hitler, que são sem dúvida seu enigma.
(Notre Avant-Guerre. p..276).
Bendigo a Deus não ter sabido durante certo tempo, absolutamente nada, a respeito desses ódios e desses horrores abismais do coração humano! É lógico que não estou inocentando Brasillach, nem incriminando-o. Estou tentando compreender o desatinadíssimo cipoal humano...
Nem me interessa, neste momento, saber quem teve razão – ou o quanto de razão coube às partes antagônicas dessa tragédia – que nem Shakespeare seria capaz de transformar numa bela tragédia!
 Como é difícil... não só tratarmos com homens vivos, mas também com homens mortos!
Saibam os leitores que um dos últimos ataques de Corção, no seu livro Século do Nada, foi contra o grupo dos católicos progressistas,a começar pelos que se reuniam em torno da revista Esprit, dirigida por Emmanuel Mounier.(Ibid. p. 360 ss).
Depois de tudo isso, que sobrava a Corção senão enfrentar o bicho-papão dos bichos-papões do Catolicismo da época: o Comunismo.
Foi o que ele fez.(Ibid. p364 ss.).
Não como um Dom Quixote, cavalheirescamente, mas como um Átila tupiniquim, barbarizado pelas suas convições de católico militante. Ou antes: de católico guerrilheiro.

I. À MANEIRA DE MACHADO DE ASSIS: OS ADJETIVOS PASSAM, OS SUBSTANTIVOS FICAM.
 Consultamos dois famosos dicionários brasileiros, o Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, e o Dicionário de Usos do Português do Brasil (de Francisco S. Borba e colaboradores).
Como definem, ambos, o indivíduo reacionário?
Praticamente do mesmo modo:
a) reacionário é o indivíduo aferrado à autoridade constituída;
b) reacionário é o indivíduo contrário a novas idéias.
Digamos, pois, com serenidade: Gustavo Corção, na sua condição de católico, preencheu ambas as condições.
A)  Corção foi um indivíduo aferrado às autoridades constituídas.
Podemos, e devemos, naturalmente formular uma questão: a quais as autoridades constituídas, da Igreja e da sociedade civil, se aferrava o escritor?
Respondamos: às autoridades, a que se aferrava Corção eram as autoridades que continuavam, por sua vez, aferradas ao Concílio de Trento, e às posições mais ilusoriamente anti-iluministas: Pio IX e Pio X.
Acrescentemos um detalhe: havia uma palavra que provocava calafrios em Corção, palavra que ele se encarregou de no-la transmitir: mutação. (Conversa em Sol menor. p. 331).
   Era impressionante a maneira, ppor exemplo, como Corção defendia o Generalíssimo Franco e seus asseclas, embora ele tivesse amaldiçoada o bombardeio de Guernica. Corção reconhecia, lealmente, que a cidadezinha basca fora massacrada pelos Heinkels III e pelos Junkers 52 do Marechal Goering, que nela despejaram, na tarde de 26 de abril de 1937, 1.000 libras de bombas incendiárias, que mataram 1654 pessoas, ferindo gravemente outras 889. (O Século do Nada. p. 171).
Páginas adiante, o escritor, depois de chocar-nos com sua indiscreta revelação, obtida não se sabe onde,onde diz que o Papa Pio XI fazia tremer sua mesa de trabalho com os socos que nela dava, bradando:“Eu sou o papa!”, o católico Corção completava:
- Perdão! Quem não hesitou em se pronunciar a favor de Franco e a aprovar a Guerra Civil, e a abençoar os que aceitaram o penoso encargo, não é o Padre. Garrigou-Lagrange, é o Papa Pio XII gloriosamente reinante nessa data, mas tornado invisível e inaudível para os intelectuais que tiveram tão pronta acuidade para ouvir e entender o decreto de interdição da Action Française. Curiosa obstrução! E para mais nos intrigar o autor de Carnet et Notes  (isto é, Jacques Maritain) intercalou nas páginas 231 e 238 uma explicação atualizada, isto é, datada de 1965”. (O Século do Nada. p. 168).
Lastimavelmente, Corção aferrou—se sempre a todas as autoridades que, de algum modo, eram “autoritárias”, a todas que estavam preocupadas com o freio-de-mão que a Igreja maneja sempre a desfavor das inovações, boas ou más.
Para não perdermos tempo com semelhantes tristezas humanas – demasiadamente humanas – que oprimem a  liberdade dos filhos de Deus, demos a Corção a possibilidade de nos espremer o suco de suas posições conservadores num breve texto de sua coletânea de crônicas,Conversa em Sol Menor, publicada pelos seus amigos em 1980:
- O mundo moderno sofre do descarrilamento terrível operado na Civilização cristã nos séculos XIV e XV. Pela Reforma e pelo novo humanismo emanado do eu exterior, do homem exterior, e adverso a Deus, entrou o homem numa via modernorum e construiu uma civilização do falso amor, em que a glória da ciência das coisas contrasta lugubremente com o luto da sabedoria imolada aos ídolos. (...) E aqui estamos no século XX, onde à luz da Secunda Secundae (da Suma Teológica de São Tomás de Aquino), podemos dizer que triunfou a desordem da caridade, que é outra maneira de falsificar o amor. Os inovadores de libertações chegaram ao ponto de colocar a tônica do cristianismo no amor ao próximo, com o esquecimento da prioridade absoluta do amor de Deus. Quantos jovens padres eu vi, nesses últimos anos, a pular diante do altar versus platéia e a dizer: o cristianismo consiste essencialmente no amor ao próximo! Um desses pobres idiotas chegou a dizer com dureza: “A essência do cristianismo é o amor do próximo...só!!” E basta isto para termos o direito de afirmar que é falso o amor dessa gente, o amor do próximo, que é abstrato, cruel, esquematizado e hipócrita, esse amor do próximo que se aproxima da Fraternité revolucionária que começa par le meurtre du père. Basta isto tudo para me deixar indiferente às campanhas de fraternidade organizadas pelas autoridades eclesiásticas completamente afastadas de quem disse: “O meu Reino não é deste mundo.”(Conversa em Sol Menor. Rio de Janeiro, Livraria Agir Editora, 1980. p.382).
Penso que nunca passou pela cabeça de Corção a menor hesitação mental perante as reprovações desastrosas do Papa Pio IX no Syllabus Errorum Modernorum, um sumário dos  erros modernos – 80 ao todo. Embora nem sempre estejamos de acordo com o teólogo Hans Kung, é uma questão de honestidade dar-lhe razão em muitas coisas, entre as quais esta:
 - No geral, esta foi uma defesa intransigente da estrutura doutrinal e de poder da Idade Média e da Contra-Reforma, e, ao mesmo tempo, uma declaração de guerra à modernidade”. (Igreja Católica.Trad. de Adalgisa Campos da Silva. Rio de janeiro, Editora Objetiva, 2002. p..205).
 Sugiro aos leitores que leiam, sem preconceitos o texto completo desse livro,objetivo, desapaixonado e, do ponto de vista histórico, de uma crueza de filé de açougue.
Obviamente, Corção nunca deixaria, também, de aferrar-se a outro documento: o do Papa Pio X – canonizado pela Igreja, que foi Sumo Pontífice de 1903 a 1914, o bom Papa Sarto, um Santo. Para dizer a verdade, pessoalmente, não só lhe tenho simpatia; tenho-lhe, também, devoção. Mas é preciso admitir que esse Santo Padre (de fato). induzido pelos seus Cardeais: “reprimiu qualquer reconciliação da doutrina católica com a ciência e o conhecimento modernos. Sob o rótulo de “modernismo”, comandou uma limpeza antimoderna em grande escala, uma caça formal à heresia contra todos os teólogos reformistas, especialmente exegetas e historiadores. (...) Um novo Sumário dos Erros Modernos e uma encíclica antimoderna (1907), na verdade, um “juramento antimodernista” (1910), de várias páginas” foi imposto a todo o clero. Pio X pretendia erradicar os modernistas de uma vez por todas. (Hans Küng. Ibid. p. 215).
Nesta altura, depois de refletirmos sobre as controvérsias de Gustavo Corção na sua época – e que hoje nos parecem excessivamente supervalorizadas, e um tanto obsoletas - poderíamos, com uma pitada de humor, inserir aqui um conselho de Santa Teresa, a Grande, Doutora da Igreja, às suas coirmãs do Mosteiro de São José da cidade de Salamanca, que seria de proveito a todos os escritores católicos:
- Filhas, não deixeis de consultar quem tenha letras e assim achareis o caminho da perfeição com discrição e verdade. Precisam muito as preladas, se querem desempenhar-se bem do seu ofício, confessar-se com um letrado (, se não, farão muita asneira pensando que é santidade) e procurem também que as freiras se confessem com quem tenha letras. (Obras Completas de Santa Teresa. 2 ed. Aveiro, Edições Carmelo”, 1978. Livro das Fundações.Cap. XIX. Ibid. p. 1086).
Talvez esse conselho de Santa Teresa talvez servisse,não só para os escritores católicos, mas até para os membros da hierarquia eclesiástica!
B)       Corção foi um indivíduo contrário a novas idéias.
O escritor, sem dúvida, opôs-se a quase tudo que estava se desenvolvendo, ou – em termos mais precisos, a quase tudo que estava evoluindo no Catolicismo, na sua época.
Penso que não vale a pena esmiuçar suas brigas contra tudo e todos. Ele atacou os movimentos sociais, em especial o Progressismo Católico.
 Nessas  investidas, em particular, cometeu  destemperos de linguagem:
Um exemplo:
- Por ingenuidade e falta de leitura das revistas européias (já que o tempo disponível era todo aplicado em matéria perene), eu não sabia que em Paris nos anos 40 o progressismo já relinchava e defecava livremente nos meios católicos. (Conversa em Sol menor. p. 216).
Outro exemplo:
- Dois ou três bispos franceses não sabem falar dez minutos sem usar o termo “um mundo em  mutação”. Se mutação houve, estou inclinado a crer que foi naquele ponto a que atrás aludimos: os idiotas que antigamente se calavam estão hoje com a palavra, possuem hoje todos os meios de comunicação. O mundo é deles. Será genético o fenômeno e por conseguinte transmisssível? – Receio muito - gemeu a voz de meu amigo – Você não leu os jornais da semana passada? – O quê – perguntei com a aflição já engatilhada.- A descoberta do capim. Não tinha lido tão importante notícia, e o meu amigo então explicou-me: um sábio, creio que dinamarquês, chegou à conclusão de que o capim é um dos melhores alimentos do homem. Meu amigo não me explicou que se tratava do Homo sapiens, do Everlasting Man, de Chesterton, ou do Homo Postcnciliarius. Seja como for, dentro de quatro ou cinco anos teremos a humanidade de quatro e espalhada nos pastos. (Conversa em Sol Menor. p. 321-322).
Tudo isso é aparentemente jocoso, muito engraçado, porém, em termos de responsabilidade ´e até de linguagem – é deplorável. Dirigir-se assim aos bispos, e a outros irmãos na fé, em jargão tão achatado, não se tolera num escritor católico!
Noutra passagem - esta do seu livro Século do Nada – Corção lembra-me a história do moleque carioca de Manuel Bandeira que, a uma provocação do poeta, não lhe deu confiança, e alfinetou o grande poeta:
- Não fala bobagem, seu Manuel Bandeira!
(Manuel Bandeira. Seleta de prosa. 5 impressão. Org. de Julio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1997. p..291).
Se não, vejam! Gustavo Corção escreve:
- Emprestando ao Papa o binômio bernanoseano (o escritor refere-se a George Bernanos) ele, Pio XI de gloriosa memória, sabe que entre a merda e o sangue, é melhor aceitar o sangue.
(O Século do Nada. p. 254).
Não, não é possível que um escritor de valor se rebaixe a tal estilo!
Admirar-se-á, pois, alguém de que, no fim de sua vida, Corção tenha sido objeto de desdém e picuinhas da parte de seus leitores? Um deles enviou-lhe uma carta que começava com esta exórdio de péssimo gosto:
- Prezado cadáver...
Outro , mais insolente ainda, chamou-lhe
-Vossa Santidade!...
(Conversa em Sol Menor. p. 338).
Tudo isso poderia ter sido evitado se Gustavo Corção não fosse, realmente, um reacionário, e se tivesse compreendido, a tempo, que a obrigação de um católico, sobretudo de um escritor católico, é ter sempre diante dos olhos a sentença de Jesus: A verdade vos tornará livres -  e jamais levar-se demasiadamente a sério.
Valem, também, para o escritor católico as palavras que Lucas cita em seu Evangelho, no capítulo 7, versículo 32, em que Jesus se dirige aos fariseus e doutores da lei:
- A quem, pois, compararei os homens desta geração, e a quem são semelhantes? São semelhantes aos meninos que, assentados nas praças, falam uns com os outros, dizendo: tocamos flauta, e não dançastes, entoamos lamentações, e não chorastes.

Conheci um grande escritor: Gustavo Corção.

                 
                      I. Um debate tempestuoso sobre Teilhard de Chardin.
Mil (e um) brasileiros já disseram, mas não é demais redizer o que é considerado uma verdade - até pelos brasileiros que não nasceram: somos um povo sem memória. Um povo-nescafé, de memória instantânea. Deita-se uma colherinha na xícara, o café é misturado à água ou ao leite, bebe-se o café, pronto. Não existe mais nada.
Já que me dispus a falar sobre um grande escritor, que era, também, um católico de fibra, posto fosse um indivíduo “fanatizado” por suas próprias verdades...ilustremos a falta de memória nacional com um incidente ocorrido com o próprio escritor, e descrito por ele, com insuperável humor, no livro Fronteiras da Técnica (Rio de Janeiro, Editora Agir, 1963. P. 86):
-Num depoimento já antigo tive ocasião de descrever, num capítulo que intitulei “O meu próprio cadáver”, esse microcosmo fechado onde o técnico se inebria de realizações. Contei, como vivendo entre fios, válvulas e galvanômetros, achei-me num certo dia sem saber o nome do Presidente da República. Apesar de inverossímil, isto aconteceu. Uma tarde, não sei como veio-me a dúvida cívica no meio de uma experiência. Larguei no descanso o ferro de soldar e entrei em casa, quase correndo, para perguntar à primeira pessoa que encontrasse – e que no caso foi um cozinheiro chinês – quem era o Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil.
Advirtamos: se Corção tivesse vivido na nossa última década, não teria esquecido o nome do nosso mais recente Presidente! Não que eu ache Lula digno de ser esquecido, embora a maioria de seus colegas dificilmente obtenham, anos afora, recordações estáveis! O caso é que Lula nasceu – não com o lunar bendito de Sepé, o São Sepé dos gaúchos, mas com o lunar nordestino, que pode ser considerado como um carisma cristão. O carisma de Lula foi o da verdadeira popularidade e, também, o da arte difícil, complexissima, que os nordestinos em geral possuem, a de serem os  melhores  marqueteiros de si próprios. Estou citando, é claro. Não me exijam o nome do amigo que me disse isso, porque lhe prometi, sob juramento, que jamais o revelaria, mesmo que fosse intimado a tal revelação por Sua Santidade, o Papa Bento XVI.
 É provável que a afirmação do meu sagacíssimo sociólogo amador não seja verdadeira! Consultando, com efeito, a opinião de outros amigos, fui acumulando exemplos de idêntica marqueteria em todo o território nacional. Para dar alguns exemplos: em São Paulo ( Paulo Maluf, José Dirceu, Quercia); em Minas Gerais (lembram-se do simpático e ágil mediador entre os Bancos e os Mensaleiros da Câmara Federal?); na Bahia (poderá alguém esquecer a deliciosa água de coco da nobre Bahia, e seu velho cacique ACM?). Creio que existem marqueteiros  no Acre, e na Ilha de Marajó, ainda que esta ilha não seja Estado,e que nela habitem, prioritariamente, magníficos búfalos.
Dir-me-ão os  leitores: mas o Corção, esqueceu-o?
Vamos a ele!
 Foi em 10 de julho de 1963. Lembro a data por um simples acaso: a dedicatória que o escritor dignou-se caligrafar (a letra dele era bonita!) sobre um exemplar do livro citado. Ela ainda está lá, na sua esplêndida e afetuosa legibilidade. Uma espécie de lema para minha vida de escritor:
- Ao A.T. em lembrança de uma conversa animada pelo amor da verdade.
                Pelo amor da verdade!
Sim, tinhas razão, querido e venerado amigo! Estávamos, então, realmente animados pelo amor da verdade. Só que esse amor se encontrava na penosa situação de uma boneca de pano disputada por duas irmãs em briga.  
Nossa discussão não foi um debate, foi uma discussão. Recheada de socos imaginários, de canelaços filosóficos, de tapas  emotivos. Irritadíssimo, porque eu defendia, com unhas e dentes, o famoso paleontólogo e visionário jesuíta, P.Teilhard de Chardin, o grande Corção perdeu as estribeiras. Desconcertado, não menos que ele, eu brigava como um guri enfurecido, porque o escritor não me abria, nem sequer o postigo de uma janela de sua casa, para que eu pudesse jogar-lhe no assoalho da  casa uma página, um trecho comovedor que fosse do livro de Teilhard.
 Não me recordo, até, se à falta de outros argumentos não recorremos à foice, à gadanha, e outros instrumentos agrícolas cortantes... Foi uma briga de favela, em que dois católicos, ajustados previamente sob um pacto de luta incruenta, se digladiavam no campo das idéias. Briga feia.
No fim, exaustos como dois cachorros em dúvida sobre o vencedor da disputa, cada um  foi para um lado, rosnando com o seu osso. ficamos a nos olhar quase de soslaio...
À distância de 48 anos incompletos, rememoro essa não-memorável cena! E me arrependo. Sim, me arrependo, retroativamente, da minha pseudo-segurança, de ter esbanjado tanta adrenalina por tão pouca percentagem de massa cerevral...Se tivesse sobrado um vídeo desse debate moleque, aplicar-lhe-ia, hoje, o furor de uma tesoura.
Naquela época, municiado pela emoção, eu exibia certezas que já não tenho. Não que eu tenha mudado de opinião – entendam-me - a respeito da obra de Teilhard, O Fenômeno Humano, livro que tive a gentil ousadia de oferecer aonosso excepcional poeta, Carlos Drummond de Andrade, que se declarava ateu, ou antes, como ele me explicou,que era agnóstico.
O livro de Teilhard continua bom, embora não seja lido hoje a não ser por retardatário de um século tão veloz e fútil como o nosso. O problema é basicamente outro: no momento da discussão, eu não sabia que a verdade - qualquer verdade humana nanica - que caminha à sombra daverdadeira Verdade, a que se dignou nascer de uma Virgem, sempre fala baixo. Fala desculpando-se de ter razão. Fala com a doce e transparente  segurança da pedra e da água, que não precisam auto-afirmar-se  para serem o que são: dois elementos fundamentais para a vida dos homens. Inclusive a pedra, que iria tornar-se, mais tarde, a pedra do Pedro das chaves de Cristo.
 Ensinado pela vida, preocupo-me hoje em não cair (a advertência primeira foi de Machado de Assis), não só das nuvens, mas até do primeiro andar do edifício onde moro. Aprendi, refletindo sobre a malograda discussão com o Corção, que toda humildade é pouca. A minha, quando por acaso existe, a surpreendo sempre, para minha vergonha, encolhida como um gato, no mais  vazio de minha alma...
Voltemos a Corção: à distância de 48 anos incompletos, sorrio de minha...insensatez!
Digo de mim para mim:
- Diante de uma personalidade como Gustavo Corção, eu deveria ter ficado calado,caladíssimo, mesmo sabendo que ele não tinha razão em tudo. Talvez tivesse  aénas 1/3 de razão.! Mas ele era Corção, e tinha um mundo para me dizer.
Repito: nossa briga foi feia.
Chegou um momento em que, constrangidíssimo, tive de informar-lhe que eu precisava voltar à casa do casal de amigos que me hospedavam no Rio de Janeiro.
Corção, após indagar pelo endereço de meus amigos, observou, com súbita e viril doçura:
-Terei muito prazer em levá-lo até lá!
Protestei, dizendo-lhe que apanharia um táxi, que...
O escritor manteve-se irredutível. Daí a minutos, dirigiu-se à garagem, tirou o carro de dentro dela... um fusca! Sim, o carro dele era um fusca, de segunda mão.
 Convidou-me a sentar ao seu lado, e lá nos mergulhamos no inferno enlouquecido dos decibéis do Rio, o Rio daquelas eras, que ainda era – convenhamos - o dos bons selvagens de Rousseau.
A viagem até à residência de meus amigos foi noutro tom: o de irmãos apaziguados. Corção dirigia com perícia, talvez com excessiva velocidade para um matuto de Santa Maria da Boca do Monte.         
Depois chegou a hora da despedida...
Caros amigos, adivinhem como foi!
 Eu não devia contar nada. Mas conto. Para a glória de meu saudoso amigo!  A discrição reservar-me-ia momentos de maior saboreio para a memória, já que a guardei durante anos só para mim. Afinal, a memória estava na adega dos bons vinhos, dos que costumam envelhecer no silêncio e na penumbra das cantinas, guardando, porém, o aroma dos vinhedos ao sol.
Sem dizer água vai, o escritor desceu, abraçou-me, com aquele abraço sem subentendidos dos irmãos de sangue que se amam com sangue e alma, mesmoquando brigam com certa  frequ}ência, e se desentewndem em política, e me disse, com acento de inegável grandeza:
- Sou um  chato... Às vezes, me empolgo, e dá nisso. Esqueça, esqueça, Trevisan! O principal é que somos irmãos na fé! Não esqueça: é o que importa!   
Abraçou-me, outra vez, subiu no fusca, e sumiu no sempre enlouquecido trânsito do Rio de Janeiro.
II.       Quem foi Gustavo Corção?
 Abro a História Concisa da Literatura Brasileira, escrita por um amigo que admiro sem restrições, o  ex-Professor da USP, Alfredo Bosi.  Minha edição é a segunda, sexta impressão (São Paulo, Editora Cultrix, 1976). Corro os olhos pelo “Índice de Nomes” da obra, que já li no mínimo três vezes,  pela simples razão de considerá-la a melhor história da literatura nacional em termos didáticos, e, repensando o caso, em termos também não-didáticos.
 Concisa? Nada mais exato. E de uma precisão de fuzil telemétrico! Uma história admirável pela quantidade de informações, pela clareza de critérios, pela finesse dos juízos críticos, pela radioatividade permanente da sensibilidade estética que subjaz a tudo, impedindo o autor de incidir na caipirice de donos de mercearias literárias de arrabalde.Uma história de dar inveja aos autores franceses – os melhores - do gênero, como um Philippe Van Tieghem, autor da História da Literatura Francesa, que meu querido ex-mestre português, Jacinto do Prado Coelho verteu para o português.(Lisboa, Estúdios Cor, 1955).
 Pois bem: que desagradável surpresa que me reservou o tal “Índice”?
Não figura nele o nome de Gustavo Corção!
Lá aparecem, por exemplo, Peregrino Júnior, Osvaldo Orico, Raimundo de Morais, Dalcídio Jurandir, Herberto Sales (bom amigo me deu estímulo nos primórdio de minha carreira de escritor), Amando Fontes, José Condé, João Clímaco Bezerra, Permínio Ásfora, Lourdes Teixeira, Darci Azambuja – o do Pampa (contista de No Galpão),Ciro Martins (obrigatório para quem quiser saborear a melhor literatura regional – e universal – do Rio Grande do Sul, com sua Trilogia do Gaúcho a Pé).
Não preciso dizer que o Prof. Alfredo Bosi não esqueceu nenhum de nossos clássicos: Erico Verissimo, Dionélio Machado, Ivã Pedro Martins. Agora, uma surpresa: lá, também,encontrei, dormindo provavelmente sua sesta debaixo de um guarda-sol praiano, o catarinense Guido Wilmar Sassi, romancista e contista nascido que desconheço. Talvez ele seja um bom, um grande escritor! A informação sobre sua condição de romancista, e contista, eu a catei na Enciclopédia de Literatura Brasileira (Volume I, sob a direção de Afrânio Coutinho e J. Galante de Souza. 2 ed. São Paulo, Global Editora,2001. p. 1464).
Para evitar malentendidos, esclareço: não implico com nenhuma presença - das incluídas pelo Professor Bosi na sua História; implico, porém - e muito! - com uma ausência: a de Gustavo Corção.
 Faço questão de informar que, neste momento, a História Concisa do Prof. Bosi já está na sua qüinquagésima edição nacional.
Parabéns ao Brasil!
Depois de abeberar-me, portanto nas fontes cristalinas do docente universitário da USP, apelei para as luzes da scholar italiana, Luciana Stegagno-Picchio, recentemente falecida.
 Tive o privilégio de conhecer, em Roma, essa grande Dama da História da Literatura Portuguesa e Brasileira. Mulher amável, lúcida, de uma erudição espantosa. Incrível a acuidade crítica dessa mulher, sua capacidade de enfiar a linha no buraco mais fino de uma agulha...
Perdoem-me, leitores, é que me lembrei, inoportunamente sem dúvida, do conto de Machado de Assis, o famoso Um Apólogo, com aquela birra engraçada entre a agulha e a linha...a qual linha, humilhada, acabou indo ao baile no corpo da baronesa,ao passo que a agulha orgulhosa foi para a caixinha da costureira...
Não me privo de assestar um pouco mais os holofotes na Professora Luciana: ela foi colaboradora de Roman Jakobson,grande amiga de Murilo Mendes, escreveu mais de quatrocentos ensaios ou artigos, em sua maior parte dedicados às literaturas de língua portuguesa, traduziu Fogo Morto de José Lins do Rego para o italiano, foi convidada, pelos coordenadores da conhecidíssima coleção Que sais-je das Presses Universitaires de France para compor o volume La Littérature Brésilienne (1981).  
 Folheio a obra magistral da Professora Luciana, indispensável em qualquer biblioteca brasileira que se preze, a História da literatura Brasileira (Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 1997). Pois bem, esbarro em apenas três citações do autor de Lições de Abismo: na primeira,Corção é lembrado no rabinho de uma frase:  “até os metropolitanos Gustavo Corção e Nelson Rodigues, unidos pela mesma paixão reacionária.”(p. 543). Na segunda, emerge a cabecinha de um elogio: “O romance de ambiente urbano, além da isolada, patética introspecção do carioca Gustavo Corção (1896-1978), tem os seus expoentes mais interessantes no paraibano Ascendino Leite, no carioca Macedo Miranda, e no mineiro Geraldo França de Lima, atentos observadores da vida nas cidades do interior”(p. 633). A terceira citação é uma nota biográfica, do tamanho de uma cenourinha...(p. 666).
 Fiquei arrasado!
 Como? Então um escritor do gabarito de Gustavo Corção, um dos maiores estilistas da língua, romancista e ensaísta original, traduzido na Holanda, na Alemanha, na Inglaterra, na Espanha, na Itália, é aviltado assim pelo ensino universitário?
Cheguei à conclusão de que é mau destino ser escritor no Brasil! Melhor ser político, executivo, cartola, jogador de futebol, cangaceiro - como Lampião - na pior das hipóteses, rinoceronte de zoológico. Há muitos brasileiros que ainda não esqueceram Cacareco! Ele mereceu uma crônica de Manuel Bandeira, incluída na coletânea Andorinha, Andorinha (2 ed. Rio de janeiro, José Olympio, 1986. p.360).
Por falar em... Manuel Bandeira!
Quanto te deve a cultura nacional, ó Poeta! Tu sempre nos salvas, em qualquer circunstância, tu que, com teus Sapos, da coletânea de poemas  de 1919, nunca coaxaste em nenhum charco, mesmo nos  mais cultos, evoluídos e suntuosos da literatice nacional.  Nunca te enfeudaste nem à  Direita, nem à  Esquerda. Só isso explica que tenhas tido a coragem de escrever uma Carta a Mestre Corção, que publicaste no teu Andorinha, Andorinha (p. 11). Gostaria de transcrevê-la na íntegra, para regalo dos leitores. Ali, com fidalguia superior, te penitencias de não ter incluído, na quinta edição de tuas Noções de História das literaturas, uma análise, mesmo sumparia, de Gustavo Corção.
Modesto Manuel! Genial Manuel!
Confessas:
- A princípio não quis acreditar. Procurei tranqüilizar-me pensando comigo que a omissão se teria verificado no índice onomástico. Folheei nervosamente as páginas consagradas à nossa literatura contemporânea: tanto nome encarreirado, um que outro bem dispensável. Deus me perdoe, alguns nomes que nada ou pouco admiro, mas que são admirados por muita gente, até uns tantos meus rancorosos desafetos, este ou aquele rapaz de talento promissor ainda em estado larvar...e você ausente! Você, a quem tanto admiro, estimo e respeito desde que li Lições de Abismo, você que em seus artigos de jornal, sempre tão vibrantes de idéias e sentimentos, me tem tratado mais de uma vez com cativante generosidade... Estou envergonhado, estou desesperado, estou verdadeiramente de cara no chão...(...) A ausência de seu nome no meu livro será o meu remorso de todos os dias.(Ibid. p. 11-12).
Em 1978, um grupo amigos, liderados por Paulo Rodrigues, resolveu enfeixar numa coletânea uma série de artigos do Mestre, a que deram o belo título de Conversa em Sol Menor (Rio de Janeiro, Editora Agir, 1980). Nessa coletânea tive a sorte de encontrar uma crônica que Oswald de Andrade publicou no carioca Correio da Manhã, intitulada: “Telefonema – Corção”.
Leiamos, pois, Oswald de Andrade que de algum modo indeniza Gustavo Corção da altivez e indiferença de nossos estudiosos:
- Não me lembro de em toda a minha vida ter conhecido, entre artistas e literatos, uma figura tão impressionante como a de Gustavo Corção. Privei com Inglês de Souza que era meu tio, conheci de perto João Ribeiro, Alberto de Oliveira e o nobre Emílio de Menezes. Fui íntimo de Villa-Lobos e Mário de Andrade. Na Europa me liguei a Picasso e Léger, Cocteau e Cendrars, a esse orignal e magnífico Valéry Larbaux, a Supervielle e Romain, enfim a toda uma geração revolucionária do começo do século. E apenas com outro tom, mas com doçura sarcástica, alguém, que me lembrou o autor excelso de Lições de Abismo. Era um velho de 70 anos e tinha sido cruelmente abandonado por todos os seus amigos, quando o encontrei no Quartier Latin. Chamou-se Erik Satie. E talvez venha a ser um dia considerado o maior gênio musical do século XX. O que caracteriza essas naturezas que vão do doce ao amargo sem contraste é o que nelas há de inquebrável. Gustavo Corção é um inquebrável – faca de dois gumes. E isso muito se liga a virtudes intelectuais que o fazem sem dúvida o nosso maior romancista vivo. Nas Lições de Abismo como também em A Descoberta do Outro não vejo concessões. O que vejo é uma extraordinária e lúcida natureza de criador, ou melhor de restituidor, pois que arte é restituição. Depois de Machado de Assis aparece agora um mestre do romance brasileiro”.(Ib. p. 137-138. Os negritos são nossos).
                Concordo com Manuel Bandeira e Oswald de Andrade em tudo o que eles escreveram a respeito de Gustavo Corção.
 É inaceitável num país como o nosso que não tenhamos ainda aprendido a separar as opções ideológicas do legado artístico. Trata-se de dois hemisférios, que com certa freqüência se repelem. Que tem a ver com a arte de Wagner o seu nojento antisemitismo? Que tem a ver com a verve de Nelson Rodrigues o seu efervescente e antipático reacionarismo? E o reacionarismo de Jorge Luís Borges, que lhe nocauteou, provavelmente, o Prêmio Nobel? Deixaremos de ler escritores esquerdistas por serem esquerdistas? Deixaremos de ler os ateus ou agnósticos, por serem o que são?
Continuo, como católico, a apreciar Voltaire, e tenho por alguns  agnósticos paixão especial. Aprecio, por exmplo, Émile Michel Cioran, embora lhe rejeite a cosmovisão, Considero-a. até, supervalorizada, no que se refere à sua qualidade puramente filosófica. Mas que expressão literária, que  humor corrosivo e oblíquo, que desmontagem milimétrica, sem outro exemplo que se lhe compare na literatura contemporânea, da presunção humana, de suas ilusões, das opulências de vento da vaidade dos homens! É de deixar atônito qualquer leitor internacional.   
A realidade é que há enxames de católicos chatíssimos, de ateus e agnósticos chatíssimos,de e esquerdistas e direitistas mais chatos ainda!
                A arte literária não depende só, nem principalmente, da mensagem do autor! O conteúdo da mensagem pessoal situa-se noutro patamar. O autor, como escritor, deve ser avaliado pelo que soube fazer com a linguagem, e com a memória e o imaginário do idioma a que pertence. Numa palavra: pelo seu estilo. Dizia Buffon: Le style est l’homme même.( O estilo é o homem).
Este pode ser maravilhoso, ou chinfrim. A poesia de Dante não depende, essencialmente, de sua mensagem cristã. Para sorte do catolicismo, Dante foi um grandíssimo Poeta –talvez  o Maior que já houve. Já imaginaram um Dante, que carregasse nas costas toda aquela filosofia e teologia , sem perfumá-la com sua altíssima poesia?  Seria o Chato-Maior. Agradeçamos a Deus não só sua filosofia e teologia, aprendida nas escolas de Firenze, mas seu gênio poético, que não foi obra só de seus mestres,  mas incompreensível dom de Deus!
                Digamos, agora, sem mastigar as palavras: Gustavo Corção foi, e continua a ser, detestadíssimo pela Esquerda brasileira.
 De resto, fez por merecer essa raiva.
Não faz muito, por ocasião de uma Feira de Livro interiorana, da qual eu era Patrono, perdi um peixe maravilhoso, especialidade do restaurante local, por ter, lá pelas tantas, recordado uma historiazinha de Corção... Santo Deus! Um dos convivas, do grupo oficial que me oferecia o jantar, esquerdista ressentido, roubou-me o jantar. Perdi o peixe...creio que uma traíra à moda da casa, o sono na noite que se lhe seguiu, e minha esperança de que a Esquerda Brasileira se despeça algum dia de sua incurável soberba...  
Pensemos na exclamação de Manuel Bandeira, após uma discussão sobre cinema, na qual o próprio poeta se portou, segundo sua confissão, “como um quadrúpede”:
-  Brasileiro não sabe discutir.
 (Seleta de Prosa. Quinta impressão. Org. de Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1997. p. 246).

III.                Descubramos um Grande Escritor!
                Espécie de guerreiro do pensamento cristão, enfurecido polemista católico, Corção “faleceu no dia 6 de julho de 1978, em sua casa no Cosme Velho. Morreu dormindo suavemente, de olhos e boca fechados”.
É assim que um amigo íntimo do escritor descreve o passamento do escritor.
Alegro-me que Deus lhe tenha concedido tal graça. No fundo, Corção era uma flor de cacto que teimava em valorizar os endiabrados espinhos que a cingiam. Uma alma nobre, de sensibilidade excepcional, um pássaro, nascido para cantar, mas que teimava em usar o bico para bicar o que quer que fosse.
Isso diz respeito, porém, apenas ao seu temperamento.
A sua trajetória pessoal é curiosa. Nasceu dentro de um colégio, o de sua família. Filho de professores, cursou a Escola Nacional de Engenharia, diplomando-se em 1920. A seguir, foi trabalhar em Mato Grosso, na bacia do Rio Paraná, onde fez levantamentos de solo e astronomia de campo. Regressando ao Rio, na sua condição de engenheiro, dirigiu empresas de energia elétrica no Rio de Janeiro e Espírito Santo. Posteriormente, tornou-se Professor da escola Técnica do Exército e da Escola Nacional de Engenharia, no setor de Telecomunicações.
Segundo o editor de Corção, o escritou registrou os seguintes inventos: um órgão musical eletrônico; dispositivos especiais para repetidores telefônicos; um sistema de telegrafia multiplex com frequências combinadas.
Já maduro, o engenheiro enveredou para a literatura. Aliás, o ofício de escrever apareceu nele, também, como uma exigência de sua conversão ao catolicismo. Materialista até os quarenta anos de idade, entrou em crise, em 1936, ao perder sua primeira esposa. Esse período marcou sua aproximação com a Igreja. Conheceu, então, as obras dos grandes pensadores e teólogos católicos, entre os quais Gilbert K.Chesterton, Jacques  Maritain, Karl Adam, Léon Bloy, George Bernanos, Romano Guardini, Dom Columba Marmion. Freqüentou os religiosos do Mosteiro de São bento, e em 1939, aderiu definitivamente ao catolicismo. Daí por diante, alternou sua vida de engenheiro com sua militância literária, que resultou em ensaios, num único romance, Lições de Abismo, que recebeu o Prêmio da UNESCO em 1968, e em inúmeras livros de crônicas (escritas para revistas e jornais).
As principais obras publicadas por Corção são as seguintes: A Descoberta do Outro (memórias, 1944); Três Alqueires e uma Vaca (ensaios, 1945); Lições de Abismo (1952); As Fronteiras da Técnica (ensaios, 1956); Dez Anos (crônicas, 1957); Claro-escuro (ensaios, 1958). Publicou, também: Dois Amores, Duas Cidades (1967); O Século do Nada (1973).
Que pensar da produção literária de Corção?
Gustavo Corção merece ser removido, de uma vez,  da câmara frigorífica em que o puseram seus inimigos.  Os inimigos de Corção são de dois tipos: os intelectuais marxistas, e os católicos progressistas (assim eram chamados, antes de o rótulo envelhecer).
Repitamos um reparo anterior : a partir da Pseudo-Revolução de 1964 – Corção radicalizou  suas posições. Como a Ditadura Militar coincidiu, em parte, com a Renovação Católica e a Teologia da Libertação, o escritor colocou  a Esquerda e a Teologia da Libertação no mesmo saco – um saco de gatos evidentemente –  e não cessou mais de protestar, de ironizar, de agredir. No furacão em que se envolveu, e se viu envolvido, achou jeito de tentar levar a um paredón imaginário o adversário mais poderoso que o enfrentou,  Dom Helder Câmara.
Acompanhei tudo isso, hélas!
O Correio do Povo, de Porto Alegre, divulgava suas crônicas semanais no Rio Grande do Sul. Elas eram propaladas aos quatro ventos pelo O Globo, O Estado de São Paulo, Diário de Notícias, A Tarde, e toda uma cadeia de jornais. O escritor malhava implacavelmente o que lhe parecia criticável.
É a parte mais débil de sua produção literária.
Quem terá paciência, hoje, de ler as crônicas que publicou sobre disputas intelectuais, teológicas, ideológicas, etc. nesse período assas longo de nossas trevas?Não obstante, mesmo essas crônicas merecem ser lidas. Por uma única razão: Corção escreve bem. Escreve magnífico. Chega a lembrar o melhor Machado de Assis!
É claro que o Corção imortal, o Corção pelo qual estou batalhando,  não está nessa produção, de altos e baixos, de lances eventualmente cômicos, de clareiras de agudeza e penetração psicológico-sociológica, de  estilhaços de ironia, ou borrifos do mais sutil humor...Tais crônica, não raro, estão impregnadas de lirismo memorialístico, de um matiz religioso do mais bizarro valor.
É preciso, porém,ir atrás do há de “genial” nele: Três Alqueires e uma Vaca, por exemplo, é um dos melhores ensaios da literaturas brasileira. Um ensaio fulgurante! Tão bons quanto o citado, são os de  As Fronteiras da Técnica e O Desconcerto do Mundo.São coletâneas que contêm páginas do que de mais inteligente se escreveu no Brasil, e principalmente, do que de mais sensível se produziu entre nós.
Três Alqueires é, além do mais, de início ao fim, um show machadiano de língua portuguesa! Creio detectar, por vezes, detectar nesses ensaios um não sei quê de camoniano, passagens que se reportam aos  versos do autor dos Lusíadas, como:
- Enfim, nestes cansados pensamentos
passo esta vida vã, que sempre dura

Ou (também de Camões):
-Tem o tempo sua ordem já sabida:
o mundo não; mas anda tão confuso,
que parece que dele Deus se esquece.
Casos, opiniões, natura e uso
fazem que nos pareça desta vida
que não há nela mais que o que parece.
Dada ao carácter excepcional da obra de Corção, façamos alguns comentários mais detalhados sobre três obras de Gustavo Corção., suas obras-primas sem contestação.
A)      1944: A Descoberta do Outro.

É um livro de memórias, uma sorte de autobiografia que se desbobina diante do leitor, não com a precisão factual de anedotas ou puros episódios, mas com a precisão das idéias e sentimentos que o autor vivenciou, e disseca impiedosamente. Corção não está interessado na espuma da vida, nas cocorrências  que passam; Está interessado em apanhar, numa espécie de ratoeira, a polpa dos fatos. No fim. É verdade,a tapeçaria revela, sem dúvida, a paisagem de sua vida concreta, com a morte da primeira mulher, a morte do pai, e outras circunstâncias dramáticas.A abordagem, porém, de Corção, é na linha de Roentgen: a ossatura que não aparecia, o esqueleto oculto das coisas, agora aparece.
Se alguém desejar dois exemplos dessa maneira nova - no Brasil ao menos - de praticar o memorialismo, remeto-o, primeiramente, ao capítulo intitulado Close Up,,em cuja saleta o escritor foi buscar um certificado de reservista. A descrição dos três personagens que lá encontrou vale o livro inteiro!
Leiamos:
- O tenente Lino era magro sem exagero, mais seco do que magro, com esses traços finos e esticados que logo dão pena. Cortesmente deu-me uma cadeira, tratando-me de professor, e mergulhou nos seus papéis.
- O sargento batia na máquina como quem se desforra; quando errava alguma letra, soltava um palavrão surdo, suficientemente surdo por causa da disciplina, e suficientemente palavrão por causa da sua virilidade e de suas perneiras. Esse sargento tinha um rosto comprido, cavalino e esverdeado. Um certo langor nos olhos permitia que seu nome fosse Eulálio.
- As botas do capitão Rocha, de tempos em tempos, mudavam de posição por debaixo do tabique. Era excelente pessoa esse capitão Rocha! Poderia prová-lo se abrisse outro capítulo para uma história especialmente dedicada ao capitão Rocha: neste agora aparecem-lhe somente as botas. (A Descoberta do Outro. 8 edição. Rio de janeriro, Editora Agir, 1961. p.35-36).
Vemos aqui o melhor Tchekov salpicado pelo melhor sal de Machado de Assis.
Retrocedamos ao capítulo intitulado O Viúvo Viu a Ave, onde o escritor narra a morte da mulher:
- Ora, foi nessa ocasião que minha mulher morreu.
Morreu moça. Levou dois meses a morrer. E passei esse tempo curvado sobre o meu caso particular. Alguém me dissera que aquela toxemia gravídica, com os progressos da medicina, conta somente um e meio por cento de casos fatais. Passei dois meses quase sem dormir por causa desse um por cento, dando-lhe água e comida como às criancinhas, cuidando das menores coisas, passando um dia feliz por causa dum defecar e logo outro acabrunhado porque o pulso subia.Vi o médico deixar cair o estetoscópio em cima da cama e ficar olhando pela janela, pensativo. Quando me aproximei ele disse:
 - Bonito flamboyant!
Olhei também; era no vizinho em frente. Era bonito mesmo. Num dos galhos mais altos estava um passarinho. Lembrei-me de minha cartilha que na segunda ou terceira página dizia assim: “O viúvo viu a ave”. Durante algum tempo fiquei remoendo estupidamente esse fenômeno lingüístico pelo qual eu seria um viúvo. Achei esquisito e repulsivo o vocábulo. O médico então explicou-me, com termos caridosos, que o meu caso particular estava entrando devagarzinho naquele um e meio por cento, e pondo a mão no meu braço, de leve, com cerimônia, falou-me em Deus.
Viveu ainda uns vinte dias. Uma tarde fui para o quintal e sentei-me num banco, embrutecido. Olhei o sol que se deitava por trás da casa do coronel. Lá ia o sol. O sol era um milhão e quatrocentas mil vezes maior do que a Terra; a Terra, com seus quintilhões de toneladas, era um grão de areia perdido dentro duma enorme galáxia. Acordei de meus cálculos astronômicos pensando na minha doente desenganada. Era um caso particular, um ínfimo caso particular metido no universo e no tempo. Pensei no materialismo histórico; e senti de repente um calor de vexame no rosto. Olhei em volta com receio que me tivessem visto o pensamento. Senti, como ainda hoje, quando me lembro, um vexame intenso.. Haverá decerto coisas mais graves, ações muito mais sérias, de piores conseqüências, mas não há nada mais persistente do que a lembrança duma gafe.Tudo aquilo, as discussões, os sistemas, tinha sido uma gafe (...)
Se isso não é literatura, e grande literatura, então não sei do que estamos falando.
Repito: é inaceitável que nossos historiadores da literatura tenham desterrado Corção de seus inventários apressados, ou excessivamente subjetivos.
Pior para eles!
Dá-me vontade de torcer aquela frase maldosa: “O resto é literatura”, para que se retorça nestoutra: “O resto não é literatura”!
Fico por aqui, caso contrário, teria que trazer à mesa do joalheiro muitas jóias.

B)      1945: Três Alqueires uma Vaca.
Alguns de meus amigos acham que essa coletânea de ensaios constitui o ápice estilístico de Corção!
 Prefiro não me pronunciar a respeito. É, indiscutivelmente, uma coleção soberba de comentários à obra de Chesterton, um exercício de dialética intelectual e existencial único em nossa literatura, pobre em vôos de humor e de dialética.
Tudo nesse livro é cintilante. Vejamos um trechinho, extraído da coletânea como outrora se extraía de um chapéu os números sorteados das rifas paroquiais:
        - Há escritores (ai de nós!) cujo maior título é uma pontualidade ou uma atitude: estar escrevendo, Vivem num particípio presente que não participa de um presente. Estão na literatura como os generais na ativa. Reformados, vai-se-lhes o prestígio; mortos, fica um registro nos almanaques e outro na sepultura. Há no mundo dois mundos, um de pedra e outro de neblina: geologia e metereologia. Na literatura há também montanhas e brisas. Os livros que encontramos são na maior parte, como as correntes de ar; e sua leitura tem a brevidade e o enfado de uma gripe. Leu-se, sofreu-se; acabou-se.
(6 edição. Rio de janeiro, Editora Agir, 1961. p. 14-15).
Se Voltaire resolvesse tirar uma temporada de fériasd nalguma praia brasileira, para poder escrever sobre nós, ou uma temporada carioca, para desintoxicar-se de seu excesso de “razão imperturbável”, renunciando um pouco à sua “sabedoria infalível” (como a qualifica Lucien Febvre, em seu Michelet e a Renascença), nunca, porém, renunciando ao seu estilo insubornável, escreveria como Corção escreveu o trecho acima.
Seria um nunca acabar selecionar novos encantos dessa obra-prima de sutilezas e alfinetadas.

C)      1952: Lições de Abismo
A esta altura, torno-me enfático: leiam, senhores leitores, leiam, por favor, esse romance único da literatura brasileira! Leiam-no, sem pressa, com o respeito que é devido: ao Iracema,às Memórias Póstuma de Brás Cubas, ao Triste Fim de Policarpo Quaresma, ao Macunaíma, às Memórias Sentimentais de  João Miramar, ao Fogo Morto, ao Vidas Secas ou São Bernardo, ao Continente ,ao Ratos, ao Grande Sertão Veredas, ao Perto do Coração Selvagem,e mais alguns poucos romances que constituem a cesta básica da ficção brasileira!  
Dizia Flaubert: “Les chefs-d’oeuvre sont bêtes”! Ele queria dizer que não se pode explicar uma cereja sem comê-la! Se, por acaso, queria dizer outra coisa, peço desculpas a esse Grão Príncipe da Ficção Francesa, e me aposso de sua sentença, dando-lhe o sentido que me apraz.
 O romance inteiro de Corção é um milagre estilístico. Quanto à ficção propriamente dita, elevo-a  à mesma altura que os romances de Mauriac e Bernanos. Não sei de outro romance no Brasil que tenha tal vibratilidade vibratilidade existencial.
Como homenagem aos que me acompanharam até aqui, brindo-lhes uma única página dess e romance, que extraio  do capítulo VI, cujo título é: “A Moça do Café em Pé, de Marré Deci”:

- Entrei no café e coloquei-me, como aspirante,atrás de um indivíduo corpulento e suarento que já degustava a xícara arduamente conquistada, exibindo no punho grosso um pesado bracelete de ouro, e arqueando um pouco o tronco atlético, para não pingar café na roupa de brim claro.
(...)
Eu esperava, pois, com a ficha na mão, que o meu corpulento predecessor se saciasse de café, e me cedesse sua brecha ao pé do mármore. Atrás do balcão9, aprisionados em três metros quadrados, um rapaz e três moças multiplicavam os mesmos gestos rápidos, distribuindo louça, servindo café, recolhendo as fichas e retirando para um enorme caldeirão de água fervendo as xícaras usadas. Foi então que reparei na minha rosa trigueira e frustrada. Era a do meio. Acabava de ouvir alguma história engraçada do lavador, e ainda tinha um vestígio de sorriso quando me estendeu a xícara. Seria bonito o sorriso, talvez, se tudo ou quase tudo nela não fosse frustrado. Ela mesma, com seu rosto irregular, de maçãs salientes, e faces ligeiramente cavadas, seria uma bela princesa russa que os azares de uma revolução tivessem trazido para aquele humilhante ofício.
Ofício de quê?Que nome terá esse ofício de ficar oito horas em pé a distribuir xícaras com gesto de autômato? Creio que não tem nome. Receio que não tenha nome. Antigamente todos os ofícios tinham nome. A moça pobre seria costureira ou florista, e as meninas cantadeiras da Rua Santa Alexandrina cantavam assim nas noites de verão:

Eu sou pobre, pobre, pobre,
De marre, marré, marré,
Eu sou pobre, pobre, pobre,
De marré, deci...

Quero uma de vossas filhas,
De marré, marré, marré.
Quero uma de vossas filhas,
De marré, deci...

Que ofício darás a ela?
De marré, marré, marré.

Dou ofício de costureira,
De marré, deci...

Como poderíamos pôr em canto de roda a longa especificação deste ofício sem nome: moça que distribui as xícaras de café em pé, de marré, marré, marré? Mas se não tem nome a profissão, tem nome, nítido e rígido, a classificação. Ela é comerciária de marré, deci. Amanhã ou depois, ela não estará aqui, de avental manchado de café, com aquela meia-lua de organdi plissado que lhe puseram nos cabelos castanhos – diadema de servidão - ela não estará aqui a sorrir de um resto de história que o rapaz ruivo acabou de contar. Amanhã ou depois ela estará nos corredores, nas filas de seu enorme instituto. E depois se achará no meio de outros aventais, mais limpos que o seu, e terá uma cabeça grisalha encostada ao seu peito de andorinha cansada.
 - Tussa! Respire...
Porque é evidente que não irá longe. Seu rosto ainda tem força e vivacidade, deixando adivinhar o que seria, se lhe tivessem dado licença de viver. Mas o peito vazio, a cinturinha quebrada, e os braços chupados, indicavam uma quebra da harmonia do seu tipo, uma desafinação brutal que só a proximidade da morte é capaz de explicar. E eu vejo, isto é, via lá no café, enquanto esperava que me servissem, que a minha rosa trigueira não irá muito mais longe do que suas irmãs de minha jarra. Quem poderá firmar-lhe a haste frágil? A florista da Rua Gonçalves Dias, quando a flor é propensa ao desmaio, passa-lhe um arame que fica fazendo às vezes de saúde. Quem poderá firmar aquele corpinho de menina condenada a servir de croupier desse esquisito jogo com fichas e louças?
Deve ser bem esquisita a sua visão das coisas e do mundo. Ali no seu balcão, no seu plantão, ela serve...vejamos quantas xícaras. Calculemos: três ou quatro por minuto, vezes sessenta, vezes sete ou oito, digamos sete. Dá mil cento e oitenta; digamos mil. Ela serve mil fregueses por dia! (Lições de Abismo. São Paulo, Círculo do livro, 1976.133-135).
Eu teria ganas de transcrever para os leitores, também, o capítulo XII do livro, intitulado: Rosa, Rosae. (Ibid. p. 245-265).Mas se eu o transcrevesse, os leitores possivelmente desprezariam a crítica brasileira oficial que cometeu em relação a Corção!
So me resta fazer o que Paulo de Tarso fez, quando o prenderam, e ele viu que seus juízes, que lhe tinham ódio, o condenariam. Apelou para César, que estava em Roma. Faço o mesmo: já que meu admirado amigo Alfredo Bosi, e minha saudosa amiga Luciana Stegagno-Picchio não podem mais reparar a injustiça literária feita a Corção, apelo para os novos historiadores da literatura brasileira. Digo-lhes:
                - Antes que seja tarde, muito tarde , dêem a Corção o que é de Corção: um lugar de grande destaque na História da Lteratura Brasileira!