quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Que Céu? Que Inferno?

A mídia internacional, por vezes, não merece a atenção de um leitor exigente. Tem divulgado verdades estropiadas, meias-verdades, e até mentiras disfarçadas.
Embora não possamos concordar in totum com as atividades dessa inesperada - e estranhíssima - “Corte Internacional da Denúncia” ou, se quiserem, desse“Tribunal Anônimo da Infâmia”, o site Wikileaks, somos obrigados a aplaudir seus ativistas em muitas de suas iniciativas.
Vamos, porém, a um caso específico.
Diversos jornais, entre os quais o prestigioso El País, de Madrid (18 de janeiro de 2011) noticiaram que o Papa Bento XVI, complementando um esclarecimento de seu antecessor, “informou” aos fiéis do mundo inteiro que o Céu e o Inferno não são lugares físicos – entendamos:“realidades topográficas” - mas estados de consciência. Como o Papa João Paulo II não havia explicado que, entre tais estados, se incluía o Purgatório , Bento XVI decidiu completar a declaração de seu predecessor.
Analisemos tal notícia, ou antes, a forma como ela foi transmitida.
 Será que um católico contemporâneo acredita que o Céu e o Inferno são lugares?
Afirmo que nenhum católico que se preze pensará que o Céu está acima das nuvens, e o Inferno na parte mais inferior do mundo
Vou mais longe: do ponto de vista cristão, devemos minimizar as imagens da Divina Comédia de Dante, com seus patamares de condenados e demônios. São meras descrições poéticas.
Um católico contemporâneo sentir-se-á agredido por uma imprensa que não percebe o que existe de sensato nas palavras de Papa Ratzinger.  Será preciso lembrar que ele é um dos mais renomados teólogos do século XX-XXI, e que publicou obras teológicas de alto gabarito, incompatíveis com qualquer tipo de matutice  mental?
Façamos uma breve digressão. Comecemos por admitir que, em tempos passados, houve cristãos que aderiram à mentalidade da época, confundindo imaginação com razão. Supunham que as imagens dos miniaturistas e pintores da Idade Média eram “fotografias” de situações espirituais ou, ao menos, sugestões das realidades espirituais, que se convencionou em denominar Novíssimos: Morte, Juízo, Inferno, Paraíso.
Permitimo-nos, aqui, uma observação:a imaginação cristã nunca esteve à altura de sua Fé.
Eis por por que podemos fazer restrições a Dante Alighieri.
A maioria dos historiadores da literatura admite que a porção mais desinteressante – do ponto de vista literário  - da obra-prima de Dante  é OInferno. A poesia do Inferno não revela a mesma sublimidade, nem a mesma finesse  das outras duas partes. É claro que Dante possuía uma imaginação excepcional, diríamos incomparável. Isso, porém, não o impediu de cair em excessos. Suas cenografias do Inferno aproximam-se, perigosamente, de clichês atuais, que poderíamos debochadamente qualificar de hollywoodianos.  Em alguns momentos, o altíssimo Poeta incidiu em destemperos. Dou um exemplo chocante.
 Refiro-me aos Cantos XVIII e XXI Divina Comédia. O leitor brasileiro poderá, neste momento, consultar uma tradução dessa parte, realizada por Jorge Wanderley, vendida, nos últimos meses nas bancas, pela Folha de São Paulo.(São Paulo, Clássicos Abril. Volume 6. 2010.)
Leiam-se as páginas 236-242 e 267-273.
Lastimo dizer que o Poeta que mais admiro, ultrapassou todas as barreiras do bom gosto literário. Nas páginas recém-citadas, não há só literatura; há, também, lixo imaginativo. Que os leitores não se escandalizem! Descubram, por si mesmos, um Dante de uma vulgaridade inadmissível, mesmo admitindo-se que existem obscenidades que podem ser poetizadas. Tenhamos a coragem de mostrá-las ao público:

“Se estás atento, como sempre, à solta
Ao teu redor não vês que mostram dentes
E ameaçam no olhar, à tua volta?”

E ele: “Eu não quero que tu te atormentes,
Deixa que os dentes se arreganhem plenos;
Visam aos que ali fervem, tão somente.”

E à esquerda eles retornam no terreno,
Mas antes mordem a língua faceta
Que indica o mestre ao chefe. Num aceno.

O outro, em resposta, fez do cu trombeta”.
Caro leitor, não se pode mitificar ninguém. Nem Dante!
Antes de ser o que foi, um Poeta, Dante foi um homem. E um homem, como todos os biógrafos sublinham, irascível, vingativo, sob certo sentido desequilibrado. Os biógrafos notam que ele, em vida, teve poucos amigos, e que estes, infelizmente, ele quase sempre os colocou no inferno... Deixaremos de admirá-lo? Quem deixaria de apreciar uma tela de Van Gogh só porque o pintor holandês tentou matar Gauguin, e depois acabou matando-se a si próprio? Distingamos o homem e o artista. São duas realidades diversas. Do primeiro precisamos ter compaixão – como a devemos ter em relação a qualquer criatura humana. Do segundo, aproveitemos-lhe as dádivas valiosíssimas que trouxeram à humanidade.
 Voltemos, mais uma vez, porém, ao que nos interessa.
No ano passado, pudemos revisitar o Batistério de San Giovanni, em cuja fonte batismal o florentino Dante foi batizado. Pela enésima vez, surpreendi-me com as criações fantásticas do(s) autor(es) do grandioso mosaico de sua abóbada, considerado por muitos uma espécie de gatilho das futuras representações infernais da Comédia.
Se o leitor preferir outro exemplo, lembre-se de Orvieto. Na Catedral dessa cidade encontrará pinturas de Luca Signorelli (1445-1523), precursor de Miguel Ângelo, o gênio que adornou a Capela Sistina com um afresco gigantesco, O Juízo Final.
Fixar-se, pois, no imaginário católico  - mesmo no de Dante – e ironizar a crença no Céu e no Inferno, são duas atitudes que devem ser distinguidas.
O problema é outro: compreender tais dogmas.
Jesus rematava suas alocuções com uma frase: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!” Tais palavras deveriam pôr-nos de sobreaviso.
Examinemos, então, os Evangelhos. Ficamos pasmados do escasso relevo que Jesus confere neles à descrição do Inferno.
Perguntemo-nos agora: o que Ele, efetivamente, disse sobre tais realidades?
Muito pouco. Jesus limitou-se a revelar que existirá, após a morte, uma sanção dos atos bons e dos atos maus.
 Na esperança de contribuir para desfazer malentendidos, rogo que se leia o Catecismo Oficial da Igreja Católica. Na página 291 da edição brasileira (Petrópolis, Editora Vozes, 2003) encontramos o seguinte:
 Morrer em pecado mortal sem ter-se arrependido dele e sem acolher o amor misericordioso de Deus significa ficar separado do Todo-Poderoso para sempre, pela nossa opção livre. E é este estado de auto-exclusão definitiva da comunhão com Deus e com os bem-aventurados que se designa com a palavrainferno”.
 O Catecismo, a seguir, menciona algumas expressões de Jesus – geeena, fogo que não se apaga, etc. - e ajunta que “a pena principal do Inferno consiste na separação eterna de Deus”, insistindo em que os ensinamentos da Igreja sobre o Inferno são, antes de mais nada, um “chamado à responsabilidade”.
Nesse documento oficial da Igreja, o tema do Inferno ocupa apenas três páginas  num total de 831!
Acrescento que é possível que a revelação do Inferno seja pedagógica: noutras palavras, uma advertência de Jesus para que não abusemos de sua misericórdia!
No tocante às afirmações dos jornais, entre eles El País, retomada – ao que parece – de Bertrand Russel em seu livro “Por que não sou cristão”, de que São Tomás de Aquino teria sustentado que os bem-aventurados sentem prazer, no Paraíso, contemplando os padecimentos dos réprobos, confesso que nunca encontrei tal afirmação nos escritos do Santo Doutor. Mas, se me demonstrarem que ele sustentou tal ponto-de-vista, disponho-me a objetar ao Doutor Comum:
Não podemos admitir alegrias sádicas, mesmo pretensamente autorizadas pelo Criador. No Livro da Sabedoria, o próprio Criador inspirou ao autor sagrado as seguintes palavras:
(...) Deus não é o autor da morte, e a perdição dos vivos não lhe dá nenhuma alegria. Porquanto ele criou tudo para a existência, e todas as criaturas têm em si a salvação. (Cap. 1, 13-14).
Por inveja do demônio a morte entrou no mundo ...(Cap. 2, 24)
Diante de Vós, ó Senhor, o mundo inteiro é um pequeno grão de areia na balança, ou uma gota de orvalho que cai de madrugada sobre a terra. Tendes compaixão de todos, porque podeis tudo; e não olhais para os pecados dos homens, a fim de que se arrependam.
Amais tudo o que existe, e não odiais nada do que fizestes. Se odiásseis alguma coisa, não a teríeis criado. Como poderia subsistir uma coisa se não a quisésseis?  Como poderia ser conservada se por Vós não tivesse sido chamada? Poupais todos os seres, porque são obra de vossas mãos, ó Senhor, que amais a vida. ( Cap. 11,22-26).
Tais palavras desautorizam toda alegria fruída em prejuízo de um ser humano - mesmo que esse ser seja imaginado no Inferno dantesco!

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