quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O ocaso dos e-mails.

Bendito seja quem inventou o e-mail!
Porque a carta – estou falando daquela coisa arcaica e maravilhosa que,  no tempo de Cícero e Santo Agostinho, se chamava epístola (donde derivou a palavra homônima portuguesa, aplicada aos escritos de São Paulo).
Paremos por aqui, visto que as saudades brotam do coração, e podem liquefazer-se nos vossos, e nos meus olhos...         
Cartas?
Sim...cartas.
Com imenso talento literário, um brilhante ensaísta e romancista escreveu:
(...) não há carta (isto é, não havia) carta sem enigmas. Por mais corpóreo que seja o carteiro e por mais exata a noção que tenhamos de um serviço postal, a simples chegada de uma carta (ponhamos tudo no pretérito imperfeito:) era um encantamento. Pouca coisa existia melhor do que receber uma carta: quando se abria a caixa e, lá no fundo se via a vaga brancura do envelope, a impressão dominante era de um achado. E haverá coisa melhor do que achar?
(Gustavo Corção. Três Alqueires e uma Vaca. 6 ed. Rio de Janeiro, Editora Agir, 1961. p. 21).           
Por que falo de cartas?
Porque – repito – bendigo também quem inventou o e-mail!
Ah!
Mas o e-mail avacalhou-se!
 Ou antes, avacalharam-no!
Querido Poeta Manuel Bandeira:
emprego esse verbo, que aparece no teu poema “Rondó dos Cavalinhos” – embora deteste o verbo avacalhar - pois esse verbo tende a difamar um bicho, que para mim é sagrado: Já não gostava, no passado, quando se aplicava esse belíssimo substantivo Vaca para qualificar uma puta ou uma adúltera!
Vaca?
Sou mais indiano que brasileiro! A Vaca representa, para mim, tudo que de bondade existe na criatura,feminina...ou melhor, tudo que existe de fabuloso na Vida. Isso mesmo: na Vida, com V maiúsculo!
Voltemos à vaca fria...contrafação da verdadeira vaca!
Perdoai-me, senhoras vacas, madames vacas, damas vacas, princesas vacas!
Os Evangelhos dizem que, na Gruta do Presépio, havia dois animais: um burro e um boi! Atrevo-me a afirmar que os copistas machistas dos primeiros séculos cristãos alteraram o texto do Novo Testamento. Quem devia estar lá– e estava mesmo – não era um boi, era uma vaca! Só uma vaca podia compreender a alegria materna da Virgem Maria, suas necessidades práticas de Mãe: leite e agasalho. Uma vaca tem bafo suficiente para aquecer qualquer mulher!
Por isso, se eu tivesse talento literário, escreveria um Réquiem para os e-mails!
No início, vinham esplêndidos. Eram cartas super-velozes. Algumas, na ânsia de nos agradarem, chegavam antes de serem escritas!
Eram e-mails transbordantes, de carinho, de bondade, de ganas de contar episódios – embora as coisas contadas quase sempre se reduzissem a notas estenográficas. Com o tempo, começaram a embonecar-se. Surgiram e-mails com maneirismos de todas as cores: em vez de abraços, abrs, ou algo parecido.
Correu mais água debaixo das pontes - algumas pontes gaúchas chegaram a desabar - e os e-mails deram de embrutecer-se, de exibir uma cara de executivos arrogantes e mal-humorado, que. davam a impressão de estarem sem tempo para assinar a Declaração dos Direitos Humanos, ou um Tratado Qualquer de Maastricht...
Pobres e-mails! Não ficaram por aí!
Um diabo, ou trinta diabos associados, sugeriram-lhes que teriam mais status se se tornassem lacaios do marketing. Eles abraçaram a sugestão.
Recebo, diariamente, quase 200 e-mails com propagandas de quinquilharias eletrônicas, loções capilares, viagras, mil outros medicamentos (que só funcionam quando o indivíduo está numa pior, ou com faísca adiantada!). Numa palavra: o lixo da imaginação humana, de mãos dadas com o lixo de cérebros gananciosos. Não podendo ser craques de futebol (do Inter? do Chelsea?), os e-mails sonham negócios da China, ou com a china...
                                Brasileiros, e gaúchos em particular: não me envieis e-mails desse tipo!
Deixai os meus e-mails para as pessoas que me amam, que me querem bem.

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