segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A Mídia, Nós, e o Bom Senso

Comecemos pelo bom senso.
Se o leitor não conhece Blaise Pascal (1623-1662), autor do livro Pensamentos  procure-o. Existem várias traduções portuguesas desse clássico, uma delas é a de  Sérgio Milliet. (São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1957).
Na introdução da obra, inclui-se uma “Vida de Pascal”, escrita pela irmã do cientista e pensador. Um dos trechos dessa biografia  me impressionou:
 Fazia a cama ele próprio, jantava na cozinha, lavava a louça, e só apelava para o seu pessoal quando era absolutamente inevitável.
Lembrei-me disso ao deparar, nos jornais, com uma verdadeira enxurrada de episódios relativos a personalidades da política, e do mundo do espetáculo.
Uma evidência salta de tudo isso: a privacidade sumiu!
É algo bom? É algo negativo? Ou nos resignamos ao nosso tempo: algo inevitável?
Surge outra questão: pode haver quiçá um consenso qualquer sobre a privacidade?
 As câmeras de televisão tornaram-se onipresentes (algumas, até, oniscientes). Qualquer sujeito que possua um celular, pode flagrar não importa quem em todas as situações imagináveis. Li num jornal europeu que houve protestos, em alguns países da eurozona, porque se instalaram câmeras dentro de toaletes públicas.
Estamos assistindo a sucessivos stripteases morais.
Tempos atrás, foi o caso do Presidente Clinton. A seguir, o de Sadham Hussein – um striptease macabro. Agora, em plena Humana Comédia, o primeiro-ministro de uma das mais importantes nações européias se vê enrodilhado num cipoal, onde brilham por sua presença escorts magrebinas, russas, caribenhas, e brasileiras.
Deixemos claro desde já: não estamos interessados em emitir julgamentos sobre a divulgação da mídia, nem sobre os episódios em si.
O que nos parece estar em jogo são questões, que podem ser incômodas para nós.
Eis algumas dessas questões:
I. Quem  se compraz em acompanhar detalhadamente tudo isso, está ou não está sendo cúmplice do que está vendo?
2. Até que ponto é possível que se infiltrem sentimentos de  secreta inveja em relação aos escândalos? Tais sentimentos não poderão estar dentro de nós?
Pascal escreveu:
- Não se é miserável sem sentimento. Uma casa em ruínas não o é. Só o homem é miserável.
3. Será vantajoso à sociedade estar informada sobre a vida particular de tais pessoas? Não significa tal interesse uma espécie de voyeurismo?
4. Estaremos aproveitando-nos da desdita alheia para nos sentirmos superiores aos seus protagonistas? Digamos: sua riqueza, posição, e mulheres, não serão – consultemos os sábios da escritura freudiana – objeto de nossos desejos?
5. Na atual disputa de vídeos, entrevistas, afirmações e contra-afirmações, quem está em condições de arvorar-se em analista de tais crapulices, ou não-crapulices?
6. Finalmente, outra questão: “É lícito a um indivíduo, investido de funções públicas, eleito democraticamente, proporcionar aos seus eleitores tais espetáculos ?
A verdade é que não somos melhores nem piores, do que os homens que estão sob os holofotes de nossa mídia. Por sua vez, eles, também, não se diferenciam de muitos personagens consagrados de nossos livros de História, com H maiúsculo. Por exemplo, no século X, nos tempos de Teofilacto e Teodora, grandes personagens de Roma, existiu por lá uma pornocracia.
 A questão não é sentarmo-nos em poltronas de tribunais, ou exultarmos com nossa conduta acima de qualquer suspeita. Lembremo-nos de que não fomos, ao que parece, abalroados por nenhuma sedução irresistível ( satânica?) ou, como diria Paulo de Tarso em queixa ao próprio Criador, nenhum espinho na carne  por enquanto nos atormentou!
 A questão é infinitamente outra: a de sabermos se existem padrões estáveis de comportamento, que sejam obrigatórios também para os que nos governam.
Como conclusão, eu teria a insolência de pedir a esses potentados do mundo, a esses ícones de nossa mídia, que imitassem Pascal:
 Voltem a lavar louça, ajudem as mulheres nas ocupações domésticas e, sobretudo, jantem na cozinha.

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