quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Exixtgirão clássicos no século XXI?

I. O Termo “Clássico”.

Os Dicionários de Literatura atribuem a expressão clássico ao gramático Aulus Gellius (Roma, 130-175 d.C.), que, por primeiro, estabeleceu uma distinção entre scriptor classicus e scriptor proletarius, ou seja, entre o autor que escreve para leitores cultos e o autor que escreve para o público em geral. Poderíamos, quase, dizer, em linguagem atual, que Aulus Gellius pretendia distinguir autores de alto nível literário de autores de nível médio, como o são os autores da maioria dos best-sellers que constam nas listas semanais de “Os mais Vendidos” de revistas de atualidades como Veja na Brasil, Panorama na Itália e Der Spiegel na Alemanha.
A expressão clássico começou a ser usada, no Renascimento, para caracterizar poetas que deviam ser considerados modelos pelos jovens autores. É o caso de Thomas Sibillet no seu L’Art Poétique Français (1548). Não tardou que a expressão fosse estendida aos autores lidos nas classes, isto é, aos que eram considerados autoridades. Com o passar dos anos, o termo passou a ser reservado aos autores da Antiguidade, visto que só eles tinham resistido à prova do tempo. Algum tempo depois, foram denominados clássicos os autores que não eram românticos. Finalmente, em 1850, Charles Augustin Sainte-Beuve publicou o seu conhecido ensaio: “Qu’est-ce um classique?”[1]definindo, pela primeira vez em termos modernos, o conceito de classicismo literário.
Nesse ensaio, o crítico francês expôs os critérios segundo os quais um autor deveria ser considerado clássico:
Um verdadeiro clássico – escrevia Sainte-Beuve - como me agradaria defini-lo, é um autor que enriqueceu o espírito humano, que realmente aumentou o seu tesouro, que lhe fez fazer um passo adiante, que descobriu alguma verdade moral inequívoca, ou que surpreendeu alguma paixão eterna no coração onde tudo parecia já conhecido e explorado, que nos comunicou seu pensamento, sua observação ou sua invenção sob uma forma  mais ampla e grande,  fina e sensível, saudável e bela em si mesma, que falou a todo o mundo num estilo que é, ao mesmo tempo, seu estilo pessoal e o estilo de todos, um estilo que é novo sem neologismos, novo e antigo, facilmente contemporâneo de todas as épocas.[2]
Sainte-Beuve lembrava que não existia receita para se fazer um clássico, e que se devia desconfiar dos (assim ditos) “clássicos precoces”.[3] Acrescentava: “os clássicos imprevistos são os melhores”.[4] Recordava que o próprio Shakespeare não era considerado clássico na época de Alexander Pope (1688-1744).[5] Insistia em que cada leitor escolhesse seus próprios clássicos, pois é sempre “necessário escolher, e a primeira condição do gosto, depois de se ter compreendido tudo, consiste em não viajar incessantemente, mas em parar, e tornar-se estável (...) Façamos nossa opção dentro dos limites de nossos instintos”.[6] Concluía o ensaio dizendo: “Chega uma hora na vida em que todas as viagens foram feitas, todas as experiências terminadas, em que a maior fruição consiste em estudar e aprofundar as coisas que já sabemos, em saborear o que sentimos, do mesmo modo como nos encanta ver e rever as pessoas que amamos (...)[7]

II. Uma Questão: Quem eram, afinal, os “Clássicos” para Sainte-Beuve?

O crítico menciona 38 nomes por ele considerados clássicos. Entres eles, Homero, dois autores indianos Valmiki e Vyasa, seguidos do poeta persa, Firdusi. Evoca Sólon, Hesíodo,Teógnis, Xenofonte, Platão, Sófocles, Demóstenes. Da Bíblia destaca O Livro de Jó, e o Cântico dos Cânticos. Seguem Confúcio, Virgílio, Menandro, Tíbulo, Terêncio, Horácio, Ovídio e Lucrécio Também são incluídos, entre os clássicos, Dante, Bocaccio, Ariosto, Torquato Tasso, Montaigne, Malherbe, La Fontaine, Corneille, Pascal, Bossuet, Molière, Shakespeare, Swift. A lista completa-se com Cervantes, Milton, Voltaire, Goethe.
Em linhas gerais, os clássicos de Sainte-Beuve eram os de nossa tradição humanista ocidental.
O autor do presente ensaio foi aluno de um seminário católico, no tempo em que seus mestres possuiam, além de uma bagagem filosófica e teológica específica, bagagem respeitável, para não dizer excepcional, de natureza literária. Apreciavam os tesouros da poesia litúrgica, as homilias de alto lirismo de São Bernardo de Claraval, e outras muitas jóias da literatura cristã. Porém apreciavam, igualmente, autores pagãos ou profanos, da envergadura de Demóstenes e Cícero.
Apesar dos pesares, sou obrigado a confessar que nossos mestres exageravam no culto a tais clássicos, favorecendo uma espécie de veneração postiça a eles. A bem da verdade, seja dito que isso não era tão corrente. Uma das razões para tal pseudo-veneração provinha do fato de que alguns clássicos não podem ser abordados à revelia de seus contextos culturais, ou seja, fora de seus próprios idiomas. No meu tempo de seminarista, por exemplo, estudava-se grego e latim para se poder ler, primeiramente, os textos bíblicos, os textos escolásticos, e finalmente os grandes autores não-cristãos.
 No que concerne à minha iniciação ao grego, ela evaporou-se. Quanto ao latim, desde que não se trate do latim de Cícero, leio-o com certa facilidade. Retornemos, porém, à questão do culto postiço – ou artificial - dos clássicos, ao qual me referi.
Um crítico, que se tornou brasileiro por adopção, o tcheco de nascimento, Otto Maria Carpeaux, refere que Paul Valéry perguntou, um dia, a Gide: “O Sr. conhece uma coisa mais tediosa do que Virgílio?” Gide lhe replicou: “Sim, Homero”.[8]
Tais anedotas, a respeito de clássicos e de outros autores não lidos, são divertidas. Num interessante livro: A Biblioteca e seus Habitantes, obra que, no dizer de Carlos Drummond de Andrade, “encerra um mundo de leituras e idéias, em notável concentração”, o erudito Américo de Oliveira Costa recolheu algumas dessas estranhas “pérolas”: Paul Caudel falava de Montaigne como de um “espírito medíocre e superficial”. Nietzsche qualificava George Sand de “incrível vaca de escrever”... Victor Hugo, não incluído por Sainte-Beuve na sua lista, desprezava Goethe. Byron considerava Shakespeare um “impostor audacioso”. Charles Péguy chegou à insolência de dizer sobre Dante: “Esse turista!” Mallarmé extremava o seu desdém ao referir-se a Victor Hugo: “Que grande poeta seria Victor Hugo se tivesse tido alguma coisa para dizer!” Pior ainda o que se relata de Tolstoi (que hoje seria incluído em qualquer lista); Tolstoi não se vexou de dizer a Tchekhov: “Você sabe que eu detesto a poesia de Shakespeare! Pois bem, o seu teatro é pior ainda...” Tolstoi (todos os seus biógrafos o sabem) era um  notório ranzinza. Falando sobre Os Irmãos Karamazov, de Dostoievsky, o autor de Guerra e Paz foi taxativo: ”Como este livro é falho de arte!”  Julien Benda, com um pouco menos de vitríolo,  exclamava: “Admiro Valéry por não ter jamais lido Proust”. Também o conhecido romancista, D.H. Lawrence não gostava de Proust.[9] 
Se Voltaire (incluído por Sainte-Beuve na sua famosa lista) teve o desplante de dizer: “Dante era um louco”, afirmando que o Florentino não seria lido no futuro, seu compatriota, Charles Péguy  contradisse, solenemente André Gide: “ Homero é novo nesta manhã, e nada pode ser mais velho do que o jornal de hoje”.[10] Mas que diremos sobre as  palavras de Léon Bloy: : “Outrora, tentei ler Dante na sua melhor versão.(...) O tédio me deitou abaixo, um tédio insuperável”?[11]
Permitam-me uma confissão pessoal: li, no mínimo, quatro vezes a Divina Comédia, e ainda hoje a leio, com muita frequência. Li várias vezes Dom Quixote, e me sinto cada vez mais fascinado por essa obra-prima. Já não sei o número de vezes que li a Bíblia, e alguns pensadores, como Pascal. Quanto aos poetas, não compreendo um leitor de poesia que não leia muitas vezes seus poetas prediletos! Afirmo-lhes, pois, com convicção: mais do que um leitor, sou um re-leitor.
Mencionemos, agora, um episódio, que tem por protagonista o grande renovador da literatura brasileira, Mário de Andrade, poeta, romancista, historiador. Numa carta ao poeta Manuel Bandeira, Mário de Andrade confessou que, na epopéia de Camões, Os Lusíadas, ele achava trechos fastidiosos, que as pessoas liam (segundo ele) só para dizerem que tinham lido até ao fim essa famosa epopéia clássica.[12] Pela sua parte, Rodrigo Octavio Filho, poeta e crítico literário, que pertenceu à Academia Brasileira de Letras, dizia: “Os Lusíadas eram um martírio para os meninos do meu tempo, uma leitura oficial e obrigatória, desdobrada em análises lógicas e gramaticais”.[13]
Desejo insistir num ponto: é preciso adotar uma atitude mais natural e mais verdadeira em relação aos clássicos! Aprecio, por isso, o fato de Jorge Luis Borges ter declarado se sentir incapaz de ler até ao fim o legendário romance de James Joyce, Ulisses.[14] Gostaria, ainda, de observar que aquilo que nos parece, num determinado momento da vida, pouco interessante, não tão valioso, pode, com o tempo, ser retificado por novas leituras. Vejamos o caso de Guimarães Rosa: aos 31 anos de idade, quando era Cônsul do Brasil em Hamburgo, na Alemanha, ao terminar de ler Memórias Póstumas de Brás Cubas, uma das obras-primas do clássico nacional, escreveu num caderno pessoal,  provavelmente num momento de mau humor: “Machado de Assis usa de construção primária.(...) Não pretendo ler mais Machado de Assis.(...) Acho-o antipático de estilo, cheio de atitudes para embasbacar o indígena; lança mão de artifícios baratos, querendo forçar a nota de originalidade; anda sempre no mesmo trote pernóstico, o que torna tediosa sua leitura.(...) Quanto às idéias, nada mais do que uma desoladora dissecação do egoísmo, e, o que é pior, da mais desprezível forma de egoísmo: o egoísmo dos introvertidos inteligentes. Bem, basta, chega de Machado de Assis”.[15]
Que significa isso? Que Joyce não seja um notável escritor, talvez um gênio? Que Machado de Assis é um escritor de segunda classe?
 O problema, na minha opinião, é outro. Primeiramente, as leituras acompanham o indivíduo. A maturidade deste é decisiva.
Outra advertência: existem clássicos, de tal modo identificados com sua língua e cultura, que só se lhes pode abarcar a genialidade, quando entramos nessa língua e nessa cultura. Ouso dar um exemplo: um leitor, que não for brasileiro, talvez português, ou ao menos de língua espanhola, a mais próxima do português, dificilmente entenderá o autor, ao qual acabamos de nos referir, o crítico de Machado, ou seja, o próprio João Guimarães Rosa, e de modo particular, seu romance Grande Sertão: Veredas. Duvido que um estrangeiro possa saboreá-lo integralmente, do ponto de vista estético, sem um mínimo de familiaridade com uma das línguas afins ao português. Lembro-me que me surpreendi ao deparar, no livro de Louis Gillet, sobre Dante, uma sutil observação. Dizia o comentarista francês que um dos mais melodiosos versos da Divina Comédia era o seguinte:

io fui nel mondo vergine sorella...[16]

Quem poderia degustar verso tão singelo, suas assonâncias delicadíssimas, sem ter intimidade com o idioma italiano?
Estou-me referindo não somente à língua, mas também ao seu inconsciente e subconsciente semânticos. No tocante a isso, a mais bela regra de ouro que encontrei é do próprio Borges:
Clássico não é um livro que necessariamente possui tais ou quais méritos; é um livro que as gerações humanas, urgidas por diversas razões lêem com prévio fervor e com misteriosa lealdade.[17]
Gosto, também, de citar a definição de Italo Calvino, que completa a de Borges:
 Clássicos são os livros que chegam até nós trazendo em si os vestígios das leituras anteriores, e mostrando na sua esteira os vestígios que eles mesmos vão deixando na cultura.[18]
Encanta-me, ainda, esta outra regra de Calvino:
 Clássico é aquele autor em relação ao qual não consegues ser indiferente, que te ajuda a te autodefinires em relação a ele, ainda que seja em disputa com ele.[19]

III. Mas... Existirão Clássicos no Século XXI?

Minha resposta é positiva.
Enquanto existirem leitores, leitores de um certo tipo, pertencentes a uma certa estirpe, existirão clássicos.
Não acredito em críticos, que pretendem tratá-los como fósseis vivos!  É conhecida a boutade: “Clássicos são os autores que todo o mundo cita, mas ninguém, lê”...
Tenho sérias dúvidas sobre críticos que se acham muito íntimos
dos clássicos. É melhor confessar, com perplexidade, que não conseguimos lê-los, umas vezes por incompatibilidade estética, outras, porque nem todos suportam as alturas rarefeitas até onde eles se alçam.  Existem clássicos que admiramos, mas que dificilmente regressaremos a eles. Existem outros que lemos continuamente, sem jamais chegarmos ao fim de seus livros, porque cansamos deles. Dou um exemplo: li Homero várias vezes (em várias versões). Não consigo nunca chegar até ao fim. Por que? Porque não encontro o Poeta em quase nenhuma das traduções.. É como se visitássemos a casa do poeta, com todos os seus móveis, etc., e não pudéssemos falar com o poeta. Não raro, tenho a impressão de que os tradutores de Homero não são  traidores, mas esforçados servidores ou criados dele, que se esforçam por chamar a atenção sobre o poeta, mas acabam chamando a atenção sobre si mesmos... Outras vezes, tenho a impressão de que nos oferecem um Homero que não foi Homero, mas, antes, um cidadão de nosso tempo, embalsamado segundo processos de crionização... A rigor, o corpo não está descomposto, está bem conservado, mas a alma do poeta...  onde estaria ela?!
É diferente, para mim, o caso de Shakespeare! Não desistirei jamais de lê-lo! O que li, em obras suas traduzidas, foi suficiente para me persuadir de sua genialidade. Formei, como vêem, uma idéia parcial da genialidade de Shakespeare, visto que não consigo lê-lo em língua inglesa, mas os seus dramas chegam a me interessar, ou antes, me comovem profundamente; e suas comédias me encantam!
Bendigo o idioma espanhol!  Nasci numa região do Brasil onde é possível escutar o espanhol, visto que o intercâmbio com o Uruguai e a Argentina é  frequente. Isso me permitiu ter acesso aos tesouros dessa língua. Faço minhas as palavras de Jorge Luis Borges:

Gracias quiero dar al divino
Laberinto de los efectos y de las causas...

por me ter sido concedida a dádiva de poder ler tantos clássicos da literatura espanhola, seja do passado, seja do presente, entre os quais San Juan de la Cruz, Fray Luís de León,  Francisco Quevedo, Luís de Góngora, António Machado, García Lorca, Alfonso Reyes, Juan Rulfo, García Márquez. O mesmo digo da língua italiana, na qual fui iniciado desde criança.

Retomemos a questão: existirão, afinal, clássicos, no século XXI!?

Penso que a única condição sine qua non para isso é que existam leitores sem pressa, leitores hedônicos, leitores que sejam capazes de nadar contra a corrente. O poeta alemão Günter Kunnert (nascido em Berlim, em 1929) publicou na Revista Humboldt um artigo substancioso a esse respeito. Diz Kunnert que o leitor do passado cedeu lugar, em muitos casos, num brevíssimo lapso de tempo, a um espectador, simples consumidor de obras literárias, já que não faz esforço algum para traduzir, para algo visível na sua mente, o elemento abstrato do texto. Esse tipo de leitor interioriza, inconscientemente, o modo de recepção da televisão. Daí o seu tédio. O cérebro desse leitor – digamos – midiático, é como uma esponja saturada de informações variadas e contraditórias, repleta de fragmentos das mais diversas áreas do conhecimento. Estas o impedem de se entregar integralmente à leitura. Tal tipo de leitor interessa-se apenas pelo que é curioso ou exótico. [20]
Se desejamos fazer uma abordagem completa do problema, precisamos mencionar, demais a mais, dois outros importantes fenômenos: a sonegação emocional e a debilitação da memória coletiva.
       A  sonegação emocional  é um fenômeno relativamente novo em nossa sociedade. Consiste em a pessoa não revelar – ou não ser capaz de revelar – seus próprios sentimentos. Todos nós possuimos, não só uma identidade biológica, que se expressa em suas impressões digitais e no seu código genético, como também, uma memória única, que garante nossa identidade pessoal. As recordações autobiográficas registram experiências vivenciais e relações intersubjetiva, a rigor, intransferíveis. A maior parte de tais souvenirs permanecem latentes dentro de nós. Elaboramos linguisticamente tão somente uma porção mínima de tais experiências e relaçõesÉ nisso que se apoia nossa identidade. As memórias disponíveis e indisponíveis – sem falar nas memórias inacessíveis, ou seja, as memórias que emergem através de traumas ou mediante técnicas psicanalíticas – tais memórias disponíveis e indisponíveis (estas últimas podem ser chamadas de “esquecimentos induzidos”) constituem o que mostramos exteriormente: o nosso eu. O “nosso eu”, porém, para poder comunicar-se com as outras pessoas, com os outros eus, necessita elaborar linguisticamente seu universo interior. Numa palavra, precisa torná-lo “objetivo” mediante a linguagem expressa. É aqui que se localiza a sonegação emocional. Ao passo que os sentimentos e emoções de um indivíduo são múltiplos e variados, o seu vocabulário – ponte obrigatória de comunicação entre as pessoas – é restrito. Li, há algum tempo, que o vocabulário da gente comum se compõe de poucas palavras. Dez palavras seriam suficientes para 25% das conversas diárias, e cem palavras para todo tipo de conversas.[21] Bertrand Russel  observa, num de seus “Ensaios Céticos” que “ aqueles que só conhecem 1.500 palavras não conseguem exprimir-se nem com precisão nem com beleza, exceto nos assuntos mais triviais, e pelo mais raro acaso”. Continua o ilustre filósofo: o vocabulário de metade da população americana mal chega a um décimo do vocabulário de Shakespeare! No entanto, o que o autor de Hamlet dizia devia ser inteligível ao cidadão comum de sua época, “dado que eram palavras usadas em peças que tinham sucesso comercial”. Conclui Russell: “o ponto de vista moderno é que tem suficiente domínio da língua o homem que se faz entender; o antigo era de que tanto ao falar como ao escrever, ele devia estar em condições de proporcionar prazer estético”.[22]
Com tal indigência léxica, a sonegação emocional aumenta assombrosamente. As pessoas, para expressarem suas emoções, parecem ter um único vocábulo, ou antes, algumas palavras-ônibus. Uma delas, pelo menos em português: “Fantástico!” Outra: “Tri-legal!” Como poderão tais pessoas ler textos diversificados, mais profundos, mais sutis? Somente indivíduos com um vocabulário mais rico poderão assimilar (e expressar) verdadeiras emoções, não emoções construídas, recozidas, ou “bricoladas” (de “bricolage”), isto é, tomadas de empréstimo aos meios de comunicação. Caso contrário, tais pessoas teriam de tornar-se gênios - como Machado de Assis ou Alessandro Manzoni e Giovanni Verga - para dizerem o máximo com um mínimo de palavras. É o caso dos verdadeiros grandes escritores!

Que diremos sobre a debilitação da memória coletiva?

 As nações e instituições não são regidas por leis que lhes impõem certa capacidade memorativa, como a do cérebro humano. Noutras palavras, não existe nelas nada que corresponda ao fundamento biológico do ser humano. Apesar disso, a memória coletiva não é uma mistificação. As nações, instituições, igrejas, etc. não possuem uma memória, porém, como observa Aleida Assmann, a produzem, servindo-se para tal finalidade de símbolos, memoriais, imagens, ritos, lugares e monumentos.[23] Portanto, se as pessoas, como membros da espécie humana, possuem uma memória pessoal, elas, também, possuem, na condição de cidadãos – enquanto membros de uma nação ou instituição - uma memória especifica, vinculada a uma história, a um pensamento, a uma sensibilidade. Por exemplo, nós, brasileiros, somos brasileiros porque temos uma memória nacional. Os que não são brasileiros, não têm a memória coletiva de meu país, nem de minha língua. Podemos, é claro, ampliar nossa memória coletiva, adicionando-lhe outras memórias do mesmo gênero. Isso é possível até certo ponto. Henri Bergson, por exemplo, dizia que é quase impossível odiar um povo cuja língua nós próprios falamos.. Em síntese, podemos, até, planetarizar – ou, como se diz hoje, globalizar nossa memória social. A capacidade de fazer isso pode demonstrar, inclusive, nossa solidariedade humana. Julgo, porém, que a globalização, pura e simples de memórias coletivas não é possível. O que me parece possível é transformar a globalização, que, sem dúvida, é algo também de ordem cultural, predominantemente pragmático, implicando, com certa freqüência, a emergência de velhos rancores históricos e de outros traumas religiosos, em um encontro autêntico de culturas, numa permeabilização de valores diversificados.
Voltemos, uma outra vez, aos clássicos. Existirão tais autores no nosso século?
Sobre isso não tenho a menor dúvida! Desde que os leitores se tornem, cada vez mais, conscientes de suas recordações e emoções. Desde que os gênios de cada nação consigam, mediante os poderes, por assim dizer mágicos da linguagem, materializar em signos verbais, sua própria memória pessoal e as memórias coletivas de seus respectivos povos. Os clássicos, na verdade, são os autores que exploram as recordações mais íntimas, mais secretas do ser humano, e as fazem dialogar, não só com a memória coletiva do povo a que pertencem, mas com as memórias coletivas de outros povos. Enquanto houver um homem que fale e escreva suas próprias recordações (e suas fantasias, que são recombinações geniais de memórias pessoais e coletivas), transfigurando-as mediante sua própria língua materna (ou tornada quase-materna, como foi o caso do romeno-francês E.M. Cioran) existirão clássicos. As línguas de cada povo preservarão esses povos de serem devorados pela globalização, pelo terrorismo cultural, e por outros delírios da Humanidade. É até possível que a globalização econômica e financeira seja acompanhada de um fenômeno positivo: a globalização do capital simbólico da humanidade, benéfico para todos os povos e nações do mundo.
Em abril de 1955, por ocasião de uma cerimônia fúnebre em homenagem a Albert Einstein, na Universidade de Princeton, o Rabino Irving Dewey evocou uma de suas últimas conversas com o cientista. O Rabino contou ter apresentado a Einstein a seguinte questão:
“- Que diferença haveria se a terra se desfizesse, repentinamente, como uma nuvem?”
Einstein  replicou-lhe:
“- Nunca mais se ouviria  a música de Mozart”.[24]
Atrevo-me a dizer que, enquanto um poeta for capaz de compor sonetos como os de Petrarca, ou os de Dante, e um leitor se sentir emocionado e encantado com versos como os seguintes

Tanto gentile e tanto onesta pare
La donna mia quand’ella altrui saluta
Ch’ogne língua devem tremando muta,
E li occhi no l’ardiscon di guardare

etc.[25]
ou os de Umberto Saba:

Ho parlato a uma capra.
Era sola sul prato, era legata.
Sazia d’erba, bagnata
dalla pioggia, belava.

Quell’uguale belato era fraterno
al mio dolore. Ed io risposi, prima
per celia, poi perché il dolore è eterno,
há uma voce e non varia.
Questa voce sentiva
gemere in uma capra solitária.

In uma capra dal viso semita
sentiva querelarsi ogni altro male,
Ogni altra vita.[26]

enquanto – repito - existirem pessoas que sejam capazes de se comover com versos tão puros e sugestivos, existirão clássicos no século XXI, pelo menos nessas línguas bem-aventuradas!
(Último capítulo do livro "Ler Por Dentro". Porto Alegre, Editora Pradense, 2010. p. 115-126)



[1] Causeries de Lundi. Tome III. 3 ed. Paris, Garnier, 1850. p.38 ss.
[2] Ibid. p.42.
[3] Ibid. p.49.
[4] Ibid. p.50. O negrito é nosso.
[5] Ibid. p.47.
[6] Ibid. p.54.
[7] Ibid. p. 54..
[8] Origens e Fins, Rio de Janeiro, Edições da |Casa do Estudante, 1943.p.13.
[9] Cf. todo o capítulo XIII. p. 104-111.
[10] Cit. por André Blanchet, in: La Littérature et le Spirituel. Tome III. Paris, Aubier, 1962. p; 38; p.11.
[11] Cit. por Octavio de Faria, in: León Bloy. Rio de Janeiro, Gráfica Record Editora, 1968.161.
[12] Cartas a Manuel Bandeira. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1966. p.110. (Carta de 13 de maio de 1925).
[13] Cit. Por Murilo Mello Filho, in: Revista Brasileira., Rio de Janeiro, Fase VII, julho-agosto-setembro de 2006, Ano XII, n.48. p.31.
[14] In: Entrevista à revista Leia. São Paulo, ano XII, n. 134, dezembro de 1989. p. 43.
[15] CONY, Carlos Heitor: “Rosa e Machado”. In: Folha de S. Paulo, 20 de maio de 2006. Cit. Por Fábio Lucas, in: Revista Brasileira. Fase VII, julho-agosto-setembro 2006,  Ano XII, n. 48. p. 80.
[16] Paradiso, Canto III, 46.
[17] Obras Completas. 1923-1972. Buenos Aires, Emecé Editores, 1974. p.773.
[18] Por que ler os Clássicos. São Paulo, Companhia das Letras, 1993. p.11.
[19] Ibid. p.13.
[20] Revista Humboldt. Bonn, ano 37,1995, n.70, p. 4.
[21] Pesquisa citada por Mário Pei, Professor de Filosofia Neolatina da Universidade de Columbia. In: Seleções do Reader’s Digest. Tomo XLIV, julho de 1963, n. 258, p. 76.
[22] Ensaios Céticos.(Trad. de Wilson Velloso). São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1955. p. 77.
[23] “A Gramática da Memória Coletiva”. In: Revista Humboldt. Bonn, ano 45, 2003, n.86, p. 2.
[24] Cit. por Américo de Oliveira Costa. In: A Biblioteca e seus Habitantes. p.99.
[25] Dante. Opere (a cura di Manfredi Porena e Mario Pazzaglia). Bologna, Nicola Zannichelli, 1966. p.961-962.
[26] SABA, Umberto. Poesie Scelte (a cura di Giovanni Giudici). Milano, Arnoldo Mondadori, 1960.p. 21. Tradução: “Falei a uma cabra./ Estava sozinha num campo, atada. /Saciada de erva, molhada/ pela chuva, balava./ Aqueles balidos constantes eram fraternos/ à minha dor. Respondi-lhe, antes de mais nada/ por brincadeira, depois porque a dor é eterna,/tem uma voz que é sempre a mesma./ Esta voz eu a sentia/
gemer na cabra solitária./ Numa cabra de rosto semita/ sentia lamentar-se todo o mal alheio/ toda a existência alheia.”


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