sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Existem ainda devotos da Virgem Maria?

A comunicação humana padece os mesmos danos que a saúde dos mortais. Impossível livrar-nos de todos os golpes contra a saúde, de um simples resfriado a um linfoma.
 Que diremos do linguajar do cidadão comum, do feixe de palavras que nos permite transmitir idéias e sentimentos a familiares, amigos, desconhecidos? Algumas dessas palavras nós as moldamos, ao nosso gosto. A maioria vem embalada, entregue a domicílio por pessoas que desconhecemos, algumas vezes com uma fita ornamental que lhes puseram indivíduos de nosso círculos de convivência. Não minimizemos as expressões advindas dos jornais e tevês.
Carregamos aos ombros um enorme fardo vocabular, sem percebermos que, no decurso da viagem, alguém o acomodou ali, com a displicência com que outrora se acomodava uma carga de lenha nos dorsos dos burros.
Lembro-me de uma estória, lida na infância, talvez nas páginas do meu querido livro Alegria de Ler, que recentemente repesquei num sebo, para colocá-lo numa das prateleiras de minha biblioteca.
A estória dizia o seguinte: em certa oportunidade, um burro foi paramentado pelos sacerdotes, e conduzido com solenidade estrada afora. A alimária, obviamente, levava sobre o lombo as relíquias de um Santo. Toda a gente inclinava-se à sua passagem e, de tabela, o burro impava de orgulho por ver-se objeto de tanta deferência. Achou, até, que tinha mudado de condição animal! Qual não foi sua decepção quando, ao afastar-se do santuário, onde as relíquias foram depositadas, viu-se cercado por um bando de vagabundos, os quais o molestaram. O pobre bicho, debaixo de uma chuva de pedras e chicoteado com galhos apanhados à beira da estrada, não entendeu nada do que lhe estava acontecendo. Passada a pancadasria, refletiu durante algum tempo sobre a ocorrência, tanto quanto é possível a um burro dedicar-se a tão desmedido excesso mental...Não conseguiu chegar a nenhuma conclusão.
Caros amigos, quanto mais avalio o aviltamento das expressões correntes de nossa fala, mais me sinto próximo do burro.
Vejamos uma dessas expressões, que se tornaram antipáticas ao público atual: a palavra devoto.
Com meu latim, aprendido já na adolescência, ampliado mais nos tempos de meu doutorado na Suíça, onde, em 1960, ainda se falava latim em algumas faculdades de filosofia e teologia, posso, ainda hoje, decifrar a etimologia do vocábulo.
Devotus : do verbo devovere, verbo que assume duas formas: uma transitiva: consagrar alguma coisa a alguém; outra pronominal: devovere se, consagrar-se a alguém ou a algo: devovere se patriae; sacrificar-se pela pátria. Em termos gerais: ser devoto era ser piedoso ou fiel: devotus Deo. Um irreligioso era considerado “não-devoto”.
O Dicionário Aurélio, no verbete “devoto”, reporta-se ao seguinte exemplo: “amigo dedicado”. É admissível que as pessoas desconfiem do vocábulo; onde achar amigos dedicados? Sem excessivo pessimismo, mas também sem otimisco, creio que estão perto da extinção, merecedores, portanto,  de máxima atenção por parte dos movimentos ecológicos de preservação ambiental.
Quanto a mim, atrevo-me a confessar-me devoto da Virgem Maria.
Ela, uma humilde judia de Nazaré, perguntou ao Anjo Gabriel, em nome da humanidade:
- Como se fará isso se não conheço varão?
Era uma menina provavelmente de 14 ou 15 anos de idade, de acordo com os melhores comentadores do Novo Testamento. Esclarecida pelo mensageiro divino,essa adolescente declarou-se “serva do Senhor”,disposta a colaborar no Mistério que lhe era anunciado.A mesma adolescente, pouco depois, meninazinha, numa imprevista explosão de auto-confiança, profetizou::
-De agora em diante todas as gerações me chamarão feliz!
 Que outra mulher , na História da Humanidade, ocupou tal posição? Que outra gozou de tal prestígio?
As mais insignes mulheres da História dificilmente nos deslumbram. Beleza, muitas delas a têm. Inteligência; algumas.Personalidade? Um bom número. Muitas, felizmente em menor número que seus companheiros varões, transbordam de astúcia, perfídia, voluptuosidade, crueldade...Não obstante entraram na História, alojaram-se no palácio da memória – a expressão é de Santo Agostinho. Um bom número entrou pelas portas dos fundos, algumas retardatárias, saltaram ppara dentro pelas janelas que alguém esqueceu de fechar...
Tornemos a reiterar: existem, é claro, as luminosas, as beneméritas, as assombrosas!
Que cada um escolha os nomes de sua preferência.
Permito-me indicar algumas: Clara de Assis, Catarina de Siena, Joana d’Arc, Teresa de Ávila...
Para que ninguém me censure de só mencionar “santas”, recordooutras duas, protótipos das mulheres modernas: Alienor de Aquitânia, mãe de Ricardo Coração de Leão e de João Sem Terra, poderosa, sensual, orgulhosa, vingativa...(mas foi Alienor de Aquitânia, não é? - e Heloísa, a do filósofo Abelardo!
Algumas delas pode-se comparar à Míriam dos Evangelhos,à mocinha de compara a Miriam de Nazaré, que foi celebrada pelo maior dos poetas, Dante?
O próprio Camões, cego de um olho, não a olvidou. Citou-a no Canto Terceiro dos Lusíadas, na estrofe 45.
Pouco? Sem dúvida. Em compensação, na Elegia N. 1 (de 1616),o mesmo Camões escreveu:
Pois, ó pura e santíssima Maria,
que, enfim,sentiste esta mágoa quanto
a gravidade dela o requeria;
dessa Fonte sagrada e peito santo
me alcançai uma gota com que lave
a culpa que me agrava e pesa tanto.

Digo, pois, que se fosse possível a um  cristão oorgulho, orgulhar-me-ia de minha devoção a essa Virgem, modelo de fé para qualquer seguidor de Cristo.
Espero que ninguém tenha a descortesia de brindar-me com caretices agnósticas ou atéias, chamando-me, por exemplo, de carola.
Conheço, como modesto escritor que sou, a força das palavras.
Por ser absolutamente única, Maria mereceu ser exaltada pelos maiores poetas gênios da humanidade, entre eles Petrarca, Luís de León, Antônio Vieira, Antero de Quental, Verlaine, Péguy, Hopkins, Claudel, nosso Manuel Bandeira, não se omitindo Alphonsus de Guimarães e Cruz e Sousa, de cuja autoria é a seguinte enternecedora invocação.

Mãe de misericórdia, sem pecado
original, desde o primeiro instante!
Salve! Rainha da Mansão radiante,
Virgem do firmamento constelado.
(...)
Salve! Rainha! Por quem brado e clamo
E brado e brado, e com angústia chamo,
chamo, através das convulsões do mundo!...
Confesso que me sinto vexado de acrescentar um copo d’água lírico a rios tão caudalosos, a mares tão grandes mares de devoção!
Mesmo assim vous cumprir meu ato de devoção:

Não te pedirei
que desças ao pé de mim
em minha agonia.
Pedir-te-ei
que te libertes de uma estátua,
e caminhes até um subúrbio
onde te aguardarei
sentado num banco de praça.
            Ali
estenderás sobre mim os teus olhos
com fragmentos de pedra.
Suplicarei a Deus
que me faça nascer de ti.
(Do livro inédito:Ladainha para uma Virgem Operária).

Aos meus singelos versos adiciono os ensolarados tercetos de Dante Alighieri (1265-1321), que ousei verter do italiano:

Mãe virginal, ó filha de teu Filho,
mais alta e humilde que qualquer criatura,
por Deus prevista em seu eterno brilho.

Em ti se ergueu a tão audaz altura
o ser humano, que seu Criador
de Si Mesmo tornou-se criatura.

Reacendeu-se no teu ventre o amor
a cujo sol, na paz da eternidade,
desabrochou esta dourada flor.

Qual meio-dia a pino, ali resplende
tua ternura; e embaixo, entre os mortais
és de esperança vívida nascente.

Senhora, tanto pode o teu carinho
que pedir graça sem a tua ajuda
é não ter asas, e voar sozinho.

Teu bem-querer não socorre somente
a quem suplica mas, com gentileza
às preces te antecipas, livremente.

Em ti misericórdia, em ti piedade,
em ti magnificência, em ti se junta
quanto no mundo existe de bondade.
(Divina Comédia. O Paraíso”. Canto XXXIII).

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