sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Carta ao meu Cachorro, e a Madame Juliet Clutton-Brock.

(Crônica-quase-poema)

Antes de tudo, dirijo-me à Sra., Madame Clutton-Brock: - Obrigado  por seu livro sobre a História da Domesticação dos Mamíferos! Agradeço-lhe,  de todo o coração, essa contribuição ao conhecimento de nossos cachorros.
Talvez devesse concluir minhas palavras à Sra., nesta altura. Porém, como sou coagido a reservar tempo e espaço ao meu cachorro yorkshire, um  cãozinho amoroso que eu não sabia que descendia de lobos, nem que sua progênie - como a de quatrocentas outras raças de cães - devesse ser retrodatada a 15.000 anos da Era Cristã... Madame Clutton-Brock, dê-me licença para incluí-la  um pouco mais nesta missiva. A Sra. diz que tanto o latir sonoro das grandes raças como o latir saltitante dos cachorrinhos reduzem-se a tentativas de comunicação com os seres humanos. Ou, ao menos, de imitação de nossas vozes! Entendi bem, amável zoóloga? Também por isso lhe tenho gratidão! Que bom saber que os lobos e os coiotes,  numa palavra os canídeos, não  latem em estado selvagem, senão ocasionalmente! Madame, eu gostaria de chamá-la Lady!
Quero agradecer-lhe outra revelação: a de que os cachorrinhos, quando criados no seio de famílias que sorriem muito, imitam tal expressão de prazer dos familiares. A Sra. explica que tal sorriso  é “oblíquo” , e se situa em volta da boca desses animaizinhos. Que cortesia sua, a dessa explicação, Madame! Sinceramente, não sei como agradecer-lhe tão comovente pormenor!
Que lhe direi sobre a fotografia de P. A. Jewell, reproduzida na sua obra, na qual se vê, claramente visto, o sorriso de um cão, que se diverte no regaço de uma mocinha?
Quanta gentileza, Lady, Editor Sênior do Journal of Zoology! É demais! A Sra. vai acabar me conduzindo a uma mesa de cirurgia cardíaca...Obrigadíssimo!
Quanto a ti, meu querido Puff, quem te pagará tuas amabilidades? Poder contar contigo, amável criaturinha, ter as mãos lambidas por ti e, nas piores agruras, poder sussurrar-te às orelhas um carinho de desafogo...São dádivas que atribuímos ao Criador das coisas visíveis  e invisíveis! Apesar de Tomás de Aquino ter dito que as coisas invisíveis são melhores, rogo-lhe, a ele Doutor da Igreja, que me desculpe. Prefiro agradecer a Deus seres tu visibilíssimo,  ó cachorro! Peludamente visível! E estares contíguo a nós!
Se todos esses pormenores, Madame Clutton-Brock , não forem poesia...desfiliem-me já de toda Sociedade de Poetas Vivos! Deixem-me na companhia de  Puff-  e de teus irmãos, querido bicho, aos quais Francisco de Assis denominou “irmãos”, colocando-te na companhia do sol, da lua, das estrelas, do vento, da água, do fogo, da irmã morte... e dos lírios do campo!

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