sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Existem ainda devotos da Virgem Maria?

A comunicação humana padece os mesmos danos que a saúde dos mortais. Impossível livrar-nos de todos os golpes contra a saúde, de um simples resfriado a um linfoma.
 Que diremos do linguajar do cidadão comum, do feixe de palavras que nos permite transmitir idéias e sentimentos a familiares, amigos, desconhecidos? Algumas dessas palavras nós as moldamos, ao nosso gosto. A maioria vem embalada, entregue a domicílio por pessoas que desconhecemos, algumas vezes com uma fita ornamental que lhes puseram indivíduos de nosso círculos de convivência. Não minimizemos as expressões advindas dos jornais e tevês.
Carregamos aos ombros um enorme fardo vocabular, sem percebermos que, no decurso da viagem, alguém o acomodou ali, com a displicência com que outrora se acomodava uma carga de lenha nos dorsos dos burros.
Lembro-me de uma estória, lida na infância, talvez nas páginas do meu querido livro Alegria de Ler, que recentemente repesquei num sebo, para colocá-lo numa das prateleiras de minha biblioteca.
A estória dizia o seguinte: em certa oportunidade, um burro foi paramentado pelos sacerdotes, e conduzido com solenidade estrada afora. A alimária, obviamente, levava sobre o lombo as relíquias de um Santo. Toda a gente inclinava-se à sua passagem e, de tabela, o burro impava de orgulho por ver-se objeto de tanta deferência. Achou, até, que tinha mudado de condição animal! Qual não foi sua decepção quando, ao afastar-se do santuário, onde as relíquias foram depositadas, viu-se cercado por um bando de vagabundos, os quais o molestaram. O pobre bicho, debaixo de uma chuva de pedras e chicoteado com galhos apanhados à beira da estrada, não entendeu nada do que lhe estava acontecendo. Passada a pancadasria, refletiu durante algum tempo sobre a ocorrência, tanto quanto é possível a um burro dedicar-se a tão desmedido excesso mental...Não conseguiu chegar a nenhuma conclusão.
Caros amigos, quanto mais avalio o aviltamento das expressões correntes de nossa fala, mais me sinto próximo do burro.
Vejamos uma dessas expressões, que se tornaram antipáticas ao público atual: a palavra devoto.
Com meu latim, aprendido já na adolescência, ampliado mais nos tempos de meu doutorado na Suíça, onde, em 1960, ainda se falava latim em algumas faculdades de filosofia e teologia, posso, ainda hoje, decifrar a etimologia do vocábulo.
Devotus : do verbo devovere, verbo que assume duas formas: uma transitiva: consagrar alguma coisa a alguém; outra pronominal: devovere se, consagrar-se a alguém ou a algo: devovere se patriae; sacrificar-se pela pátria. Em termos gerais: ser devoto era ser piedoso ou fiel: devotus Deo. Um irreligioso era considerado “não-devoto”.
O Dicionário Aurélio, no verbete “devoto”, reporta-se ao seguinte exemplo: “amigo dedicado”. É admissível que as pessoas desconfiem do vocábulo; onde achar amigos dedicados? Sem excessivo pessimismo, mas também sem otimisco, creio que estão perto da extinção, merecedores, portanto,  de máxima atenção por parte dos movimentos ecológicos de preservação ambiental.
Quanto a mim, atrevo-me a confessar-me devoto da Virgem Maria.
Ela, uma humilde judia de Nazaré, perguntou ao Anjo Gabriel, em nome da humanidade:
- Como se fará isso se não conheço varão?
Era uma menina provavelmente de 14 ou 15 anos de idade, de acordo com os melhores comentadores do Novo Testamento. Esclarecida pelo mensageiro divino,essa adolescente declarou-se “serva do Senhor”,disposta a colaborar no Mistério que lhe era anunciado.A mesma adolescente, pouco depois, meninazinha, numa imprevista explosão de auto-confiança, profetizou::
-De agora em diante todas as gerações me chamarão feliz!
 Que outra mulher , na História da Humanidade, ocupou tal posição? Que outra gozou de tal prestígio?
As mais insignes mulheres da História dificilmente nos deslumbram. Beleza, muitas delas a têm. Inteligência; algumas.Personalidade? Um bom número. Muitas, felizmente em menor número que seus companheiros varões, transbordam de astúcia, perfídia, voluptuosidade, crueldade...Não obstante entraram na História, alojaram-se no palácio da memória – a expressão é de Santo Agostinho. Um bom número entrou pelas portas dos fundos, algumas retardatárias, saltaram ppara dentro pelas janelas que alguém esqueceu de fechar...
Tornemos a reiterar: existem, é claro, as luminosas, as beneméritas, as assombrosas!
Que cada um escolha os nomes de sua preferência.
Permito-me indicar algumas: Clara de Assis, Catarina de Siena, Joana d’Arc, Teresa de Ávila...
Para que ninguém me censure de só mencionar “santas”, recordooutras duas, protótipos das mulheres modernas: Alienor de Aquitânia, mãe de Ricardo Coração de Leão e de João Sem Terra, poderosa, sensual, orgulhosa, vingativa...(mas foi Alienor de Aquitânia, não é? - e Heloísa, a do filósofo Abelardo!
Algumas delas pode-se comparar à Míriam dos Evangelhos,à mocinha de compara a Miriam de Nazaré, que foi celebrada pelo maior dos poetas, Dante?
O próprio Camões, cego de um olho, não a olvidou. Citou-a no Canto Terceiro dos Lusíadas, na estrofe 45.
Pouco? Sem dúvida. Em compensação, na Elegia N. 1 (de 1616),o mesmo Camões escreveu:
Pois, ó pura e santíssima Maria,
que, enfim,sentiste esta mágoa quanto
a gravidade dela o requeria;
dessa Fonte sagrada e peito santo
me alcançai uma gota com que lave
a culpa que me agrava e pesa tanto.

Digo, pois, que se fosse possível a um  cristão oorgulho, orgulhar-me-ia de minha devoção a essa Virgem, modelo de fé para qualquer seguidor de Cristo.
Espero que ninguém tenha a descortesia de brindar-me com caretices agnósticas ou atéias, chamando-me, por exemplo, de carola.
Conheço, como modesto escritor que sou, a força das palavras.
Por ser absolutamente única, Maria mereceu ser exaltada pelos maiores poetas gênios da humanidade, entre eles Petrarca, Luís de León, Antônio Vieira, Antero de Quental, Verlaine, Péguy, Hopkins, Claudel, nosso Manuel Bandeira, não se omitindo Alphonsus de Guimarães e Cruz e Sousa, de cuja autoria é a seguinte enternecedora invocação.

Mãe de misericórdia, sem pecado
original, desde o primeiro instante!
Salve! Rainha da Mansão radiante,
Virgem do firmamento constelado.
(...)
Salve! Rainha! Por quem brado e clamo
E brado e brado, e com angústia chamo,
chamo, através das convulsões do mundo!...
Confesso que me sinto vexado de acrescentar um copo d’água lírico a rios tão caudalosos, a mares tão grandes mares de devoção!
Mesmo assim vous cumprir meu ato de devoção:

Não te pedirei
que desças ao pé de mim
em minha agonia.
Pedir-te-ei
que te libertes de uma estátua,
e caminhes até um subúrbio
onde te aguardarei
sentado num banco de praça.
            Ali
estenderás sobre mim os teus olhos
com fragmentos de pedra.
Suplicarei a Deus
que me faça nascer de ti.
(Do livro inédito:Ladainha para uma Virgem Operária).

Aos meus singelos versos adiciono os ensolarados tercetos de Dante Alighieri (1265-1321), que ousei verter do italiano:

Mãe virginal, ó filha de teu Filho,
mais alta e humilde que qualquer criatura,
por Deus prevista em seu eterno brilho.

Em ti se ergueu a tão audaz altura
o ser humano, que seu Criador
de Si Mesmo tornou-se criatura.

Reacendeu-se no teu ventre o amor
a cujo sol, na paz da eternidade,
desabrochou esta dourada flor.

Qual meio-dia a pino, ali resplende
tua ternura; e embaixo, entre os mortais
és de esperança vívida nascente.

Senhora, tanto pode o teu carinho
que pedir graça sem a tua ajuda
é não ter asas, e voar sozinho.

Teu bem-querer não socorre somente
a quem suplica mas, com gentileza
às preces te antecipas, livremente.

Em ti misericórdia, em ti piedade,
em ti magnificência, em ti se junta
quanto no mundo existe de bondade.
(Divina Comédia. O Paraíso”. Canto XXXIII).

Estamos Cansados de ser Ocidentais.

            Abramos os olhos, amigos! Existe um provérbio que diz: o pior cego é aquele que não quer ver.
            Estaremos ficando cegos de tanto não ver?
À luz dos escândalos atuis:  pedofilia, perfomances anômalas  de políticos, falsificação de medicamentos, ataques especulativos a nações em apuros - a opinião pública parece anestesiada.
O cidadão normal já não pode tomar um café tranquilo pela manhã. O desjejum será sempre acompanhado por manchetes desoladoras. Os escândalos não costumam se apresentar  desacompanhados: apimentam-se com atentados terroristas.
A solução mais fácil seria imitar os malsinados avestruzes: baixar a cabeça, enfiá-la debaixo da areia de nossos probleminhas de fluxo de caixa, de nossas picuinhas afetivas no âmbito doméstico.
Mas, ao que parece, a maioria silenciosa, a que trabalha da madrugada ao  cair da noite, a que não exibe carros de última geração, a que utiliza os atopetados transportes público, principia a perceber que a sociedade não evolui sequer milímetros para o bem estar social e a respeitabilidade ética, a não ser quando os cidadãos se unem, e impõem, pela força de seus músculos democráticos ordem na turbulência.
Vejamos o que acontece na Itália: as mulheres resolveram enfrentar o machismo nacional, o dos líderes, e o dos varões em geral.
Machismo?  Ainda existe em pleno século XXI? Seria uma honra para nós afirmar sua inexistência. Mas quem não vê que ele triunfa em toda a parte: no marketing, na publicidade, nos ideais midiáticos de promoção social?
O máximo de despudor...Não!
A mais triste confissão pessoal que já li na minha vida, a mais extrema prova de ascensão e queda de auto-estima, foi a de uma adolescente, que vive na Itália. Sim, refiro-me a Ruby, a marroquina. Sua confissão foi divulgada pelos diários de todo o mundo:
-A outra era a querida do Papi. Eu sou...”
Não me atrevo a completar a declaração da menor de idade. Ou, caso fique provado, da maior de idade. Advirto que a infeliz adolescente não é em si culpada de tanta auto-degradação. Ela é um espelho da sociedade de consumo que lhe incutiu tais ideais.
E dizer que, nos “belos tempos” do Marxismo arruaceiro, na época da Revolução de 68, que incendiou Paris, na época das “nouvelles vagues” havia uma moda: falar em coisificação, em reificação, em objetivação feminina.

Entendamo-nos: os ideólogos que usavam tais expressões queriam significar que os burgueses transformavam as mulheres em bonecas vivas, as mesmas bonecas que com o tempo foram substituídas - pela tecnologia do sexo - por bonecas infláveis à disposição de celibatários incorrigíveis, ou misóginos.
Não é possível perder mais tempo mais tempo com tais frivolidades.
Necessitamos de um recauchutamento social (por enquanto, contentemo-nos com essa expressão sem graça). Aguardemos a sonhada reforma vocabular. Confúcio afirmou que toda reforma social deve começar por uma reforma do vocabulário.
Defender, pois, os valores burgueses, como é nosso hábito, e ao mesmo tempo desejar uma sociedade justa, é o mesmo que convidar um sacerdote a abençoar o escandaloso casamento da Água com o Fogo. O ministro de Deus junta as mãos dos nubentes, envolve-as na estola, pede-lhes que troquem as alianças. Perfeito! Não conseguirá que se amem.
Teremos o brio de lembrar que a humanidade já teve, e terá sempre guias iluminados. Pensemos em Jesus, não como hipótese, mas como incontornável realidade.
Talvez valha a pena repensar a frase de Ghandi: “Se vós, cristãos, vivêsseis como Cristo, a Índia inteira há muito estaria a vossos pés”.
Ninguém, neste momento, quer confessar, mas a realidade é que estamos cansados de ser ocidentais! Nossos valores – pois foram valores noutros tempos!– parece terem perdido a força do sal.
            Se aconteceu essa desdita , aceitemos, ao menos, as lições Lao-Tsé, Confúcio, Buda, talvez de Epicuro ( um dos mestres de Marx!), de Epíteto, ex-escravo, e de Sócrates.
Um pensador, tão lúcido como Romano Guardini, incluiu Buda e Sócrates entre os precursores de Jesus.
Todo o mundo sabe que o precursor oficial de Jesus foi João Batista.
O Rei Herodes, depois de uma cena de striptease, apresentada pela filha de Herodíades, (mulher de seu irmão Felipe), cuja conduta imoral o Batista condenara, mandou cortar a cabeça do Precursor, e presenteou com ela a bailarina, que acabara de abrilhantar sua festa de aniversário.
Foi uma manchete da época - que não chegou às primeiras páginas dos jornais, nem inundou as telinhas de televisão. -.É que não existiam.
 A manchete, porém, chegou até nós, nas páginas do testemunho de Mateus. Os leitores podem lê-la no Capítulo XIV de seu Evangelho.

Carta ao meu Cachorro, e a Madame Juliet Clutton-Brock.

(Crônica-quase-poema)

Antes de tudo, dirijo-me à Sra., Madame Clutton-Brock: - Obrigado  por seu livro sobre a História da Domesticação dos Mamíferos! Agradeço-lhe,  de todo o coração, essa contribuição ao conhecimento de nossos cachorros.
Talvez devesse concluir minhas palavras à Sra., nesta altura. Porém, como sou coagido a reservar tempo e espaço ao meu cachorro yorkshire, um  cãozinho amoroso que eu não sabia que descendia de lobos, nem que sua progênie - como a de quatrocentas outras raças de cães - devesse ser retrodatada a 15.000 anos da Era Cristã... Madame Clutton-Brock, dê-me licença para incluí-la  um pouco mais nesta missiva. A Sra. diz que tanto o latir sonoro das grandes raças como o latir saltitante dos cachorrinhos reduzem-se a tentativas de comunicação com os seres humanos. Ou, ao menos, de imitação de nossas vozes! Entendi bem, amável zoóloga? Também por isso lhe tenho gratidão! Que bom saber que os lobos e os coiotes,  numa palavra os canídeos, não  latem em estado selvagem, senão ocasionalmente! Madame, eu gostaria de chamá-la Lady!
Quero agradecer-lhe outra revelação: a de que os cachorrinhos, quando criados no seio de famílias que sorriem muito, imitam tal expressão de prazer dos familiares. A Sra. explica que tal sorriso  é “oblíquo” , e se situa em volta da boca desses animaizinhos. Que cortesia sua, a dessa explicação, Madame! Sinceramente, não sei como agradecer-lhe tão comovente pormenor!
Que lhe direi sobre a fotografia de P. A. Jewell, reproduzida na sua obra, na qual se vê, claramente visto, o sorriso de um cão, que se diverte no regaço de uma mocinha?
Quanta gentileza, Lady, Editor Sênior do Journal of Zoology! É demais! A Sra. vai acabar me conduzindo a uma mesa de cirurgia cardíaca...Obrigadíssimo!
Quanto a ti, meu querido Puff, quem te pagará tuas amabilidades? Poder contar contigo, amável criaturinha, ter as mãos lambidas por ti e, nas piores agruras, poder sussurrar-te às orelhas um carinho de desafogo...São dádivas que atribuímos ao Criador das coisas visíveis  e invisíveis! Apesar de Tomás de Aquino ter dito que as coisas invisíveis são melhores, rogo-lhe, a ele Doutor da Igreja, que me desculpe. Prefiro agradecer a Deus seres tu visibilíssimo,  ó cachorro! Peludamente visível! E estares contíguo a nós!
Se todos esses pormenores, Madame Clutton-Brock , não forem poesia...desfiliem-me já de toda Sociedade de Poetas Vivos! Deixem-me na companhia de  Puff-  e de teus irmãos, querido bicho, aos quais Francisco de Assis denominou “irmãos”, colocando-te na companhia do sol, da lua, das estrelas, do vento, da água, do fogo, da irmã morte... e dos lírios do campo!

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Escândalos nos jornais

Pensar nunca foi fácil.Atualmente é mais difícil, quase uma acrobacia!
Talvez devamos levar a serio a observação do bispo americano, Fulton Sheen:
- Basta que alguém coloque a cabeça entre as mãos, para que se aproxime alguém, e pergunte: “O Sr. está com dor de cabeça?”
As notícias não param de pipocar. Técnicos de Taiwan elaboram “reconstituições de episódios tórridos”, oferecendo-os ao público em substituição a vídeos rodados por aparelhos indiscretos. No meio desses assediantes fogos-de-artifício, alguém será, ainda, capaz de perguntar: - Onde ficaram os critérios de avaliação?
Digamos que um indivíduo tenha a idéia de recorrer às autoridades. Digamos que esse indivíduo prefira ouvir as autoridades eclesiásticas, ou outras autoridades de respeitabilidade moral, entre elas o Dalai Lama. Suponhamos, enfim, que esse alguém se dirija aos próprios representantes oficiais das autoridades.
Qual a impressão que deixam tais autoridades?
A de um campo de futebol, do qual tenham desaparecido os árbitros, os bandeirinhas, e até os gandulas! –
Amigos, começo, também, a sentir-me preocupado, até mesmo, a sentir-me “culpado”.
Já não estremeço diante de nenhuma notícia. Querem bombardear a Capela Sistina? Imaginei tal possibilidade. Pretendem destruir a Pirâmide-de-Vidro do Louvre? Estou preparado para chorar com os franceses. Alguém cogita em dar um tiro na Chanceler da Alemanha?  Meu Deus, até nisso pensei!
O que, porém, me deixa pasmo – um clichê das altas rodas – não são, exatamente, tais fantasias cabeludas. O que me deixa, de fato, pasmo, e me envolve com a mais espessa bruma mental, ao ponto de eu me lembrar de uma expressão cara aMachado de Assis: Il mondo casca! (O mundo vem abaixo!) , é verificar que os critérios parece terem sumido.  
Imaginemos um distraído crente, do um distraído judeu, ou um distraído muçulmano. Suponhamos que se indignem –contra qualquer personalidade da mídia envolvida em escândalos. À falta de outro, pensemos no primeiro ministro italiano, cujas perfomances amatórias causam furor neste momento.
 Se tais indivíduos levantarem a questão: Podem indicar-nos os parâmetros éticos para apreciarmos essas manchetes, quem lhes dará uma resposta adequada?
Até há pouco, tais parâmetros ajudavam-nos a fazer emudecer o inconsciente coletivo, ou o subconsciente pessoal de cada um, aquela voz que Carlos Drummond de Andrade inseriu nos seus versos famosos:
Oh! sejamos pornográficos
( docemente pornográficos),
 por que seremos mais castos/
que o nosso avô português?
Dito com mais clareza: onde ficou o fio-de-prumo do passado, que permita – não digo julgar as atitudes dos representantes da sociedade, eleitos livremente, mas torná-los reféns de algumas exigências de respeitabilidade social?
 Estamos perplexos! Já não percebermos, na confusão que nos cerca, tais critérios valorativos, sejam eles de ordem filosófica, evangélica ou, na pior hipótese, de ordem ideológica.
A verdade é esta: - necessitamos de critérios éticos que nos julguem, mas que não possam ser julgados por nós. Ou critérios perenes, que só a Fé pode dar, ou – ao menos  oscritérios kantianos da pressão interior, os postulados a-priori da razão prática.
Dito de outro modo: não estamos interessados em julgar a moralidade dos homens públicos.  Não queremos que nos mostrem suas carteiras de identidade. Não desejamos saber onde estiveram nas últimas semanas, se na penumbra de um confessionário, ou na elegante descontração de uma sala de psicanalista...Nada disso! O indivíduo – o sujeito em carne osso – não nos interessa! Como não nos interessa a qualidade do papel em que foi impressa uma lei, ou uma encíclica.
 Queremos que alguém  (o ideal seria um Anjo, um Demônio, ou um Poeta, talvez Dante Alighieri) nos diga na cara:
 Pessoal, atenção!
 Nossa Constituição (ou, se somos crentes), nosso Credo, ou nas pior das hipóteses, o código de nossa agremiação poliítica  nos impõem princípios de conduta  inegociáveis.
 Onde estão esses princípios?
Esqueçamos, portanto. o primero ministro, o esportista Tiger, o jogador Maradona, et alii. Tenhamos, até, compaixão de sua imensa solidão pessoal, de seu descalabro existencial.
Pensemos em nós!
Pensemos no risco que corremos de incidir na hipocrisia, de condenarmos o alcoolismo sem saber o que é o álcool, na pretensão de se considerar a embriaguez qualquer gole de refrigerante.
Será que não nos damos conta de que estamos a caminho de um estrepitoso vômito?

A Mídia, Nós, e o Bom Senso

Comecemos pelo bom senso.
Se o leitor não conhece Blaise Pascal (1623-1662), autor do livro Pensamentos  procure-o. Existem várias traduções portuguesas desse clássico, uma delas é a de  Sérgio Milliet. (São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1957).
Na introdução da obra, inclui-se uma “Vida de Pascal”, escrita pela irmã do cientista e pensador. Um dos trechos dessa biografia  me impressionou:
 Fazia a cama ele próprio, jantava na cozinha, lavava a louça, e só apelava para o seu pessoal quando era absolutamente inevitável.
Lembrei-me disso ao deparar, nos jornais, com uma verdadeira enxurrada de episódios relativos a personalidades da política, e do mundo do espetáculo.
Uma evidência salta de tudo isso: a privacidade sumiu!
É algo bom? É algo negativo? Ou nos resignamos ao nosso tempo: algo inevitável?
Surge outra questão: pode haver quiçá um consenso qualquer sobre a privacidade?
 As câmeras de televisão tornaram-se onipresentes (algumas, até, oniscientes). Qualquer sujeito que possua um celular, pode flagrar não importa quem em todas as situações imagináveis. Li num jornal europeu que houve protestos, em alguns países da eurozona, porque se instalaram câmeras dentro de toaletes públicas.
Estamos assistindo a sucessivos stripteases morais.
Tempos atrás, foi o caso do Presidente Clinton. A seguir, o de Sadham Hussein – um striptease macabro. Agora, em plena Humana Comédia, o primeiro-ministro de uma das mais importantes nações européias se vê enrodilhado num cipoal, onde brilham por sua presença escorts magrebinas, russas, caribenhas, e brasileiras.
Deixemos claro desde já: não estamos interessados em emitir julgamentos sobre a divulgação da mídia, nem sobre os episódios em si.
O que nos parece estar em jogo são questões, que podem ser incômodas para nós.
Eis algumas dessas questões:
I. Quem  se compraz em acompanhar detalhadamente tudo isso, está ou não está sendo cúmplice do que está vendo?
2. Até que ponto é possível que se infiltrem sentimentos de  secreta inveja em relação aos escândalos? Tais sentimentos não poderão estar dentro de nós?
Pascal escreveu:
- Não se é miserável sem sentimento. Uma casa em ruínas não o é. Só o homem é miserável.
3. Será vantajoso à sociedade estar informada sobre a vida particular de tais pessoas? Não significa tal interesse uma espécie de voyeurismo?
4. Estaremos aproveitando-nos da desdita alheia para nos sentirmos superiores aos seus protagonistas? Digamos: sua riqueza, posição, e mulheres, não serão – consultemos os sábios da escritura freudiana – objeto de nossos desejos?
5. Na atual disputa de vídeos, entrevistas, afirmações e contra-afirmações, quem está em condições de arvorar-se em analista de tais crapulices, ou não-crapulices?
6. Finalmente, outra questão: “É lícito a um indivíduo, investido de funções públicas, eleito democraticamente, proporcionar aos seus eleitores tais espetáculos ?
A verdade é que não somos melhores nem piores, do que os homens que estão sob os holofotes de nossa mídia. Por sua vez, eles, também, não se diferenciam de muitos personagens consagrados de nossos livros de História, com H maiúsculo. Por exemplo, no século X, nos tempos de Teofilacto e Teodora, grandes personagens de Roma, existiu por lá uma pornocracia.
 A questão não é sentarmo-nos em poltronas de tribunais, ou exultarmos com nossa conduta acima de qualquer suspeita. Lembremo-nos de que não fomos, ao que parece, abalroados por nenhuma sedução irresistível ( satânica?) ou, como diria Paulo de Tarso em queixa ao próprio Criador, nenhum espinho na carne  por enquanto nos atormentou!
 A questão é infinitamente outra: a de sabermos se existem padrões estáveis de comportamento, que sejam obrigatórios também para os que nos governam.
Como conclusão, eu teria a insolência de pedir a esses potentados do mundo, a esses ícones de nossa mídia, que imitassem Pascal:
 Voltem a lavar louça, ajudem as mulheres nas ocupações domésticas e, sobretudo, jantem na cozinha.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Exixtgirão clássicos no século XXI?

I. O Termo “Clássico”.

Os Dicionários de Literatura atribuem a expressão clássico ao gramático Aulus Gellius (Roma, 130-175 d.C.), que, por primeiro, estabeleceu uma distinção entre scriptor classicus e scriptor proletarius, ou seja, entre o autor que escreve para leitores cultos e o autor que escreve para o público em geral. Poderíamos, quase, dizer, em linguagem atual, que Aulus Gellius pretendia distinguir autores de alto nível literário de autores de nível médio, como o são os autores da maioria dos best-sellers que constam nas listas semanais de “Os mais Vendidos” de revistas de atualidades como Veja na Brasil, Panorama na Itália e Der Spiegel na Alemanha.
A expressão clássico começou a ser usada, no Renascimento, para caracterizar poetas que deviam ser considerados modelos pelos jovens autores. É o caso de Thomas Sibillet no seu L’Art Poétique Français (1548). Não tardou que a expressão fosse estendida aos autores lidos nas classes, isto é, aos que eram considerados autoridades. Com o passar dos anos, o termo passou a ser reservado aos autores da Antiguidade, visto que só eles tinham resistido à prova do tempo. Algum tempo depois, foram denominados clássicos os autores que não eram românticos. Finalmente, em 1850, Charles Augustin Sainte-Beuve publicou o seu conhecido ensaio: “Qu’est-ce um classique?”[1]definindo, pela primeira vez em termos modernos, o conceito de classicismo literário.
Nesse ensaio, o crítico francês expôs os critérios segundo os quais um autor deveria ser considerado clássico:
Um verdadeiro clássico – escrevia Sainte-Beuve - como me agradaria defini-lo, é um autor que enriqueceu o espírito humano, que realmente aumentou o seu tesouro, que lhe fez fazer um passo adiante, que descobriu alguma verdade moral inequívoca, ou que surpreendeu alguma paixão eterna no coração onde tudo parecia já conhecido e explorado, que nos comunicou seu pensamento, sua observação ou sua invenção sob uma forma  mais ampla e grande,  fina e sensível, saudável e bela em si mesma, que falou a todo o mundo num estilo que é, ao mesmo tempo, seu estilo pessoal e o estilo de todos, um estilo que é novo sem neologismos, novo e antigo, facilmente contemporâneo de todas as épocas.[2]
Sainte-Beuve lembrava que não existia receita para se fazer um clássico, e que se devia desconfiar dos (assim ditos) “clássicos precoces”.[3] Acrescentava: “os clássicos imprevistos são os melhores”.[4] Recordava que o próprio Shakespeare não era considerado clássico na época de Alexander Pope (1688-1744).[5] Insistia em que cada leitor escolhesse seus próprios clássicos, pois é sempre “necessário escolher, e a primeira condição do gosto, depois de se ter compreendido tudo, consiste em não viajar incessantemente, mas em parar, e tornar-se estável (...) Façamos nossa opção dentro dos limites de nossos instintos”.[6] Concluía o ensaio dizendo: “Chega uma hora na vida em que todas as viagens foram feitas, todas as experiências terminadas, em que a maior fruição consiste em estudar e aprofundar as coisas que já sabemos, em saborear o que sentimos, do mesmo modo como nos encanta ver e rever as pessoas que amamos (...)[7]

II. Uma Questão: Quem eram, afinal, os “Clássicos” para Sainte-Beuve?

O crítico menciona 38 nomes por ele considerados clássicos. Entres eles, Homero, dois autores indianos Valmiki e Vyasa, seguidos do poeta persa, Firdusi. Evoca Sólon, Hesíodo,Teógnis, Xenofonte, Platão, Sófocles, Demóstenes. Da Bíblia destaca O Livro de Jó, e o Cântico dos Cânticos. Seguem Confúcio, Virgílio, Menandro, Tíbulo, Terêncio, Horácio, Ovídio e Lucrécio Também são incluídos, entre os clássicos, Dante, Bocaccio, Ariosto, Torquato Tasso, Montaigne, Malherbe, La Fontaine, Corneille, Pascal, Bossuet, Molière, Shakespeare, Swift. A lista completa-se com Cervantes, Milton, Voltaire, Goethe.
Em linhas gerais, os clássicos de Sainte-Beuve eram os de nossa tradição humanista ocidental.
O autor do presente ensaio foi aluno de um seminário católico, no tempo em que seus mestres possuiam, além de uma bagagem filosófica e teológica específica, bagagem respeitável, para não dizer excepcional, de natureza literária. Apreciavam os tesouros da poesia litúrgica, as homilias de alto lirismo de São Bernardo de Claraval, e outras muitas jóias da literatura cristã. Porém apreciavam, igualmente, autores pagãos ou profanos, da envergadura de Demóstenes e Cícero.
Apesar dos pesares, sou obrigado a confessar que nossos mestres exageravam no culto a tais clássicos, favorecendo uma espécie de veneração postiça a eles. A bem da verdade, seja dito que isso não era tão corrente. Uma das razões para tal pseudo-veneração provinha do fato de que alguns clássicos não podem ser abordados à revelia de seus contextos culturais, ou seja, fora de seus próprios idiomas. No meu tempo de seminarista, por exemplo, estudava-se grego e latim para se poder ler, primeiramente, os textos bíblicos, os textos escolásticos, e finalmente os grandes autores não-cristãos.
 No que concerne à minha iniciação ao grego, ela evaporou-se. Quanto ao latim, desde que não se trate do latim de Cícero, leio-o com certa facilidade. Retornemos, porém, à questão do culto postiço – ou artificial - dos clássicos, ao qual me referi.
Um crítico, que se tornou brasileiro por adopção, o tcheco de nascimento, Otto Maria Carpeaux, refere que Paul Valéry perguntou, um dia, a Gide: “O Sr. conhece uma coisa mais tediosa do que Virgílio?” Gide lhe replicou: “Sim, Homero”.[8]
Tais anedotas, a respeito de clássicos e de outros autores não lidos, são divertidas. Num interessante livro: A Biblioteca e seus Habitantes, obra que, no dizer de Carlos Drummond de Andrade, “encerra um mundo de leituras e idéias, em notável concentração”, o erudito Américo de Oliveira Costa recolheu algumas dessas estranhas “pérolas”: Paul Caudel falava de Montaigne como de um “espírito medíocre e superficial”. Nietzsche qualificava George Sand de “incrível vaca de escrever”... Victor Hugo, não incluído por Sainte-Beuve na sua lista, desprezava Goethe. Byron considerava Shakespeare um “impostor audacioso”. Charles Péguy chegou à insolência de dizer sobre Dante: “Esse turista!” Mallarmé extremava o seu desdém ao referir-se a Victor Hugo: “Que grande poeta seria Victor Hugo se tivesse tido alguma coisa para dizer!” Pior ainda o que se relata de Tolstoi (que hoje seria incluído em qualquer lista); Tolstoi não se vexou de dizer a Tchekhov: “Você sabe que eu detesto a poesia de Shakespeare! Pois bem, o seu teatro é pior ainda...” Tolstoi (todos os seus biógrafos o sabem) era um  notório ranzinza. Falando sobre Os Irmãos Karamazov, de Dostoievsky, o autor de Guerra e Paz foi taxativo: ”Como este livro é falho de arte!”  Julien Benda, com um pouco menos de vitríolo,  exclamava: “Admiro Valéry por não ter jamais lido Proust”. Também o conhecido romancista, D.H. Lawrence não gostava de Proust.[9] 
Se Voltaire (incluído por Sainte-Beuve na sua famosa lista) teve o desplante de dizer: “Dante era um louco”, afirmando que o Florentino não seria lido no futuro, seu compatriota, Charles Péguy  contradisse, solenemente André Gide: “ Homero é novo nesta manhã, e nada pode ser mais velho do que o jornal de hoje”.[10] Mas que diremos sobre as  palavras de Léon Bloy: : “Outrora, tentei ler Dante na sua melhor versão.(...) O tédio me deitou abaixo, um tédio insuperável”?[11]
Permitam-me uma confissão pessoal: li, no mínimo, quatro vezes a Divina Comédia, e ainda hoje a leio, com muita frequência. Li várias vezes Dom Quixote, e me sinto cada vez mais fascinado por essa obra-prima. Já não sei o número de vezes que li a Bíblia, e alguns pensadores, como Pascal. Quanto aos poetas, não compreendo um leitor de poesia que não leia muitas vezes seus poetas prediletos! Afirmo-lhes, pois, com convicção: mais do que um leitor, sou um re-leitor.
Mencionemos, agora, um episódio, que tem por protagonista o grande renovador da literatura brasileira, Mário de Andrade, poeta, romancista, historiador. Numa carta ao poeta Manuel Bandeira, Mário de Andrade confessou que, na epopéia de Camões, Os Lusíadas, ele achava trechos fastidiosos, que as pessoas liam (segundo ele) só para dizerem que tinham lido até ao fim essa famosa epopéia clássica.[12] Pela sua parte, Rodrigo Octavio Filho, poeta e crítico literário, que pertenceu à Academia Brasileira de Letras, dizia: “Os Lusíadas eram um martírio para os meninos do meu tempo, uma leitura oficial e obrigatória, desdobrada em análises lógicas e gramaticais”.[13]
Desejo insistir num ponto: é preciso adotar uma atitude mais natural e mais verdadeira em relação aos clássicos! Aprecio, por isso, o fato de Jorge Luis Borges ter declarado se sentir incapaz de ler até ao fim o legendário romance de James Joyce, Ulisses.[14] Gostaria, ainda, de observar que aquilo que nos parece, num determinado momento da vida, pouco interessante, não tão valioso, pode, com o tempo, ser retificado por novas leituras. Vejamos o caso de Guimarães Rosa: aos 31 anos de idade, quando era Cônsul do Brasil em Hamburgo, na Alemanha, ao terminar de ler Memórias Póstumas de Brás Cubas, uma das obras-primas do clássico nacional, escreveu num caderno pessoal,  provavelmente num momento de mau humor: “Machado de Assis usa de construção primária.(...) Não pretendo ler mais Machado de Assis.(...) Acho-o antipático de estilo, cheio de atitudes para embasbacar o indígena; lança mão de artifícios baratos, querendo forçar a nota de originalidade; anda sempre no mesmo trote pernóstico, o que torna tediosa sua leitura.(...) Quanto às idéias, nada mais do que uma desoladora dissecação do egoísmo, e, o que é pior, da mais desprezível forma de egoísmo: o egoísmo dos introvertidos inteligentes. Bem, basta, chega de Machado de Assis”.[15]
Que significa isso? Que Joyce não seja um notável escritor, talvez um gênio? Que Machado de Assis é um escritor de segunda classe?
 O problema, na minha opinião, é outro. Primeiramente, as leituras acompanham o indivíduo. A maturidade deste é decisiva.
Outra advertência: existem clássicos, de tal modo identificados com sua língua e cultura, que só se lhes pode abarcar a genialidade, quando entramos nessa língua e nessa cultura. Ouso dar um exemplo: um leitor, que não for brasileiro, talvez português, ou ao menos de língua espanhola, a mais próxima do português, dificilmente entenderá o autor, ao qual acabamos de nos referir, o crítico de Machado, ou seja, o próprio João Guimarães Rosa, e de modo particular, seu romance Grande Sertão: Veredas. Duvido que um estrangeiro possa saboreá-lo integralmente, do ponto de vista estético, sem um mínimo de familiaridade com uma das línguas afins ao português. Lembro-me que me surpreendi ao deparar, no livro de Louis Gillet, sobre Dante, uma sutil observação. Dizia o comentarista francês que um dos mais melodiosos versos da Divina Comédia era o seguinte:

io fui nel mondo vergine sorella...[16]

Quem poderia degustar verso tão singelo, suas assonâncias delicadíssimas, sem ter intimidade com o idioma italiano?
Estou-me referindo não somente à língua, mas também ao seu inconsciente e subconsciente semânticos. No tocante a isso, a mais bela regra de ouro que encontrei é do próprio Borges:
Clássico não é um livro que necessariamente possui tais ou quais méritos; é um livro que as gerações humanas, urgidas por diversas razões lêem com prévio fervor e com misteriosa lealdade.[17]
Gosto, também, de citar a definição de Italo Calvino, que completa a de Borges:
 Clássicos são os livros que chegam até nós trazendo em si os vestígios das leituras anteriores, e mostrando na sua esteira os vestígios que eles mesmos vão deixando na cultura.[18]
Encanta-me, ainda, esta outra regra de Calvino:
 Clássico é aquele autor em relação ao qual não consegues ser indiferente, que te ajuda a te autodefinires em relação a ele, ainda que seja em disputa com ele.[19]

III. Mas... Existirão Clássicos no Século XXI?

Minha resposta é positiva.
Enquanto existirem leitores, leitores de um certo tipo, pertencentes a uma certa estirpe, existirão clássicos.
Não acredito em críticos, que pretendem tratá-los como fósseis vivos!  É conhecida a boutade: “Clássicos são os autores que todo o mundo cita, mas ninguém, lê”...
Tenho sérias dúvidas sobre críticos que se acham muito íntimos
dos clássicos. É melhor confessar, com perplexidade, que não conseguimos lê-los, umas vezes por incompatibilidade estética, outras, porque nem todos suportam as alturas rarefeitas até onde eles se alçam.  Existem clássicos que admiramos, mas que dificilmente regressaremos a eles. Existem outros que lemos continuamente, sem jamais chegarmos ao fim de seus livros, porque cansamos deles. Dou um exemplo: li Homero várias vezes (em várias versões). Não consigo nunca chegar até ao fim. Por que? Porque não encontro o Poeta em quase nenhuma das traduções.. É como se visitássemos a casa do poeta, com todos os seus móveis, etc., e não pudéssemos falar com o poeta. Não raro, tenho a impressão de que os tradutores de Homero não são  traidores, mas esforçados servidores ou criados dele, que se esforçam por chamar a atenção sobre o poeta, mas acabam chamando a atenção sobre si mesmos... Outras vezes, tenho a impressão de que nos oferecem um Homero que não foi Homero, mas, antes, um cidadão de nosso tempo, embalsamado segundo processos de crionização... A rigor, o corpo não está descomposto, está bem conservado, mas a alma do poeta...  onde estaria ela?!
É diferente, para mim, o caso de Shakespeare! Não desistirei jamais de lê-lo! O que li, em obras suas traduzidas, foi suficiente para me persuadir de sua genialidade. Formei, como vêem, uma idéia parcial da genialidade de Shakespeare, visto que não consigo lê-lo em língua inglesa, mas os seus dramas chegam a me interessar, ou antes, me comovem profundamente; e suas comédias me encantam!
Bendigo o idioma espanhol!  Nasci numa região do Brasil onde é possível escutar o espanhol, visto que o intercâmbio com o Uruguai e a Argentina é  frequente. Isso me permitiu ter acesso aos tesouros dessa língua. Faço minhas as palavras de Jorge Luis Borges:

Gracias quiero dar al divino
Laberinto de los efectos y de las causas...

por me ter sido concedida a dádiva de poder ler tantos clássicos da literatura espanhola, seja do passado, seja do presente, entre os quais San Juan de la Cruz, Fray Luís de León,  Francisco Quevedo, Luís de Góngora, António Machado, García Lorca, Alfonso Reyes, Juan Rulfo, García Márquez. O mesmo digo da língua italiana, na qual fui iniciado desde criança.

Retomemos a questão: existirão, afinal, clássicos, no século XXI!?

Penso que a única condição sine qua non para isso é que existam leitores sem pressa, leitores hedônicos, leitores que sejam capazes de nadar contra a corrente. O poeta alemão Günter Kunnert (nascido em Berlim, em 1929) publicou na Revista Humboldt um artigo substancioso a esse respeito. Diz Kunnert que o leitor do passado cedeu lugar, em muitos casos, num brevíssimo lapso de tempo, a um espectador, simples consumidor de obras literárias, já que não faz esforço algum para traduzir, para algo visível na sua mente, o elemento abstrato do texto. Esse tipo de leitor interioriza, inconscientemente, o modo de recepção da televisão. Daí o seu tédio. O cérebro desse leitor – digamos – midiático, é como uma esponja saturada de informações variadas e contraditórias, repleta de fragmentos das mais diversas áreas do conhecimento. Estas o impedem de se entregar integralmente à leitura. Tal tipo de leitor interessa-se apenas pelo que é curioso ou exótico. [20]
Se desejamos fazer uma abordagem completa do problema, precisamos mencionar, demais a mais, dois outros importantes fenômenos: a sonegação emocional e a debilitação da memória coletiva.
       A  sonegação emocional  é um fenômeno relativamente novo em nossa sociedade. Consiste em a pessoa não revelar – ou não ser capaz de revelar – seus próprios sentimentos. Todos nós possuimos, não só uma identidade biológica, que se expressa em suas impressões digitais e no seu código genético, como também, uma memória única, que garante nossa identidade pessoal. As recordações autobiográficas registram experiências vivenciais e relações intersubjetiva, a rigor, intransferíveis. A maior parte de tais souvenirs permanecem latentes dentro de nós. Elaboramos linguisticamente tão somente uma porção mínima de tais experiências e relaçõesÉ nisso que se apoia nossa identidade. As memórias disponíveis e indisponíveis – sem falar nas memórias inacessíveis, ou seja, as memórias que emergem através de traumas ou mediante técnicas psicanalíticas – tais memórias disponíveis e indisponíveis (estas últimas podem ser chamadas de “esquecimentos induzidos”) constituem o que mostramos exteriormente: o nosso eu. O “nosso eu”, porém, para poder comunicar-se com as outras pessoas, com os outros eus, necessita elaborar linguisticamente seu universo interior. Numa palavra, precisa torná-lo “objetivo” mediante a linguagem expressa. É aqui que se localiza a sonegação emocional. Ao passo que os sentimentos e emoções de um indivíduo são múltiplos e variados, o seu vocabulário – ponte obrigatória de comunicação entre as pessoas – é restrito. Li, há algum tempo, que o vocabulário da gente comum se compõe de poucas palavras. Dez palavras seriam suficientes para 25% das conversas diárias, e cem palavras para todo tipo de conversas.[21] Bertrand Russel  observa, num de seus “Ensaios Céticos” que “ aqueles que só conhecem 1.500 palavras não conseguem exprimir-se nem com precisão nem com beleza, exceto nos assuntos mais triviais, e pelo mais raro acaso”. Continua o ilustre filósofo: o vocabulário de metade da população americana mal chega a um décimo do vocabulário de Shakespeare! No entanto, o que o autor de Hamlet dizia devia ser inteligível ao cidadão comum de sua época, “dado que eram palavras usadas em peças que tinham sucesso comercial”. Conclui Russell: “o ponto de vista moderno é que tem suficiente domínio da língua o homem que se faz entender; o antigo era de que tanto ao falar como ao escrever, ele devia estar em condições de proporcionar prazer estético”.[22]
Com tal indigência léxica, a sonegação emocional aumenta assombrosamente. As pessoas, para expressarem suas emoções, parecem ter um único vocábulo, ou antes, algumas palavras-ônibus. Uma delas, pelo menos em português: “Fantástico!” Outra: “Tri-legal!” Como poderão tais pessoas ler textos diversificados, mais profundos, mais sutis? Somente indivíduos com um vocabulário mais rico poderão assimilar (e expressar) verdadeiras emoções, não emoções construídas, recozidas, ou “bricoladas” (de “bricolage”), isto é, tomadas de empréstimo aos meios de comunicação. Caso contrário, tais pessoas teriam de tornar-se gênios - como Machado de Assis ou Alessandro Manzoni e Giovanni Verga - para dizerem o máximo com um mínimo de palavras. É o caso dos verdadeiros grandes escritores!

Que diremos sobre a debilitação da memória coletiva?

 As nações e instituições não são regidas por leis que lhes impõem certa capacidade memorativa, como a do cérebro humano. Noutras palavras, não existe nelas nada que corresponda ao fundamento biológico do ser humano. Apesar disso, a memória coletiva não é uma mistificação. As nações, instituições, igrejas, etc. não possuem uma memória, porém, como observa Aleida Assmann, a produzem, servindo-se para tal finalidade de símbolos, memoriais, imagens, ritos, lugares e monumentos.[23] Portanto, se as pessoas, como membros da espécie humana, possuem uma memória pessoal, elas, também, possuem, na condição de cidadãos – enquanto membros de uma nação ou instituição - uma memória especifica, vinculada a uma história, a um pensamento, a uma sensibilidade. Por exemplo, nós, brasileiros, somos brasileiros porque temos uma memória nacional. Os que não são brasileiros, não têm a memória coletiva de meu país, nem de minha língua. Podemos, é claro, ampliar nossa memória coletiva, adicionando-lhe outras memórias do mesmo gênero. Isso é possível até certo ponto. Henri Bergson, por exemplo, dizia que é quase impossível odiar um povo cuja língua nós próprios falamos.. Em síntese, podemos, até, planetarizar – ou, como se diz hoje, globalizar nossa memória social. A capacidade de fazer isso pode demonstrar, inclusive, nossa solidariedade humana. Julgo, porém, que a globalização, pura e simples de memórias coletivas não é possível. O que me parece possível é transformar a globalização, que, sem dúvida, é algo também de ordem cultural, predominantemente pragmático, implicando, com certa freqüência, a emergência de velhos rancores históricos e de outros traumas religiosos, em um encontro autêntico de culturas, numa permeabilização de valores diversificados.
Voltemos, uma outra vez, aos clássicos. Existirão tais autores no nosso século?
Sobre isso não tenho a menor dúvida! Desde que os leitores se tornem, cada vez mais, conscientes de suas recordações e emoções. Desde que os gênios de cada nação consigam, mediante os poderes, por assim dizer mágicos da linguagem, materializar em signos verbais, sua própria memória pessoal e as memórias coletivas de seus respectivos povos. Os clássicos, na verdade, são os autores que exploram as recordações mais íntimas, mais secretas do ser humano, e as fazem dialogar, não só com a memória coletiva do povo a que pertencem, mas com as memórias coletivas de outros povos. Enquanto houver um homem que fale e escreva suas próprias recordações (e suas fantasias, que são recombinações geniais de memórias pessoais e coletivas), transfigurando-as mediante sua própria língua materna (ou tornada quase-materna, como foi o caso do romeno-francês E.M. Cioran) existirão clássicos. As línguas de cada povo preservarão esses povos de serem devorados pela globalização, pelo terrorismo cultural, e por outros delírios da Humanidade. É até possível que a globalização econômica e financeira seja acompanhada de um fenômeno positivo: a globalização do capital simbólico da humanidade, benéfico para todos os povos e nações do mundo.
Em abril de 1955, por ocasião de uma cerimônia fúnebre em homenagem a Albert Einstein, na Universidade de Princeton, o Rabino Irving Dewey evocou uma de suas últimas conversas com o cientista. O Rabino contou ter apresentado a Einstein a seguinte questão:
“- Que diferença haveria se a terra se desfizesse, repentinamente, como uma nuvem?”
Einstein  replicou-lhe:
“- Nunca mais se ouviria  a música de Mozart”.[24]
Atrevo-me a dizer que, enquanto um poeta for capaz de compor sonetos como os de Petrarca, ou os de Dante, e um leitor se sentir emocionado e encantado com versos como os seguintes

Tanto gentile e tanto onesta pare
La donna mia quand’ella altrui saluta
Ch’ogne língua devem tremando muta,
E li occhi no l’ardiscon di guardare

etc.[25]
ou os de Umberto Saba:

Ho parlato a uma capra.
Era sola sul prato, era legata.
Sazia d’erba, bagnata
dalla pioggia, belava.

Quell’uguale belato era fraterno
al mio dolore. Ed io risposi, prima
per celia, poi perché il dolore è eterno,
há uma voce e non varia.
Questa voce sentiva
gemere in uma capra solitária.

In uma capra dal viso semita
sentiva querelarsi ogni altro male,
Ogni altra vita.[26]

enquanto – repito - existirem pessoas que sejam capazes de se comover com versos tão puros e sugestivos, existirão clássicos no século XXI, pelo menos nessas línguas bem-aventuradas!
(Último capítulo do livro "Ler Por Dentro". Porto Alegre, Editora Pradense, 2010. p. 115-126)



[1] Causeries de Lundi. Tome III. 3 ed. Paris, Garnier, 1850. p.38 ss.
[2] Ibid. p.42.
[3] Ibid. p.49.
[4] Ibid. p.50. O negrito é nosso.
[5] Ibid. p.47.
[6] Ibid. p.54.
[7] Ibid. p. 54..
[8] Origens e Fins, Rio de Janeiro, Edições da |Casa do Estudante, 1943.p.13.
[9] Cf. todo o capítulo XIII. p. 104-111.
[10] Cit. por André Blanchet, in: La Littérature et le Spirituel. Tome III. Paris, Aubier, 1962. p; 38; p.11.
[11] Cit. por Octavio de Faria, in: León Bloy. Rio de Janeiro, Gráfica Record Editora, 1968.161.
[12] Cartas a Manuel Bandeira. Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1966. p.110. (Carta de 13 de maio de 1925).
[13] Cit. Por Murilo Mello Filho, in: Revista Brasileira., Rio de Janeiro, Fase VII, julho-agosto-setembro de 2006, Ano XII, n.48. p.31.
[14] In: Entrevista à revista Leia. São Paulo, ano XII, n. 134, dezembro de 1989. p. 43.
[15] CONY, Carlos Heitor: “Rosa e Machado”. In: Folha de S. Paulo, 20 de maio de 2006. Cit. Por Fábio Lucas, in: Revista Brasileira. Fase VII, julho-agosto-setembro 2006,  Ano XII, n. 48. p. 80.
[16] Paradiso, Canto III, 46.
[17] Obras Completas. 1923-1972. Buenos Aires, Emecé Editores, 1974. p.773.
[18] Por que ler os Clássicos. São Paulo, Companhia das Letras, 1993. p.11.
[19] Ibid. p.13.
[20] Revista Humboldt. Bonn, ano 37,1995, n.70, p. 4.
[21] Pesquisa citada por Mário Pei, Professor de Filosofia Neolatina da Universidade de Columbia. In: Seleções do Reader’s Digest. Tomo XLIV, julho de 1963, n. 258, p. 76.
[22] Ensaios Céticos.(Trad. de Wilson Velloso). São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1955. p. 77.
[23] “A Gramática da Memória Coletiva”. In: Revista Humboldt. Bonn, ano 45, 2003, n.86, p. 2.
[24] Cit. por Américo de Oliveira Costa. In: A Biblioteca e seus Habitantes. p.99.
[25] Dante. Opere (a cura di Manfredi Porena e Mario Pazzaglia). Bologna, Nicola Zannichelli, 1966. p.961-962.
[26] SABA, Umberto. Poesie Scelte (a cura di Giovanni Giudici). Milano, Arnoldo Mondadori, 1960.p. 21. Tradução: “Falei a uma cabra./ Estava sozinha num campo, atada. /Saciada de erva, molhada/ pela chuva, balava./ Aqueles balidos constantes eram fraternos/ à minha dor. Respondi-lhe, antes de mais nada/ por brincadeira, depois porque a dor é eterna,/tem uma voz que é sempre a mesma./ Esta voz eu a sentia/
gemer na cabra solitária./ Numa cabra de rosto semita/ sentia lamentar-se todo o mal alheio/ toda a existência alheia.”