quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Mensagem de Fim de Ano


        Ninguém gosta do que acaba.
 Pode-se gostar do que se encontra em extinção quando  se trata da pungência de uma dor, ou do ressentimento de uma relação amorosa que desabou.
         Por ocasião de velórios, pessoas suspiram:
         - Descansou!
         Descansou do quê?
Da vida?
Só descansamos depois de termos trabalhado, de termos feito um esforço mental ou físico. No caso de um falecimento, o indivíduo descansa de ter sofrido.
Às vezes, pergunto-me se os circunstantes estão se referindo ao defunto, ou  a eles próprios – que (finalmente) estão descansando! Descansando de terem sofrido com o morto!
O sofrimento dos vivos continua, visto que a memória não deixa de acompanhar-nos, semelhante a um cãozinho fiel, e por vezes ela mesma é acompanhada – infelizmente – por um complexo de culpa infundado: o sentimento de não sabermos jamais se fizemos tudo o que podia ser feito para aliviar o sofrimento de entes queridos, que se despedem de nós.
Para sempre?.
         Talvez algum leitor tenha começado a ler esta mensagem com certa irritação ou desalento.
-Diabos: por que enviar uma mensagem aos amigos para intensificar a dor de um ano que finda,  de um ano que se adiciona aos anos que já vivemos, portanto, ao tempo cruel que, no dizer de Charles Baudelaire, “devora a vida”?
Minha mensagem é a de um escritor cristão.
         Não desejo que ninguém leia esta mensagem a partir de uma visão negativista.
Devido a isso, sublinharei um pouco mais o pessimismo do mundo atual, o qual teima em ser feliz na contramão do Evangelho.
Leiamos o seguinte trecho de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que Marc Ferro, colocou no Prefácio de um livro póstumo do conhecido historiador francês, Lucien Febvre: Gênese de uma Civilização: a Europa.(Tradução de Ilka Stern Cohen. Bauru, EDUSC, 2004):

         Europeus que não são mais ingleses, nem franceses, nem espanhóis (...) que têm todos o mesmo gosto, as mesmas paixões (...). Que lhes importa a que senhor obedecem, de qual Estado eles seguem as leis? Contanto que eles encontrem dinheiro para roubar e mulheres para corromper, por toda a parte, estão em sua terra”.
        (Ob. citada. p. 15).
         Abramos os jornais e as revistas, ou – já que nos é oferecido, de mão beijada, esse milagre tecnológico que é a Internet, acessemos um site qualquer de jornal internacional.
As manchetes o confirmam.
         Que pessimismo?
         O de um  mundo descristianizado.
         Dias atrás, uma amiga disse-me de repente:
         - Sabe que agora virou moda desbatizar-se?
         Perante minha tristeza – mais do que meu espanto, ela acrescentou:
         - Sim, desbatizar-se é desejar não ser o que se foi...
         Respondi-lhe:
         - Esse é o maior milagre da desbatização: alguém poder apostatar livremente!
         Citei-lhe, então, o grande teólogo católico do século XX,  Romano Guardini, que disse, certa vez: um indivíduo humano que não sentiu, alguma vez  na vida, a tríplice ferroada do Suicídio, da possível Loucura, e da Apostasia, não experimentou a vida.
         Viver é perigoso – repeti João Guimarães Rosa, com a gravidade típica dos mineiros.
Mineiro sempre engana. Engana quem quer ser enganado, É hora de deixarmos às moscas os ditos em relação aos mineiros. Todo mineiro tem uma vocação metafísica, mesmo que finja não saber que a tem.
         Claro está, essa é opinião de um gaúcho, mas o gaúcho, o que é, senão uma espécie de anverso  da moeda mineira? A efígie muda, mas o ouro ou a prata que suportam as efígies, são os mesmos.
Também o gaúcho é um metafísico que não só se ignora, faz questão de negar sua condição de metafísico. O mineiro, mais esperto que o gaúcho, não diz nada.
         Guimarães Rosa tinha razão.
Na hora atual, as palavras do grande gênio despem-se do fraque da literatura, e mostram sua nudez existencial.
         Afirmo-lhes que Guimarães Rosa era um crente à sua maneira. Um crente, diria honoris causa. E também: amoris causa.
Um crente que comia pelas beiradas.
         Foi o único leitor que teve a coragem, e a cortesia de me dizer algo sobre um poema, de meu primeiro livro de poesia A Surpresa de Ser . O único, em cujo coração o meu poeminha caiu como uma pedra, e ficou fazendo círculos.
Estávamos no Palácio do Itamaraty que, naquele tempo, ficava no Rio de Janeiro, onde o fui encontrar.
Rosa pediu aos funcionários que me servissem um cafezinho, e pôs-se a ler alguns dos poemas do livro, parando finalmente no seguinte poema, no qual fixou sua atenção durante alguns minutos.
Não minto: durante alguns minutos!
Eu, ali, sorvendo meu cafezinho milimetricamente, para não me sentir constrangido.
Transcrevo o poeminha:

         A Difusão

                   De Deus não quero
                   a infinitude,
                   que me destrói
                   (me preservando).

                   De Deus não quero
                   a onipotência,
                   que é muito grande
                   para este Mundo.

                  
De Deus só quero
                   o seu excesso
                   que desabrocha
                   em criatura.
                  
         Quando o escritor levantou os olhos do livro, e me fitou sorrindo, como se fosse um cúmplice em minha poesia, respirei aliviado.

Guimarães Rosa disse-me:
        
- Não é Plotino seu inspirador?

Eu havia lido trechos das Enéadas de Plotino, mas não podia jurar que o havia entendido. Queria dizer a Rosa que eu não era um leitor sério de Plotino, que não o tinha ainda entendido.
Fiquei sem jeito diante de sua imponência literária.
Como iria referir-lhe algo sobre um poema que eu mesmo, naquela época, não entendia?
         Senhores leitores: o poeta não tem obrigação de entender seus poemas. O poeta tem obrigação de compor- seus poemas.
O poeta tem a obrigação incontornável de sofrer a ação – como se dizia nas aulas de gramática do meu tempo, quando Eduardo Carlos Pereira falava sobre as formas passivas dos verbos. Eu sofrera a ação de uma “inspiração”, ou de qualquer outro ludismo neuronal, desses que levam o sujeito a ver coisas pela primeira vez, e também pela única e última vez.
         Mais tarde, lendo a Divina Comédia de Dante, encontrei nela uns versos que me fizeram corar,  corar de vergonha.
Teria eu roubado alguma coisa a Dante Alighieri?
 Esbarrei nuns versos do Canto XXIX do Paraíso, a terceira parte da Divina Comédia:

         -in sua eternità, di tempo fuore,
         fuor d’ogni altro comprender, come i piacque,
         s’aperse in nuovi amor l’Eterno Amore.

         Cristiano Martins traduziu para o português os versos citados:

         Na sua eternidade, preexistente
         Ao tempo e ao espaço, o eterno Amor radiante
         Novos amores engendrou à frente.

         Não gosto da sua tradução!
Atrevo-me a apresentar-lhes minha versão pessoal, capenga sem dúvida, mais um mais fiel ao Poeta:

         Na sua eternidade, fora do tempo,
fora de toda e qualquer compreensão,
abriu-se em novos amores o Eterno Amor.

         Creio que a fonte primeira de meu poema não era a poesia de Dante, mas a de meus estudos de Filosofia e Teologia Tomista, onde aprendera o que Dante também apreendera: aquilo que o Pseudo-Dionísio ensinava: “que a Criação era uma participação finita da Essência Infinita de Deus”. Mais tarde, vim a encontrar, no grande teólogo alemão do século XIX, Mathias Joseph Scheeben, a seguinte frase:
         - Dionísio (isto é, o Pseudo-Dionísio Areopagita: século V d.C.) a seguinte maravilhosa frase: “O amor divbin o não quis ficar sem fruto”. Scheeben remete-nos, nessa citação, ao livro do Pseudo-Dionísio:  Sobre os Nomes Divinos, capítulo IV.
(Cf. Maurice de Gandillac: Traduction, Préface et Notes: Oeuvres Complètes du Pseudo-Denys l’Aréopagite. Paris, Aubier Éditons Montaigne, 1943. p.94 ss.).
         Que eu tenha pensado no desabrochar de uma flor...bem, tudo é facultado aos poetas, inclusive as metáforas imprevistas.
 Reconheço que falar em “excesso” de Deus  pode sugerir Panteísmo.]
Mas isso é coisa cerebral, e eu fui sempre, antes de tudo, um poeta.
Deixei-me sempre levar pela “louca varrida”, que se chama Imaginação, e também se chama Inspiração. Nela acredito apesar do  que se tem dito contra ela.
         Guimarães tratou-me fraternalmente. Acabou oferecendo-me  um de seus livros.
         Nunca mais o vi.
Isso foi em 1967.
Ele morreu em 1967.
        
Que tem a ver com isso  o Fim de Ano?
Não se esqueçam, queridos amigos, que este professor que lhes narra tais fatos, é, em primeiro lugar, um meninozinho que se deixou encantar pela Poesia, e que continua encantado com ela.
E até:  encantado nela!
                  

Reflexão para o Dia Primeiro de Janeiro de 2012.


I.
       O dia primeiro de janeiro é quase... um-dia- barranco para os brasileiros!
O calendário europeu desfavorece-nos.
Ao passo que na Europa, o dia primeiro de janeiro é o dia primeiro de um mês, para nós ele é o dia primeiro de um ano. É o dia em que despertamos para o assim dito real, e nos apercebemos de que a roda do tempo girou, infelizmente a nosso desfavor.
Não que os europeus sejam, e estejam, melhores do que nós, ao menos não muito melhores. Eles estão, sem dúvida, melhores, porém, sob certos aspectos, percebem que têm uma Espada-de-Dâmocles sobre a cabeça.
Refiro-me ao critério proposto por Dante Alighieri, no século XIV, expresso em versos famosos na sua Divina Comédia:

-(...) nessun maggior dolore
che ricordarsi del tempo felice
ne la miséria; e ciò sa il tuo dottore.

(Inferno, canto V, versículos 121-123).

Uma tradução compreensível dos versos,contudo distante da expressão melancólica que os impregna, seria esta:

- Não existe (falou-me) maior dor
que recordar, no mal, a hora feliz;
e bem o sabe, creio, o teu mentor.
(Tradução de Cristiano Martins. A Divina Comédia.São Paulo, Edição da Universidade de São Paulo,1976.p. 114).

Suponhamos que a Europa realmente estivesse vivendo feliz, nas últimas décadas, e não o soubesse, na hora em que seu nível de vida chegou à estratosfera. Ou seja, nos momentos funebremente áureos, em que as “falsas necessidades”, denunciadas por Karl Max, e antes dele, pelo filósofo grego Epicuro, “seu mentor” ( visto que Marx fez sua tese de doutoramento sobre esse filósofo) passassem a ser “necessárias”, aos europeus e a nós! Poderiam ter sido, mas o foram a expensas de milhões de homens submetidos (Islã significa “submissão”) a condições de vida e de trabalho contrários aos Direitos Humanos fundamentais.
Não nos interessa fazer aqui uma acusação aos europeus!
Em termos de exploração, quem estiver de mãos limpas no Ocidente, atire a primeira pedra. Nem falemos do Oriente! Ali as coisas estiveram até agora piores, e parece que continuarão piores durante algum tempo.
O que está em jogo - tanto no Ocidente como no Oriente - é um sistema de vida e de pensamento.
A maioria dos cristãos, e sem dúvida dos católicos, estão na Europa, e nos Continentes que os europeus descobriram e colonizaram!
Deveríamos, pois, ter a coragem de depor as máscaras, especialmente as que o Cristianismo fingiu não ter.
Deveríamos ter a coragem de uma auto-confissão, em termos de responsabilidade sócio-econômica, capaz de nos impelir a assumir os corolários sociais do Evangelho.
Num passado recente, os bem intencionados partidários da Teologia da Libertação fracassaram (ao menos parcialmente) no seu projeto de chamar a atenção da Comunidade Eclesial Católica européia para isso.
Parece que continuamos a ignorá-los, como se esses teólogos fossem “terroristas do Evangelho”. Só quando estamos insones, lembramo-nos de que existem Continentes, onde se vive com três dólares ao dia.
Paul Krugman, num de seus blogs no jornal O Estado de São Paulo, repeliu as estatísticas econômicas contemporâneas, que para ele são ficções científicas. Ou seja: parece que a situação verdadeira é ainda pior.
Em Quê, pois,e em Quem acreditaremos?
Os cristãos professam seguir seu Mestre, o qual disse: “A ninguém chameis Mestre. Um só é o Vosso Mestre!”.
É lógico, portanto, que nos sintamos aliviados, neste momento, visto que a Teologia da Libertação ficou afônica. Nossa consciência pode relaxar-se, embora alguns teóricos leigos (e agnósticos) como Joseph Stieglitz e Paul Krugman, continuem a alfinetar-nos a consciência com suas denúncias.
Até as ideologias da Esquerda parecem estar definitivamente orgulhosas com os resultados do Agronegócio brasileiro! Esses, e outros sucessos mereceram para o Brasil a honrosa sexta posição mundial no Rankings das nações bem-aventuradas do ponto de vista do Progresso.
Não criticamos os êxitos do Agronegócio, e das exportações brasileiras em especial, e sim a politica nacional que nos impede de dar passos concretos em direção à distribuição da renda.
Quando entro nas igrejas católicas, as igrejas que freqüento como qualquer católico praticante, assalta-me uma onda de tristeza.
O Cristo, sem dúvida, está aí, com seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade.
Como não crer firmemente no pasmoso Sacramento Eucarístico? Eu e meus irmãos cremos,  como São Policarpo cria, como os cristãos da Didaqué criam, como Tomás de Aquino e Martinho Lutero criam, como cientistas como Louis Pasteur (1822-1895) criam.
Se nas igrejas está presente o verdadeiro Corpo de Cristo, onde estará seu Corpo Místico, sobre o qual Santo Agostinho de Hipona se preocupava, pois dizia ele, uma Cabeça (Cristo) sem Corpo (a Igreja) não pode viver!
Nós, cristãos anônimos, somos esse Corpo. O fato é que a visibilidade do Corpo Cristão, em termos sócio-econômicos, é quase nula.
Fica-nos a dúvida:
      
- Até onde podemos ser testemunhas de Cristo sem que as pessoas se apercebam disso? Seremos testemunhas invisíveis, inaudíveis, intangíveis?
      
O dia primeiro do ano de 2012 não é apenas um dia de angústia, no tocante aos nossos orçamentos familiares, e às nossas perspectivas de qualidade de vida. É um dia, paradoxalmente, de otimismo. Mais uma chance nos é dada de retificar a direção de nosso barco.
Isaac Bashevis Singer tinha razão ao escrever:

- Somos otimistas porque esperamos o pior”.
       A Europa, neste instante, dá-nos o exemplo. Ela, também, está esperando o pior. Foi ela quem nos descobriu, colonizou, e cristianizou.
Sejamos-lhe, então, agradecidos.
Mas...temos, também, de cobrar-lhe novo ânimo!Que nos dê o exemplo de um novo caminho. Que nos ofereça o espetáculo de líderes honestos e responsáveis. Que seus líderes bufonescos sejam substituídas por líderes inteligentes.
       É verdade que ainda confiamos na prata da casa. A Presidente Dilma não é nem taumatúrgica,  nem pode ser apelidada de Brastemp! Merece, porém, nosso máximo respeito, e nosso apoio.
       Se tivéssemos lido o historiador Lucien Febvre, em particular seu livro póstumo:Gênese de uma Civilização, a Europa (Trad. de Ilka Stern Cohen. Bauru, EDUSC, 2004), ter-nos- íamos dado conta de que a Europa precisava ser salva há algum tempo:
      
- (...) que não se venha a falar de Europa porque,menos do que nunca, um historiador pode saber o que é a Europa; porque menos do que nunca a noção de Europa é uma noção clara, uma noção simples, uma noção inteligível, porque a Europa não é mais a Europa. Ela é tudo, para parodiar o verso de Corneille, ela é tudo em que se encontra a civilização industrial a que nos levou o desenvolvimento prodigioso, o desenvolvimento ao mesmo tempo desregrado, desmedido, e mesmo assim magnífico, e mesmo assim embriagante por sua própria potência e seu gênio, o desenvolvimento monstruoso de uma indústria, cujos progressos seria estúpido pensar que vão parar, que ela vai interromper, enquanto que a ciência não para, que ela vai limitar suas ambições a nos fabricar panelas, ônibus e couro para nossos sapatos, inocentemente, como uma brava pequena indústria familiar, que soletra gentilmente em seu alfabeto as três palavras PAZ. Não, isso é impossível. É preciso sabê-lo. Não será assim”. (Ob. cit. p. 279).
      
Tais palavras foram ditas no Collège de France em 1944-1945.
Confesso que senti um arrepio ao ler tal texto. Não nos chegou às portas, porém, porém, o Apocalipse! Teremos muitos anos pela frente!
O que é urgente não é nossa mísera cronologia,e nossa arrogância.
O que é urgente, mesmo, é a fé cristã, a fé católica, dos europeus, que deve dar as mãos à ruidosa fé latino-americana, para tentar conferir um rosto à Incivilização, que dá a impressão de estar vindo ao nosso encontro.



O Astrônomo, 1668, óleo sobre tela, 51,5x45,5 cm, Louvre, Paris.

Lutero: é preciso conhecê-lo, para poder amá-lo.


I.
        A Feira do Livro de Porto Alegre facilita  o encontro não-marcado com obras, que estão  à disposição dos leitores, mas que eles nunca as lerão, dado que a oferta supera enormemente a procura.
         Sente-se perdido numa livraria atual.
Depara-se com dezenas e dezenas de prateleiras, inclusive com expositores circulares, como os de super-mercados, hesitando – qual criança numa confeitaria – sobre as guloseimas a escolher.
        A maioria dos leitores escolhe a esmo, seguindo, muitas vezes,  o gosto de um funcionário da livraria que destacou este ou aquele título, que lhe pareceu mais vendável.
Outros escolhem determinada publicação, conduzidos pela mão distraída da fantasia e do arbítrio.
 Outros, enfim,  nem se dão ao luxo de escolher: apostam numa novidade, induzidos pelo título, pela faixa vermelha que os recomenda, ou...se lhes míngua imaginação,  vão atrás do aroma do último cigarro que tragaram.
        É injusto, porém, censurar tais leitores.
        O problema, a rigor, é de outra natureza: o desaparecimento de parâmetros.
As colunas críticas dos jornais sumiram. Se nem sempre eram objetivas (porque, nesse assunto de leituras, não existe fita métrica), tinham o mérito de relembrar determinados autores.
Não temos mais críticos e resenhadores?
Temos somente palpiteiros, que favorecem amigos, ou escreventes, interessados em “alavancarem” a fama de seus colegas, quando não são subsidiados por Editoras e Distribuidoras.

II.
        Diante de tal situação, que fará o leitor comum?
Sejamos realistas: quando não se tem cachorro, se caça com gato.
Por gato, pela felinidade de gato, entendemos a inteligência do leitor. Fatigado de andar às tontas, ele resolve sair à procura de temas e autores que verdadeiramente lhe interessam.
O leitor assume, nesse caso, a responsabilidade de ser avalista de si mesmo.
Para que isso suceda, terá naturalmente de desalojar a preguiça, de esnobar colunas literárias, e arriscar-se a ler autores que o grande público desconhece, preferindo um “menos vendido” a um “mais-vendido”.
Corre-se um risco: o de se privilegiar o exótico, o bizarro, o escrachado.
Para um livro como O Apanhador no Campo de Centeio, sobram dezenas de outros romances que só se destacam por inovações gratuitas, e por experimentalismos improdutivos.
As observações acima, prolixas sem dúvida, destinam-se a realçar um mimo que a Feira do Livro de 2011 me  propiciou.
Ao vagar de barraca em barroca, deparei com uma publicação da Editora Concórdia:

- Isto é o Meu Corpo. A Luta de Lutero em Defesa da Presença Real de Cristo no Sacramento do Altar.
        Autor: Hermann Sasse. Tradutor: Mario L. Rehfeldt.
        O livro foi publicado, pela primeira em 1959, nos Estados Unidos. Teve sua primeira edição em português em 1970. A segunda edição, revista e atualizada, é de 2003, patrocinada pela Lutheran Heritage Foundation.
        Antes de comentar o livro,  informao o leitor de que nasci numa família tradicional católica.
 Na época de minha meninice, em Santa Maria, os católicos mostravam-se desconfiados em relaçãoaos não-católicos, por exemplo, os luteranos (os poucos que havia no bairro em que nasci).
Quanto aos judeus: eram considerados quase espécimes raros do “zoológico racional”. Deviam ser respeitados como profissionais, em especial seus médicos, dentistas, engenheiros, e como comerciantes, porém, na sua condição de pessoas concretas, com carteira de identidade, era melhor vê-los à distância.
Islâmicos? não conheci nenhum até chegar à idade adulta.
No ambiente ítalo-brasileiro de minha família, Maomé (que, mais tarde, em meus estudos sobre Arte Islâmica, seria para mim ponto de referência) era um nome que soava agradável, mas sem nenhum significado especial.
Nenhum?
Por incrível que pareça, ouvi o nome Maomé, pela primeira vez numa expressão da gíria que me deixou intrigado:

- Esse negócio não vai dar certo! É como o caso de Maomé com o toucinho...

Eu adorava toucinho, é claro na feijoada! Não entendi a graçola dissaborida, nem a antipatia (se era verdadeira) de Maomé pelo toucinho.
Só mais tarde vim a saber que esse dito  fazia alusão a um tabu,  comum a islâmicos e judeus: a exclusão da carne suína na alimentação.
Por falar em ditos – ou dichotes - guardei outro:

- Os pedreiros fizeram o muro como Deus fez a mandioca...
Detestei essa expressão.
Primeiramente porque sempre achei que o nome de Deus deve ser respeitado..
Em segundo lugar, porque aprecio mandioca - ou aipim (como lhe chamam os cultos) - e sempre fui um comedor de mandioca, daquela que quando cozida se derrete, ou seja, desse aipim (quero também ser culto!) que, ao estar no ponto, adquire uma maciez dourada, capaz de seduzir um antropófago.

III.
Reitero: fui educado numa antipatia explícita aos protestantes, de todas as denominações.
Tal educação não me afetou tanto como o leitor poderia pensar.
Eu era um menino mais interessado nas romãs dos çuteranos, nossos vizinhos Falkenberg, que tinham um curtume no bairro. Não me imnteressavam divergências doutrinárias.
Um de meus primeiros arroubos românticos ocorreu quando um dia vi, diante de mim, em carne e osso, uma deslumbrante filha do casal Falkenberg.
Era uma loura, coisa relativamente rara naqueles tempos, em que, para se chegar à cor das espigas, não existiam  tinturas, ao menos aos preços acessíveis de hoje.  
Foi essa teuto-brasileira e, além dela, a incompreensível generosidade de seus pais, que deram início ao meu Ecumenismo!
Sem que meus pais fossem avisados, fui, certa tarde de verão, com alguns companheiros de traquinagens perguntar aos luteranos se podíamos apanhar algumas romãs que lhes pertenciam. As romãs eram tão opulentas que curvavam os ramos das romãzeiras, em frente da casa deles.
Os luteranos responderam que sim, que podíamos apanhar as romãs que quiséssemos.
Foi assim que saboreei, pela primeira vez, essa fruta maravilhosa, da qual, em 1970, por ocasião de uma viagem a Israel, colhi um exemplar excepcional na cidadezinha de Caná da Galiléia, em Israel, onde se deu o Primeiro Milagre de Jesus, o da tranformação da água em vinho.  
A romã israelense era tão sensacional, que acabei não a comendo. Durante algum tempo guardei-a comigo, apreciando-lhe a forma de minúsculo abacaxi... sem o inconveniente de suas rugosidades. Ela acabou convertendo-se para mim num objeto estético, a que, talvez, eu haja associado subliminalmente a memória de Jesus.
 IV.
Ecumenismo?
 O vocábulo, como a minha saudosa romã, é cada vez mais usado,  embora a atitude ecumênica dos católicos não seja tão freqüente como se imagina.  
Nenhum Concílio, nem o Vaticano II, pôde realizar tão necessária transformação de mentalidade. A nenhum Papa, a nenhum conjunto de Cardeais e Bispos, foi concedido o privilégio de transformar a água em vinho.
Cada um de nós terá de fazê-lo, por sua conta, no sigilo de sua consciência.
        O ecumenismo é uma descoberta de quem lê a Bíblia e, sobretudo, de quem encontra tempo para orar.

Jesus dizia:

É preciso orar sempre!
(Mt 26,41).
        Orar significa encerrar-se no próprio quarto, ou entrar numa igreja silenciosa, e dirigir-se ao Pai que vê tudo que se passa em segredo.
Não me excluo do número dos cristãos que têm as tais fúteis prioridades. Admito que é dificílimo orar numa sociedade audivisual, que nos satura os olhos, os ouvidos, e o coração, e não permite que nossa mente se fixe num tema particular.
O mundo de hoje é quase o voyeurismo em estado puro!
Falemos, enfim, sobre Lutero.
No passado, esse nome me causava arrepios!
Lutero era, para mim, o herege por excelência, o demolidor da Igreja Católica, o indivíduo que enfrentara o Papa.
O Papa, para um menino de 1940, constituía uma espécie de Faraó da Igreja.
Não esqueçam os leitores que, naquela época, os Papas se faziam fotografar com uma vistosa Tiara na cabeça.
 A Tiara, coroa simbólica, de tríplice ornamentação, evocava-me um soberano egípcio.
Só mais tarde vim a aperceber-me de que os Papas eram seres humanos, alguns decididamente humildes e santos.
Lembro-me do dia em que um sacerdote me referiu que o Papa Pio XII tinha um confessor jesuíta, e que esse confessor - o futuro Cardeal Bea - era um dos maiores biblistas da Renovação Católica.
 Fiquei comovido ao descobrir que um Papa se ajoelhava diante de um humilde sacerdote, e lhe confessava os pecados.
Comecei a conhecer Lutero na Europa, no tempo em que estudava na Universidade de Fribourg, na Suíça (1958-1963).
Certo dia, um colega alemão perguntou-me se eu não desejava visitar com ele o Castelo de Coburg, na Alemanha. Fora ali que Lutero traduzira a Bíblia para o alemão - tradução que segundo meu amigo, fundara o idioma alemão.
Aceitei o convite do generoso colega, fui com ele até ao Castelo de Coburg, onde é conservado o modesto escritório de Lutero, que na ocasião vivia como hóspede de um Príncipe.
Em nenhum momento da visita, o amigo alemão se referira ao famoso tinteiro, que Lutero teria jogado contra o Diabo, na ocasião em que o Maldito o importunara. Como eu ouvira falar do incidente, isto é, como me tinham contado tal estória, cometi a descortesia de perguntar-lhe se ainda se viam, nas paredes do escritório, vestígios da tinta arremessada por Lutero contra o Diabo...
Vim a descobrir, com o tempo, que todas as mentiras têm pernas curtas, e a mentira contra Lutero, nem pernas tinha.
Durante minha estadia na Europa, que se estendeu até eu completar meu Doutoramento na Universidade de Fribourg, na Suíça, pude descobrir um pouco mais o grande cristão que fora Lutero.
Grande e trágico cristão!
       Ou melhor: grande e dramático cristão!
        Com o tempo, passei a interessar-me por seus escritos.
Fiquei impressionado com vários textos de sua autoria.
Li, por exemplo, com profundo respeito, seus dois Catecismos, o Maior e o Menor.
Depois, um comentário de Lutero sobre o Magnificat da Virgem Maria.
Nunca ninguém me tinha dito que Lutero também venerava a Mãe de Deus.
        O texto de Lutero sobre o Magnificat acabou deitando por terra as últimas barreiras que existiam dentro de mim contra nossos irmãos separados.
Nesse entretempo, a Igreja Católica fizera uma confissão pública de arrependimento por seus excessos polêmicos em relação aos Protestantes.
 Vários Papas reconheceram a grandeza do cristão autêntico chamado Lutero.
Vim a descobrir que ambas as Igrejas, a Católica e a Luterana concordam no essencial, isto é,  na crença na Trindade Santíssima, na Encarnação do Verbo, na instituição dos Sacramentos, na necessidade de Redenção pelo Sangue de Jesus, na gloriosa Ressurreição de Jesus, na Ressurreição dos Mortos.
Não será isso o suficiente para transcendermos nossos confrontos históricos, varrendo para debaixo do tapete, ou melhor, varrendo definitivamente para onde deve ser varrido, o lixo de discussões intermináveis, de picuinhas que nos imobilizam no meio do caminho, onde - conforme o poema de Drummmond - continua a existir uma pedra?

V.
Um belo dia, achei-me amando secretamente esse Irmão Separado, querendo-lhe bem, e até sendo capaz de recorrer à sua intercessão - como recorro à intercessão de meus patronos, os Apóstolos antes de todos,  depois Agostinho de Hipona, Francisco de Assis, Anselmo de Canterbury, Bernardo de Claraval, Tomás de Aquino – (incompreendido pelo Reformador).
       
Não é, porém, sobre tais assuntos que desejo discorrer!
Desejo expressar minha gratidão a Lutero por ter estimulado minha fé na Presença de Cristo na Eucaristia.
 No coração de nossa contemporaneidade, neste  orgulho obeso em que estamos quase todos imersos, o livro de Hermann Sasse me trouxe um testemunho radioso de fé.
        Não me deterei, em detalhes, sobre seu conteúdo.
Recomendo aos amigos católicos que leiam o livro de Hermann Sasse, ,especialmente as páginas que o autor consagra à Grande Controvérsia que opôs - entre 1527 e 1528 - Lutero a  Zwínglio, Melanchton e Ecolampádio.
A transcrição do Colóquio de Marburg (1529), convocado por Filipe de Hesse, com  o objetivo de reconciliar Lutero com Zwinglio , e seus partidários,  é impressionante.
        Como não comover-se perante a atitude,serena e firme, de Lutero em relação ao Mistério da Eucaristia?
        Lutero não se deixou abalar por aquilo que ele qualificava, com um toque de mordaz humor, as dimensões matemáticas do Mistério de Cristo no Pão e no Vinho Consagrados.
        O grande Mestre de Wittenberg deixou-nos lições esplêndidas sobre a veneração que devemos às palavras de Jesus.
Em momento algum o Reformador pactuou no tocante à sua fé cristã.
Transcrevo quatro excertos desse Colóquio:
       
- Não negamos o comer espiritual; pelo contrário. nós ensinamos e cremos que é necessário. Mas disto não se conclui que o comer corporal seja inútil ou desnecessário. Pois não é tarefa nossa julgar se é útil ou não. Temos o mandamento: “Tomai, comei, isto é o meu corpo. Cristo entrega-se a nós de muitas maneiras: primeiro na pregação da Palavra; em segundo lugar, no Batismo; em terceiro lugar, na consolação fraterna; em quarto lugar, no Sacramento, todas as vezes que comemos o corpo de Cristo, porque Ele mesmo nos ordena fazê-lo
( p. 180).

        Adiante:

        - Se dizeis que Deus não nos propõe qualquer coisa incompreensível, não o admito. Tomemos, por exemplo, a virgindade de Maria, a remissão dos pecados e questões semelhantes. Desse mesmo modo: “Isto é o meu corpo” também é incompreensível.
        (p. 182).

        Finalmente:

        - Se considerais a carne como inútil, quanto a mim, podeis fazê-lo, mas nós confiamos na Palavra de Deus. A palavra diz, em primeiro lugar, que Cristo tem um corpo – o que creio. Além disso, que este mesmo corpo subiu ao céu e está sentado à direita do Pai – o que também creio. A Palavra diz igualmente que este mesmo corpo está na Ceia do Senhor e nos é entregue para o comermos – isto também creio. Pois meu Senhor Jesus Cristo pode fazê-lo facilmente quando o deseja, e em suas palavras testifica que o fará. Nessas palavras confiarei imperturbavelmente até que Ele próprio, mediante outra palavra, diga algo diferente. (...)
        (Ibid. p. 190).
       
        - Não conheço outro Deus além Daquele que se fez carne, nem quero ter outro. E não há outro Deus que nos possa salvar, além do Deus Encarnado. Portanto, não permitiremos que sua humanidade seja subestimada ou omitida.
        (Ibid. p. 191).
        É preciso ler tudo o que se encontra entre as páginas 145-221.
VI.
Tenho certeza de que, concluída a leitura do livro de Hermann Sasse sobre Lutero, um católico
sentirá por ele uma espécie de comovida fraternidade. Terá vontade de ultrapassar todos os empecilhos para ir ao encontro de nossos irmãos separados.
Um tal católico, informado, criterioso, terá vontade de respeita-los e amá-los.
        Pergunto: existirá algo de melhor no mundo do que a Caridade, o verdadeiro Amor que Cristo nos ensinou, tanto com seu exemplo, como com seu Evangelho?