quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Natal: Mistério e Poesia

Como poeta, também me arrisquei a escrever poemas de Natal!
Como não escrevê-los uma vez que o poeta também foi criança? O grande poeta francês, Charles Baudelaire, escreveu: “A poesia é a infância reencontrada”.
Se Baudelaire mo permitisse, diria: poeta é quem reinventa a própria infância.
Reinventar a própria infância parece-me mais humilde, mais realista.
Embora admita que existe um fio de Ariadne, que nos liga à nossa infância, e que nos conduz da vida que hoje vivemos, a ela, verifico que esse maravilhoso fio nos conduz sempre a uma outra vida, a uma outra infância: a que desejaríamos ter vivido.
Nossa memória é benevolente: proporciona-nos, de cada vez, uma infância nova, como se pudéssemos ter sido crianças diferentes da criança que fomos.
Creio que isso ocorre porque a vida é uma só e, para ser autêntica, precisa ser vivida uma só vez. Tal constatação concorda com a visão cristã da existência. Esta sustenta que apenas a morte conclui a vida, conferindo-lhe o traçado definitivo. Até à hora da morte, o homem pode dar um novo desenho (um novo desígnio) à sua vida. Noutras palavras, pode torná-la cristã mesmo no instante final.
Será que o teólogo Karl Adam se referia a isso quando escreveu: “O homem é uma palavra de Deus que não se repete”? Teria ele entendido que a vida é uma espécie de palavra proferida ao longo da existência? Nesse caso, seria a morte sua sílaba final?
Penso menos pessimistamente. Penso que a vida é, antes, uma melodia que se completa com a morte.
Mas... que tem a ver com isso o Natal?
Natal significa nascimento. É a celebração do nascimento de Jesus, a Segunda Pessoa da SSma. Trindade que se fez homem, assumindo a natureza humana, consciente e livremente, para nos restituir à condição de filhos de Deus. Ao nascer, Jesus tomou a vida humana in totum, sem restrições, do vagido do infante ao estertor do moribundo.
Os antigos cristãos associavam a madeira do berço de Jesus à madeira de sua Cruz. Imagem tétrica – dirá alguém. Até certo ponto, sim. Mas recordemos que o realismo da Encarnação de Jesus deve fazer com que visualizemos, nos símbolos do Natal, também a sua Ressurreição, um re-nascimento. A Religião Cristã é a única religião, salvo engano, que reivindica um novo nascimento (não propriamente um re-nascimento) para o tremendo revés da morte. O cristão, portanto, quer no Natal, quer na Páscoa, professa que o seu futuro consiste num novo Natal, isto é, num novo nascimento, que não terá mais diante de si o espectro da morte. Eis porque o Natal deve ser uma festa alegre.
Não creio, porém, que o Natal, tal qual o festejamos, seja alegre.
— Como não? replicar-me-ão os agentes de marketing dos shoppings e supermercados...
Replico-lhes:
— Jesus, o grande Recém-Nascido, disse-nos que não é o comer e o beber que tornam feliz o homem, embora contribuam para isso. O que torna feliz o homem, é a fé, a esperança e o amor, numa palavra, a adesão ao seu Nascimento, Paixão, Morte e Ressurreição.
Nada, pois, de tristezas e melancolias no Natal! Compreendamos, sem retórica, que o Natal é a festa da intimidade (afinal, ocorreu no interior de um estábulo, na presença do bafo quente do boi e do burro, pressurosos em tornar a vida do recém-nascido mais cálida e feliz).
Daí a canção: “Noite Feliz! Noite Feliz!”
Digo aos mais tristes entre os homens: alegrai-vos! O desemprego, a angústia diante de filhos desencaminhados, até drogados, as rupturas matrimoniais, os ódios públicos ou particulares, as incertezas da economia mundial, as violências, a caixa de Pandora de todos os males sociais e econômicos, enfim o que a vida contém de problemático, de dramático, e até (ó horror!) de trágico, pode ser lido à luz da Estrela de Belém, e do fulgor do Anjo, que à beira do sepulcro de Cristo lhe ergueu a pedra que o cobria.   
Perdoem-me: apreciaria ser mais breve, e principalmente “menos reflexivo”!
Não me foi possível. Perante um Natal que se auto-renegou, que quase está reduzido a comes-ebebes, a nozes, figos da Turquia, damascos, bacalhoadas – tudo isso, aliás, graças de Deus! – eu seria mentiroso se dissesse: “Natal é isso mesmo...”
Natal é isso! Mas não só isso. E sobretudo  é mais do que isso!
Nesta altura, atrevo-me a apelar para a poesia. Ouso oferecer-lhes meu poema de Natal menos imperfeito:

           NOITE FELIZ

Embora minhas palavras
não cheguem aos Teus ouvidos
 porque não tens ouvidos;
embora minha voz
não penetre Teu coração,
- porque não tens coração;

embora eu entregue ao vento
minha dor e alegria
e ele as carregue até às nuvens
- onde não estás;

embora, de dia e de noite,
meus olhos Te queiram ver
- e só vejam uma sombra
 de Tua sombra;

embora eu Te compare à luz,
e Tua luz apague
o sol, e o meu próprio pensamento:

Teus ouvidos são meus ouvidos,
Tua voz é minha voz,
e Teus olhos iluminam a escuridão
na qual nasci, na qual vivo, na qual morrerei

- tocando-Te onde não podes ser tocado,
pensando-Te onde não podes ser pensado,
amando-Te onde não podes ser amado,

e, contudo, tocando-Te para ser tocado,
pensando-Te para ser pensado,
amando-Te para ser amado..

Um comentário:

  1. Um beijo carinho Professor Trevisan, Querido Poeta!, que o seu Natal seja iluminado de amor e abraçado pelo carinho de todos seus amores.

    Estou sequestrando Noite Feliz lá para o Vidráguas, assim começo meu ano mais próxima de sua Imensa Poesia.

    Feliz Natal!!!

    Carmen Silvia Presotto
    www.vidraguas.com.br

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