sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Meu Livro Inesquecível de 2010.

      Armindo Trevisan.

Amigos: guardem este nome: Nuno Lobo Antunes!
Não o confundam com o de seu irmão, Antônio Lobo Antunes, que quase arrebatou o Prêmio Nobel a José Saramago.
Embora o Antônio seja um romancista de fama internacional, quero referir-me, nesta crônica, exclusivamente a seu irmão, o neurologista pediátrico mais conhecido em Portugal.
Durante uma década de trabalho em hospitais de Nova York, entre os quais o “Instituto Neurológico de Nova York” e o “Centro Médico Presbiteriano”, o Dr. Nuno especializou-se no tratamento de crianças com câncer.
Seu livro Sinto Muito (RJ, Editora Objetiva, 2010), com prefácio do neurocientista Antônio Damásio, e posfácio do oncologista brasileiro Drauzio Varella, enfeixa suas lembranças americanas.
É um livro assombroso. Utilizo o adjertivo com plena consciência de seu carácter de choque benéfico, com o mais belo sentido que essa palavra possa ter.
Chocante?
Sim, porque, ao menos uma vez em minha vida, posso aplicar a um livro a soberba imagem de Gustavo Corção, que li pela primeira vez anos atrás. Referia-se o escritor  à sua descoberta de Gilbert Keith Chesterton (1874-1936). Sobre o choque que lhe causou a leitura da obra de Chesterton, anotava Corção:
Não dei pelo seu desaparecimento, mas senti, com a impetuosa evidência de uma janela aberta, o seu aparecimento”.
Digo o mesmo: Nuno Lobo Antunes foi, para mim, a impetuosa evidência de uma janela aberta.
Primeiramente porque, no livro que está em jogo, são Memórias de um médico.
No umbral destas considerações, declaro meu imenso respeito aos médicos. Depois de Deus, devo-lhes a vida. Afinal, já passei por um linfoma...
Além disso, estou informado sobre o que a Bíblia diz desses profissionais. Primeiramente os elogia: “Honra o médico por causa da necessidade; foi o Altíssimo quem criou o médico”. (Eclesiástico,38, 1). Depois, em outra passagem, coloca na boca de um homem de Deus a seguinte censura: “(...) não sois mais que impostores, não sois senão médicos que não prestam para nada”(Livro de Jó, 13,14). Tal desabafo, penso eu, deve ser atribuído a um momento de profundo mau humor de Jó.
A despeito disso, como não constatar que a maioria dos médicos tende a reprimir a própria sensibilidade, ocultando-a sob um véu diáfano de competência - e, não raro, de onipotência? O mesmo Dr. Lobo Antunes confessa que, quando jovem, se julgava onisciente.(p.167).
Demos a palavra a outro representante insigne da classe, Drauzio Varella: “(...) o pediatra (isto é, o Dr. Nuno) diz ter conhecido a humanidade no seu melhor. Desconfio que desfrutou tal privilégio apenas por ter-se dedicado à profissão com a alma portuguesa exposta ao envolvimento quase carnal com o destino dos pacientes acompanhados por ele, comportamento destoante do adotado por nossos colegas anglo-saxões”.(Posfácio. p.228).
           Para concluir, citemos um trecho do prefácio do cientista Antônio Damasio:

Não se trata de um livro que siga a presente moda artificial, em que os neurologistas descrevem as bizarrias de seus doentes, ou deles próprios, na intenção de abrilhantar a cultura. Sinto Muito é artigo genuíno. Qualquer médico com experiências semelhantes, nele vai se reconhecer, tal como quem quer que tenha estado do outro lado do espelho de Alice.

Nuno Lobo Antunes revela-se, no seu livro, como médico e pesquisador. Em nenhum momento camufla o essencial de sua personalidade: sua humanidade. Expõe as tragédias das crianças, a dor cruel dos pais, a sensação de fracasso dos cirurgiões, clínicos e enfermeiras de sua equipe, seu próprio fracasso, mas, em todas as circunstâncias, reverencia as crianças como membros da raça humana. Daí sua comovente expressão: “Tanta raça, a mesma humanidade...”
Portanto, se o leitor não quiser sofrer, não leia esse livro.
Se o leitor, porém, quiser amadurecer, ser mais humano e, a longo prazo, mais feliz, leia esse livro!
Incluo aqui três trechos da obra:

I.                   (...) recordo sobretudo a Jennifer, uma rapariga encantadora de 18 anos, amante de golfinhos que, na roleta dos tratamentos, decidiu apostar tudo num transplante que falhou. O pai, no dia do enterro, cobriu o caixão de golfinhos azuis que na pintura sorriam para ela. Na missa, a mim, seu médico e também carrasco, chamaram-me para perto deles, e dando-me as mãos consolaram-me de um desgosto tão fundo de que só mesmo eles me poderiam içar. Durante anos, tive a sua fotografia na tela do meu computador para que todos os dias me lembrasse por que trabalhava. Poucos meses depois da sua morte, os pais pediram-me ajuda para lançar uma Fundação com o nome de Jennifer para ajudar na luta contra o câncer. A Humanidade no seu melhor, na Coragem, mas sobretudo no Amor”. (p. 26).

II.                Chamam-me gay, maricas, homossexual. Batem-me e empurram-me, apalpam-me e humilham-me. Por isso não vou à escola.” Aquele rapaz sofria de uma forma brutal, injusta, o seu Auschwitz pessoal. Também ele tinha algures no corpo, ou na alma, um número de série. Senti vergonha de mim. Quantas vezes não fiz insinuações ou comunguei gracejos, afirmações idiotas de virilidade acéfala. No ambiente certo, também eu teria abusado de alguém que sofria por ser diferente. De mim. A diferença que condena à solidão e à vergonha. Nós e os outros”.(p.34).

III.             (...) o padrasto (que trazia nos braços a criancinha de dois anos, afirmando que havia caído, na varanda onde se achava, numa noite de trovoada, atingida por um raio) fora a única testemunha do raio que, vindo do céu, teria fulminado aquela criança, como punição irada do senhor dos trovões. Assim, deitada, sossegada, parecia em paz. Peguei na criança, deitei-a de bruços. As nádegas apareceram soltas, como pedaços de pneu estilhaçados na estrada, apenas presas por um pouco de pele. Balouçavam, desconexas, mostrando gorduras, e a força bruta do animal, que por detrás a tinha penetrado. O mesmo animal que agora, cuidadoso, a deitava na maca com delicadezas de amante. “O horror”, repetia Kurtz, e na minha cabeça, os versos, que desde criança trago comigo e antecipam minha própria morte...”o menino de sua mãe”.
Voltei para casa e beijei o meu filho.” (p. 89).
Que o leitor se detenha nesse depoimento!
Que se detenha, de modo particular, nas antológicas páginas 41-42, que começam assim:

- Doutor. É de olhares. É de olhares que eu preciso.

            Na pior das hipóteses, que o leitor se dirija diretamente à página 100:

Nada mais frustrante do que tentar explicar a um adolescente algo para o qual ele fecha a mente. Ele julga que não percebo nada da vida, eu sei que ele sabe pouco da mesma; Mas destas duas certezas subjetivas, eu sei, porque penso, qual a verdadeira, e qual a falsa e, no entanto, não consigo transmitir-lhe essa evidência. No quotidiano, quantas vezes sinto essa impossibilidade de encontrar quem esteja disposto a ser ensinado, embora todos se afirmem dispostos a aprender”.

Dr. Nuno: tenho 77 anos! Aceite minha vontade de aprender.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Natal: Mistério e Poesia

Como poeta, também me arrisquei a escrever poemas de Natal!
Como não escrevê-los uma vez que o poeta também foi criança? O grande poeta francês, Charles Baudelaire, escreveu: “A poesia é a infância reencontrada”.
Se Baudelaire mo permitisse, diria: poeta é quem reinventa a própria infância.
Reinventar a própria infância parece-me mais humilde, mais realista.
Embora admita que existe um fio de Ariadne, que nos liga à nossa infância, e que nos conduz da vida que hoje vivemos, a ela, verifico que esse maravilhoso fio nos conduz sempre a uma outra vida, a uma outra infância: a que desejaríamos ter vivido.
Nossa memória é benevolente: proporciona-nos, de cada vez, uma infância nova, como se pudéssemos ter sido crianças diferentes da criança que fomos.
Creio que isso ocorre porque a vida é uma só e, para ser autêntica, precisa ser vivida uma só vez. Tal constatação concorda com a visão cristã da existência. Esta sustenta que apenas a morte conclui a vida, conferindo-lhe o traçado definitivo. Até à hora da morte, o homem pode dar um novo desenho (um novo desígnio) à sua vida. Noutras palavras, pode torná-la cristã mesmo no instante final.
Será que o teólogo Karl Adam se referia a isso quando escreveu: “O homem é uma palavra de Deus que não se repete”? Teria ele entendido que a vida é uma espécie de palavra proferida ao longo da existência? Nesse caso, seria a morte sua sílaba final?
Penso menos pessimistamente. Penso que a vida é, antes, uma melodia que se completa com a morte.
Mas... que tem a ver com isso o Natal?
Natal significa nascimento. É a celebração do nascimento de Jesus, a Segunda Pessoa da SSma. Trindade que se fez homem, assumindo a natureza humana, consciente e livremente, para nos restituir à condição de filhos de Deus. Ao nascer, Jesus tomou a vida humana in totum, sem restrições, do vagido do infante ao estertor do moribundo.
Os antigos cristãos associavam a madeira do berço de Jesus à madeira de sua Cruz. Imagem tétrica – dirá alguém. Até certo ponto, sim. Mas recordemos que o realismo da Encarnação de Jesus deve fazer com que visualizemos, nos símbolos do Natal, também a sua Ressurreição, um re-nascimento. A Religião Cristã é a única religião, salvo engano, que reivindica um novo nascimento (não propriamente um re-nascimento) para o tremendo revés da morte. O cristão, portanto, quer no Natal, quer na Páscoa, professa que o seu futuro consiste num novo Natal, isto é, num novo nascimento, que não terá mais diante de si o espectro da morte. Eis porque o Natal deve ser uma festa alegre.
Não creio, porém, que o Natal, tal qual o festejamos, seja alegre.
— Como não? replicar-me-ão os agentes de marketing dos shoppings e supermercados...
Replico-lhes:
— Jesus, o grande Recém-Nascido, disse-nos que não é o comer e o beber que tornam feliz o homem, embora contribuam para isso. O que torna feliz o homem, é a fé, a esperança e o amor, numa palavra, a adesão ao seu Nascimento, Paixão, Morte e Ressurreição.
Nada, pois, de tristezas e melancolias no Natal! Compreendamos, sem retórica, que o Natal é a festa da intimidade (afinal, ocorreu no interior de um estábulo, na presença do bafo quente do boi e do burro, pressurosos em tornar a vida do recém-nascido mais cálida e feliz).
Daí a canção: “Noite Feliz! Noite Feliz!”
Digo aos mais tristes entre os homens: alegrai-vos! O desemprego, a angústia diante de filhos desencaminhados, até drogados, as rupturas matrimoniais, os ódios públicos ou particulares, as incertezas da economia mundial, as violências, a caixa de Pandora de todos os males sociais e econômicos, enfim o que a vida contém de problemático, de dramático, e até (ó horror!) de trágico, pode ser lido à luz da Estrela de Belém, e do fulgor do Anjo, que à beira do sepulcro de Cristo lhe ergueu a pedra que o cobria.   
Perdoem-me: apreciaria ser mais breve, e principalmente “menos reflexivo”!
Não me foi possível. Perante um Natal que se auto-renegou, que quase está reduzido a comes-ebebes, a nozes, figos da Turquia, damascos, bacalhoadas – tudo isso, aliás, graças de Deus! – eu seria mentiroso se dissesse: “Natal é isso mesmo...”
Natal é isso! Mas não só isso. E sobretudo  é mais do que isso!
Nesta altura, atrevo-me a apelar para a poesia. Ouso oferecer-lhes meu poema de Natal menos imperfeito:

           NOITE FELIZ

Embora minhas palavras
não cheguem aos Teus ouvidos
 porque não tens ouvidos;
embora minha voz
não penetre Teu coração,
- porque não tens coração;

embora eu entregue ao vento
minha dor e alegria
e ele as carregue até às nuvens
- onde não estás;

embora, de dia e de noite,
meus olhos Te queiram ver
- e só vejam uma sombra
 de Tua sombra;

embora eu Te compare à luz,
e Tua luz apague
o sol, e o meu próprio pensamento:

Teus ouvidos são meus ouvidos,
Tua voz é minha voz,
e Teus olhos iluminam a escuridão
na qual nasci, na qual vivo, na qual morrerei

- tocando-Te onde não podes ser tocado,
pensando-Te onde não podes ser pensado,
amando-Te onde não podes ser amado,

e, contudo, tocando-Te para ser tocado,
pensando-Te para ser pensado,
amando-Te para ser amado..

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Anonymmi Quatuor

VOCÊS CONHECEM O ANONYMMI QUATUOR DE PORTO ALEGRE?


(Armindo Trevisan)

Se vocês não o conhecem, informem-se!
O Anonymmi Quatuor é um grupo formado pela soprano Úrsula Collischonn, pelo contralto Letícia Grütmann, pelo tenor Lucas Alves, e pelo barítono Vicente Casanova,  estudantes do Departamento de Música do Instituto de Artes da UFRGS.
O grupo começou a atuar a partir de 2009. Tal como se apresenta, é  de formação mais recente.
Convidado pelo compositor e pianista Dimitri Cervo, fui assistir ao Sarau no Arena, que se realizou na terça-feira pp., dia 30 de novembro, às l8,30 horas.
Fui por respeito e simpatia pelo meu amigo Dimitri, que colaborou comigo numa de minhas conferências – a conferência sobre sobre Polifonia – do ciclo “Pelos Caminhos do Pensamento e da Arte Medieval”, que ministrei no auditório da Livraria Cultura, de março a setembro do corrente ano.
Não fui por convicção íntima.
Concluo disso que vale a pena seguirmos o instinto do coração!
Ele nos faz topar com tesouros, os quais, por vezes, como naquele velho conto árabe, se acham enterrados no pátio de nossa casa.
Que descoberta!
Os rapazes – todos rapazes! – cantam como rouxinóis. Isto é: já que estamos no Brasil, e na primavera, corrijo-me: cantam como os sabiás de Gonçalves Dias da “Canção do Exílio”. Agradeçamos à Natureza que continua a nos prover de tão preciosas vozes!
Prestem atenção, agora, num pormenor: são afinadíssimos!
Vê-se que não poupam esforços para aprimorar o que a Natureza lhes deu. Se vocês tiverem dúvidas a respeito, disponham-se a ir apreciara seus pianíssimos. Não é tudo: esses jovens vão surpreender vocês com um sentido de humor desenvolvido (a escolha das canções renascentistas o mostra).
Falei em canções renascentistas?
Sim, aí está a originalidade desse grupo! Especializaram-se nelas. Alguém poderia perguntar: “Não existem, acaso, canções brasileiras em número e variedade suficiente?” Claro que existem. Mas esses jovens querem cultivar a música erudita, ou como se diz também, a música clássica. E como a preferem,  não deixam por menos: vão bebê-la diretamente nas suas fontes, as do século XV-XVI. Os compositores mais antigos de seu recital foram Josquin Després (1445-1521), Juan del Encina (1469-1529) e Mateo Flecha, El Viejo (1481-1553). Completaram-nos com obras de outros autores, entre os quais duas belíssimas canções religiosas de autoria de Tomás Luis de Victoria e Giovanni Pierluigi da Palestrina.
Que exista em Porto Alegre um grupo assim, que “faz arte sem cachê”, que vai adiante por paixão e teimosia, eis o milagre.
Milagre maior seria vê-los seguirem em frente, e obterem algum subsídio da SEDAC, ou mesmo de mecenas particulares! Por falar nisso: não haverá ninguém no Rio Grande disposto a dar uma mão a esses jovens apaixonados e talentosos?
Alô Televisão da Assembléia Legislativa, alô Televisão Educativa (ou que outro nome tenha)!
Chamem, quanto antes, esses rapazes aos vossos estúdios, dêem-lhes uma, chance de serem ouvidos pelo público. O público gaúcho precisa conhecê-los, precisa estimulá-los! Já temos cantores populares de alto nível, folclóricos ou de outras correntes. Por que não prestigiar, também, cantores que querem guardar uma herança, não apenas gaúcha, mas mundial?
Meus parabéns, gente do Anonymmi Quatuor!
Vocês demonstram que a juventude não só está interessada em carrões, aventuras, talvez drogas, mas que, no meio de vocês, sobeja gente saudável, que pensa noutras coisas, que deseja fruir da arte, promovê-la, e partilhá-la com o maior número possível de pessoas, menos interessadas por uma cultura predominantemente midiática. Gente que sabe que a comida dos restaurantes de grande clientela pode ser saborosa, mas que o é menos saborosa que a comida caseira – e refinada – dos gênios da humanidade, cujas receitas estão ao alcance de quem quiser prová-las...
            (Para maiores informações: www. teatrodearena.com)