sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Observações sobre o livro de Luigino Bruni e Stefano Zamagni:

Economia Civil. Eficiência, equidade, felicidade pública.
(São Paulo, Cidade Nova, 2010).
Caros amigos


O livro Economia Civil, sobre o qual farei alguns comentários, foi escrito por dois professores italianos. Um deles, Luigino Bruni leciona Economia Política na Universidade Milão-Bicocca; o outro, Stefano Zamagni, leciona na Universidade de Bolonha. Ambos são conceituados especialistas conceituados em seu país de origem, com apreciável bibliografia na sua área de estudos, de modo especial o Prof. Zamagni, ex-membro da Pontifícia Academia de Ciências Sociais, que integra a Academia de Ciências de Nova York.
Mestres reconhecidos em economia, ambos são autores cristãos, que pretendem contribuir para que a economia seja cada vez mais ciência e, cada vez mais cristã.
 Embora a leitura da obra de Bruni e Zamagni nos tenha parecido um tanto difícil, em parte devido ao conteúdo que não nos é familiar, em parte devido aos termos técnicos em inglês que a recheiam, confesso que fiquei agradavelmente impressionado com a determinação de nossos autores de pegarem o touro pelos chifres, e também com sua coragem em desmascarar os aspectos mistificados ou mistificadores, que as ideologias costumam infiltrar nas análises econômicas.
Não podemos ficar indiferentes à confissão desalentadora – que os autores citam - de um conhecido economista e sociólogo do século passado, Vilfredo Pareto (1848-1923), que assim falava a um seu colega, em 30 de julho de 1896:
- Diga-me (amigo): se a economia política nunca tivesse sido estudada, estaríamos em situação pior do que a que estamos agora? (...) Toda a nossa economia política é um discurso inútil. (Cit. em Economia Civil, p. 14).
Bruni e Zamagni, justamente a partir dessa confissão, se interessam em situar-nos no mundo concreto em que vivemos. Para isso expõem-nos as duas principais visões econômico-políticas que hoje prevalecem:
I.                    A primeira das visões considera as empresas meras entidades a-sociais. Tal concepção faz apelo a tradições mais ou menos distorcidas da ideologia liberal. Segundo esses teóricos, o social é distinto da mecânica do mercado, algo neutro. O que se exige do mercado é apenas eficiência, geração de riquezas, noutras palavras, aumento do bolo.
(Ib. p. 18).
II.                  No pólo oposto, a segunda visão pretende que as empresas sejam essencialmente antissociais. Seus paladinos são Karl Marx e Karl Polanyi. A visão desses teóricos caracteriza-se por “conceber o mercado como lugar de exploração, e domínio do forte sobre o fraco”. (Ib. p.19). Consoante esses economistas, é ridículo falar em relações humanas, como amizade, reciprocidade, confiança, amor, etc. Seria tão utópico como pretender extrair os dentes aos leões, ou as garras aos tigres - mesmo asiáticos!
Bruni e Zamagni, não aceitam tal bipolaridade.  Propõem uma terceira visão: a da relação mercado-sociedade, noutros termos, propõem uma economia civil.  Daí o título do livro.
A visão da economia civil, que “mergulha suas raízes no pensamento clássico, e na Idade Média cristã”, assume, perante os problemas atuais, uma atitude diferente da assumida pelas visões anteriores. Basicamente, a idéia central da economia civil é conceber a sociabilidade humana e a reciprocidade no interior da vida econômica. Nem paralela, nem anterior, nem posterior. A economia civil sustenta que outros princípios, além do lucro e da troca instrumental, podem encontrar espaço na atividade econômica (Ib. p.19-20). Empenha-se em conciliar dois princípios hoje em mútua hostilidade: a eficiência e a equidade. (Ib. p. 24).
Nesta altura, peço permissão ao professor Maurício Serafim e ao editor Klaus Brüschke, meus companheiros de mesa, personalidades respeitadas em suas respectivas profissões, para uma pitada de humor.
Ao concluir a primeira leitura deste livro, lembrei-me de uma velhíssima estória, que me fez sorrir. Diante das tropelias de um gato exterminador, um bando de ratos não sabia o que fazer para evitar o massacre. Um dos ratos teve a idéia de pendurar um sininho no pescoço do gato. Assim, quando o gato perseguidor se aproximava, os ratos podiam fugir... Problema resolvido!
Caros amigos, desculpem-me essa digressão maliciosa! Sendo um leigo no assunto, e não dominando o economês, tão complicado para mim, como é para alguns dos senhores, e até – quem sabe? - para os meus colegas de mesa, a terminologia da História da Arte e da Estética, minha especialidade, fiquei cismando sobre a dificuldade que temos todos para entender-nos uns aos outros. Assim, com o objetivo de afastar qualquer equívoco,faço questão de afirmar que O livro Economia Civil é um livro sólido, de uma abrangência cristã, que nos deixa eufóricos! Bruni e Zamagni não só mostram erudição nas suas páginas, como também descrevem a problemática contemporânea com uma precisão e nitidez excepcionais. A páginas tantas, por exemplo, eles encaram a economia - não já como uma engenharia de soluções do tipo: “Deus por todos, cada um por si” - mas se empenhando em valorizar a etimologia da palavra grega “oikonomos”, que significa, se aceitamos uma tradução moderna, reflexão sobre as leis da gestão domiciliar.O termo foi ampliado às dimensões da gestão pública de nações e estados.
Dizem os autores: o que é o homem busca com mais insistência?
Respondem eles: é aquilo que, em todas as línguas, se convencionou em chamar de felicidade. Nessa hipótese, como foi possível dar o nome de “Ciência Triste” à Economia? (Ib. p. 141).
Bruni e Zamagni revoltam-se contra tal distorção. Reivindicam para a Economia a denominação de “Ciência da Felicidade”, uma vez que seu objetivo é satisfazer à pergunta que cada um de nós se faz diariamente: “Que devo fazer para ser feliz?”
Um pouco adiante, citam um sugestivo texto do livro d0 filósofo inglês, David Hume (1711-1776), extraído de seu Tratado na Natureza Humana:
                                A completa solidão é, talvez, a maior punição que podemos sofrer. Todo prazer enlanguece quando gozado sem companhia, e toda dor se torna se torna mais cruel e intolerável.(...) Ainda que todos os poderes e elementos da natureza se unam para servir e obedecer a um só homem, ainda que o sol nasça e se ponha ao seu comando, (...) ainda assim ele será infeliz, enquanto não lhe dermos ao menos uma pessoa com quem possa partilhar sua felicidade”(Cit. Ibid. p. 140).
                              
Ao ler esse texto, lembrei-me de alguns nomes da mídia como Bill Gates (que, por sorte, tem Milinda ao seu lado!), de Murdoch, o australiano, de Georges Soros, e de todos os investidores globalizados, sem falar nos 100 homens mais ricos do planeta, entre os quais Warren Buffet que, segundo a Revista Forbes, seria o mais rico de todos. Tais investidores – uns 250 ao todo –  parece serem detentores de algo como 45% de toda a riqueza da humanidade!
O presente livro não tenciona combater moinhos-de-vento, nem gigantes disfarçados. Nada disso! Nossos Quixotes são realistas, e sublinham na sua obra o que sempre existiu de mais puro na tradição humanista ocidental, particularmente dentro da tradição cristã.
A batalha, pois, de Bruni e Zamagni é a de todos os cidadãos honestos do mundo: denunciar vigorosamente os “traços antissociais do comportamento econômico” (Ib. p. 150), em especial, a pandemia que é o Desemprego (Ib. p. 195 ss).
Eles vão ainda longe: prevêm um novo “Modelo Pós-Industrial da Sociedade Contemporânea”,como houve no século passado um “Modelo Pós-Industrial da Primeira Revolução Industrial”. A preocupação primordial de então era a produtividade agrícola. Sobre esse ponto inform-nos nossos autores:
                               (...) depois da passagem da sociedade agrícola para a industrial, a agricultura continuou a aumentar sua produtividade, reduzindo o emprego de mão-de-obra; sua contribuição para o crescimento global do sistema econômico foi progressivamente diminuindo, a ponto de hoje as amplas flutuações da produção agrícola já não influirem praticamente na conjuntura econômica dos países ocidentais. O que queremos dizer é que a agricultura não desapareceu por completo mas, com uma taxa de emprego da ordem de quatro a cinco por cento, é capaz de produzir todo o alimento necessário à população (mundial), até em excesso”.(Ibid. p. 205).
                                Na página 232 do seu livro, acrescentam:
                               A felicidade voltou a aparecer na economia.O elemento desencadeador dessa nova etapa de estudos sobre a felicidade na ciência econômica foi a tentativa de começar a “medir” a felicidade e relacioná-la com as variáveis econômicas mais tradicionais, primeiramente com a renda e, nos anos seguintes, com o desemprego, a inflação e outras (...) Hoje, estudar a dinâmica da felicidade na economia já não é algo que desperte risinhos de mofa (como acontecia há apenas alguns anos, pois economistas de fama indubitável vêm dedicando seu tempo a isso.”
(Ibid. p. 233).
São mencionados alguns experts nessa nova área de trabalho: o demógrafo americano Richard Easterlin, Tibor Scitovsky, Hirsch, Layard, e Amartya Sen.
(Ib. p. 233-238).
Caros amigos, convido-os insistentemente a lerem e meditarem este livro utopista e, no melhor sentido da palavra, “subversivo”, que a Editora Cidade Nova acaba de traduzir para o português.
                            Ajunto o seguinte: quando Deus resolve intervir no mundo, Ele viabiliza a afirmação evangélica: “O que é impossível aos homens, não é impossível a Deus”. Por isso, remato, referindo-me aos autores de Economia Civil: não sorrirei mais dos “ratinhos” que imaginaram o sino para o gato da velha estória.  Deus pode pendurar um sino no pescoço desses gigantescos Gatos Exterminadores da solidariedade humana,que são os gananciosos agiotas internacionais dos capitais voláteis, que até agora não permitiram implementar a famosa Taxa de James Tobin (1918-2002), proposta em 1972, ou seja, a de impôr 1%  de desconto sobre todas as grandes transações financeiras internacionais.

Um comentário:

  1. Gostaria de agradecer a sua presença no evento. Foi um grande prazer conhecê-lo! Estou acompanhando o seu blog. Forte abraço! Mauricio Serafim

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